Notas de Leitura: “A Infância como Construção Social”, de Manuel Pinto (5)

PINTO, Manuel. A Infância como Construção Social. In_ Pinto, Manuel; SARMENTO, Manuel Jacinto. As Crianças: Contextos e Identidades. Braga: Bezerra Editora, 1999.

2. A infância, desenvolvimento e socialização

          Para Manuel Pinto, embora seja um conceito relativamente recente, a socialização das crianças é um processo “tão antigo como as sociedades humanas”.

          Assim o autor define que a socialização é o “processo através do qual os indivíduos apreendem, elaboram e assumem normas e valores da sociedade em que vivem, mediante a interacção com o seu meio mais próximo e, em especial, com a sua família de origem, e se tornam, desse modo, membros da referida sociedade”.

          Conforme nos esclarece, a socialização tem sido abordada a partir de duas maneiras distintas: a partir da sociedade e dos agentes socializadores (perspectiva segundo a qual a “questão central consiste em saber como é que uma dada sociedade transmite/ inculca valores, crenças, normas e estilos de vida”); ou então a partir dos indivíduos em processo de socialização e dos respectivos mundos sociais (nesta, o centro são a atividade dos indivíduos, os processos de apropriação, de aprendizagem e de interiorização).

          Opondo-se à idéia de socialização como uma espécie de “programação cultural”, isto é, de inculcação, de absorção passiva das “realidades com que entra em contato”, Pinto recorre a Giddens, para quem a criança é um ser ativo nesse processo; mas alerta para o fato de que “os pressupostos de uma parte importante dos modelos conceptuais elaborados acerca do processo de socialização continuam a privilegiar a vertente da sociedade e do mundo adulto, deixando mais ou menos explícito o caráter constrangedor e programador deste e o papel meramente adaptativo do indivíduo” – nesse caminho segue Talcott Parsons, pra quem a socialização se constitui numa “das alavancas fundamentais da construção do consenso social”; em sentido oposto, encontra-se Wrong, que classifica como adestramento essa noção de socialização de Parsons.

          Buscando uma via diferenciada, Piaget concentra sua teoria de socialização “nos processos mentais e na noção de construção por parte do indivíduo”, atribuindo a cada estádio de desenvolvimento uma forma correspondente de socialização. Dialogando com Durkhein, ora aproximando-se deste, ora contrapondo-se, Piaget concluiu que “existem relações sociais específicas que são características dos grupos infantis”, com regras próprias que, “nem por isso, deixam de ser sociais”.

          Fazendo uma leitura crítica, Chris Jenks compreende que, subjacente à teoria piagetiana, está “implícito um paradigma de racionalidade científica caracterizado por um elevado grau de abstração, generalização, de natureza lógico-dedutiva, erigido como ideal para o qual a criança em processo de socialização deveria tender”. Chama a atenção para a falta de questionamento e não explicitação desses pressupostos e, ainda, que a adoção de um “modelo de adulto sério e racional tenderia a fazer encarar o jogo como uma atividade trivial e não séria”. Jenks, por sua vez, considera o jogo como “uma dimensão importante do trabalho da criança enquanto membro de uma sociedade”.

          A secundarização, atribuída a Piaget, ao papel da linguagem também é criticada por Jenks. Pinto nos esclarece que, para Piaget, o desenvolvimento lingüístico é resultado do desenvolvimento cognitivo, enquanto para os psicólogos russos, entre os quais destaca-se Vygotsky, o desenvolvimento cognitivo é impulsionado pelo surgimento da linguagem e, consequentemente, do pensamento discursivo. Com posição intermediária, Bruner considera que, “no caso dos bebês, é verdade que é o desenvolvimento cognitivo que precede e influencia o desenvolvimento lingüístico”, mas isso muda quando a criança passa a dominar a linguagem como instrumento do pensamento. (CONTINUA…)

Notas de Leitura: “A Infância como Construção Social”, de Manuel Pinto (4)

PINTO, Manuel. A Infância como Construção Social. In_ Pinto, Manuel; SARMENTO, Manuel Jacinto. As Crianças: Contextos e Identidades. Braga: Bezerra Editora, 1999.   

       O historiador Lloyde de Mause, aproximando-se parcialmente das idéias de Ariès e opondo-se enfaticamente à visão romanceada da construção social da infância, afirma que esta é marcada por atrocidades: “Quanto mais recuarmos nessa história, mais probabilidade teremos, segundo ele, de nos confrontarmos com a morte, o abandono, a violência, o terror e o abuso sexual sobre as crianças[1].

          Por outro lado, De Mause acredita que há uma tendência de evolução histórica no tratamento dado pelos adultos às crianças; apoiando-se em sua teoria “psicogenética” da História, “sustenta que cada geração acciona uma capacidade de retroceder à idade psíquica dos filhos e que, revivendo a ansiedade própria dessa idade, procura proporcionar uma melhor experiência do que aquela teve então”.

          Ainda que De Mause não tenha feito eco entre os historiadores, o fato é que, como ressalta Manuel Pinto, as atitudes relativamente à infância foram lentamente evoluindo, na esteira das “novas condições de vida” e das “novas mentalidades que se vão difundindo a partir do Renascimento”.

          Nesse sentido, Pinto reitera a importância das idéias de Locke e Rousseau que, embora distantes um do outro quanto ao sentido – positivo ou negativo – da influência do adulto no processo de formação da criança aproximam-se justamente pelo “reconhecimento do caráter decisivo da atenção e da intervenção dos adultos” nesse processo.

          Dando continuidade à investigação de como se dá a progressiva evolução da noção de infância, o autor dialoga com Freud, contrapondo este à Locke: longe de ser uma tabula rasa, a criança “está dotada de um aparelho psíquico, de impulsos instintivos e de capacidade de enfrentar os obstáculos que se lhe deparam”.

          Igualmente importante para a compreensão da infância, o filósofo norte-americano George Mead, estudando “os processos pelos quais se desenvolve na criança o sentido do eu (self) e do outro”, concluiu que o jogo (isto é, o faz-de-conta) tem importância relevante na construção desse sentido: a representação de papéis, típica da brincadeira de faz-de-conta, proporciona a “experiência da alteridade, isto é, do mundo exterior, enquanto realidade distinta” (que é, conforme Mead, “anterior à experiência que as crianças fazem de si”); ao fazer essa experiência, a criança “vê-se a si mesma”, ou seja, vai construindo a sua identidade.

          Pinto argumenta que a atual noção de infância começou a se delinear a partir dos séculos XVI e XVII, advertindo, porém: “só praticamente nos últimos 150 anos [adquiriu], de facto, expressão social, não só no plano da enunciação e dos princípios, como também, e, sobretudo, no plano da prática social generalizada”.

          À medida que se vai adquirindo cada vez mais um sentido de infância, vai-se também prorrogando cada vez mais a incorporação da criança ao mundo adulto, alargando-se, desde modo, o “tempo da infância, progressivamente ligado ao conceito de aprendizagem e de escolarização”. Além de extremamente lento, ressalta o autor, esse processo inicialmente esteve “bastante circunscrito às classes mais abastadas” (como foi afirmado anteriormente, com outras palavras, daí decorre que a noção de infância associa-se também à condição econômica. Assim constatado, não poderíamos afirmar que a visibilidade e a invisibilidade da infância têm que ver, substancialmente, com a classe social a qual pertence?).

          Ainda que sem aproximar-se das “pinceladas” drásticas que De Mause faz da história da infância, Freud vai à contramão da visão de inspiração rousseauniana de Fröebel, Pesatalozzi e Montessori, segundo os quais “a idéia prevalescente é a de que a criança é um ser bom, espontâneo e criativo e de que a educação deve assegurar as condições para um equilibrado desenvolvimento destas características”. Como explica Manuel Pinto, “os contributos freudianos evidenciam que o desenvolvimento infantil é um processo pouco romântico e bastante dramático, ao sugerir como condição do crescimento e do desabrochar para a vida social a capacidade de sublimar impulsos libidinais e agressivos. (CONTINUA…)


[1]Keyla Grinberg, em artigo publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional, ao relatar a história de uma negra escravizada na luta pela sua libertação, nos dá um exemplo bem claro do que Lloyde de Mause denuncia. Vejamos: “Desde muito nova, a escrava era assediada por seu senhor. Como Vieira costumava seduzi-la com promessas de liberdade, ela passou a conceder-lhe favores sexuais, mesmo de mau grado, logo tendo dois filhos. O primeiro, João, foi batizado e reconhecido como fruto do casal. O segundo não chegou a ser declarado, pelo medo que Liberata sentia das perseguições da família Rebello. Uma das razões de seu medo era o fato de ter sido testemunha ocular dos crimes cometidos por Anna, filha de seu senhor: ajudada pelo pai, a sinhazinha matou seus filhos recém-nascidos, todos ilegítimos, que havia tido com moradores da região”. (GRINBERG:2010)

Notas de Leitura: “A Infância como Construção Social”, de Manuel Pinto (3)

PINTO, Manuel. A Infância como Construção Social. In_ Pinto, Manuel; SARMENTO, Manuel Jacinto. As Crianças: Contextos e Identidades. Braga: Bezerra Editora, 1999.

          Contrapondo duas realidades, o autor aponta que a separação entre adultos e crianças, no caso das classes ricas, se traduz na freqüência escolar em regime de internato; enquanto para as crianças das classes pobres, “o trabalho desde tenra idade iria continuar a ser uma realidade ainda por muito tempo”. Concomitante, vai crescendo a preocupação em relação à responsabilização da sociedade pela “recolha e proteção das crianças abandonadas e vagabundas”.

          No contexto da Revolução Francesa, em 1793 Condorcet propõe a laicidade e obrigatoriedade escolar para as crianças (meninas e meninos), negando a compreensão dos pais como proprietários e credores dos filhos, atribuindo àqueles o papel de devedores de seus filhos. Ainda assim, nos lembra Pinto, o debate sobre qual a melhor educação continuava: a promovida pela escola, ou a proporcionada pela família?

          Para o autor, a idéia de infância está necessariamente associada à idéia de família, que vai se modificando historicamente – tanto em conceito como em estrutura organizativa –, decorrente das diversas realidades econômicas: “ao longo dos tempos modernos, em diversas partes do Ocidente europeu, foram períodos de dificuldades econômicas que estiveram na origem da expansão de outros modelos” [de família], afirma Pinto.

          Essa afirmação possui dupla importância, pois, de um lado, corrobora a noção da infância como um constructo social (“aquilo que parecia um fenômeno natural e universal era afinal o resultado de uma construção paulatina das sociedades moderna e contemporânea”) e, de outro, indica – como veremos mais adiante – que tal noção condiciona-se não apenas pelo tempo histórico, como também pelas condições materiais de existência, o que nos levará a compreender que, ao nos referimos à infância, não poderemos nunca dissociá-la de seu contexto (econômico, social, cultural,) e que, por isso, um mesmo período histórico não abarca somente um tipo de infância, mas sim múltiplas infâncias. (CONTINUA…)

Notas de Leitura: “A Infância como Construção Social”, de Manuel Pinto (2)

PINTO, Manuel. A Infância como Construção Social. In_ Pinto, Manuel; SARMENTO, Manuel Jacinto. As Crianças: Contextos e Identidades. Braga: Bezerra Editora, 1999.

  1. Uma perspectiva histórica sobre a infância

Retomando os estudos de Ariès, apresenta uma síntese das idéias sustentadas no livro “A Criança e a Vida Familiar no Antigo Regime”, a saber:

– Distinção entre infância e idade adulta tomando forma a partir dos finais do século XVII e especialmente do século XVIII, em alguns setores da aristocracia e da burguesia;

– Indícios de diferenciação entre criança e adulto já no século XVI, mas “nas classes superiores da sociedade”;

– Representação das crianças medievais como homúnculos;

– Persistência dos antigos modos de vida e de concepções de infância quase até aos nossos dias, entre as classes populares.

O autor nos lembra que a inexistência, em séculos passados, do que Ariès cunhou como sentimento de infância, não significa que os adultos desprezavam ou negligenciavam as crianças, pois embora pudesse não haver a noção moderna de infância, a existência da afeição do adulto pela criança não pode ser desconsiderada. Por outro lado, ressalta que a incorporação da criança na sociedade adulta (isto é, nas suas atividades e afazeres) acontecia precocemente, à medida que a criança ia adquirindo “certo grau de discernimento de si e do mundo”; tal transição, supõe, deveria iniciar por volta dos sete anos – idade que a igreja considerava que a criança já teria atingido “algum uso da razão”.

Ainda valendo-se de Ariès, Pinto expõe a conexão entre a constituição da categoria de infância e a preocupação pedagógica, argumentando que:

  1. A escola medieval não se destinava a educar a infância e, por isso, era indiferente à distinção e separação das idades;
  2. O interesse pela educação infantil, e a conseqüente separação gradual da infância em relação à sociedade adulta, está associado ao surgimento da imprensa e o procedente interesse pela alfabetização, isso tudo no contexto de mudanças sociais e de ascensão da burguesia mercantil;
  3. Esse interesse acarreta o reconhecimento da necessidade de proteção e de formação da criança, que passa a estar progressivamente sob a responsabilidade de instituições específicas, escalonadas por níveis etários;
  4. A educação das crianças, “desde o século XVIII até os nossos dias”, passa a utilizar como estratégia, alternadamente, ternura e severidade. (CONTINUA…)

Notas de Leitura: “A Infância Como Construção Social”, de Manuel Pinto (1)

PINTO, Manuel. A Infância como Construção Social. In_ Pinto, Manuel; SARMENTO, Manuel Jacinto. As Crianças: Contextos e Identidades. Braga: Bezerra Editora, 1999.

Por Marcelo Siqueira

Manuel Pinto, no artigo em análise, nos conduz à reflexão, entre outras mais, sobre a suposta naturalidade atribuída à infância, defendendo a “dimensão de construção social” como característica dessa etapa de vida.

Propõe-se ao que denomina “abordagem sociológica da infância”, pautando-se pela perspectiva histórica e, assim, pelo foco nas dimensões sociais da infância; em suma, “no conjunto de processos sociais, mediante os quais a infância emerge como realidade social, realidade essa que produz, em certa medida, a própria sociedade”.

Como veremos em suas conclusões, a criança não é um ser passivo, que se constrói unicamente a partir da intervenção do meio social com ela; mais do que isso, ela interage com esse meio e, ao interagir, constrói a si e modifica a realidade.

Inicialmente, o autor enumera uma grande variedade de posições a respeito da infância, entre as quais: consideração da criança pelo que ela já é ou, contrariamente, pelo seu devir; necessidade de iniciação ao mundo adulto, ou a proteção da criança desse mundo; criança como um ser com competências e capacidades, ou a evidenciação de seus limites, de suas carências. (CONTINUA…)

Ensaios sobre financiamento público e Educação Infantil (2)

Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil (24 de fevereiro de 1891)

Fruto das disputas internas entre liberais e monarquistas, das pressões estrangeiras, e filha do golpe que levou ao poder o Marechal Deodoro da Fonseca, a Constituição de 1891 colocou um fim às pretensões de perpetuação monárquica e inaugurou o período conhecido como Velha República – designação muito apropriada, tendo em conta que aquela veio ao mundo quase natimorta, pois o seu próprio ilustríssimo expoente, o Sr. Deodoro da Fonseca, mal chegou à cadeira presidencial e

… “já se cansou de brincar de democracia. Enfrentando problemas com o Congresso e uma situação financeira deteriorada, resolve ignorar a Constituição brasileira, apenas oito meses depois desta ser homologada. Cerca com suas tropas o plenário e dissolve o Congresso”. (DUCLÓS: 2009)

De qualquer forma, a Constituição recém-inaugurada, além de promover a separação entre os assuntos do Estado e os assuntos da Igreja Católica, no âmbito administrativo transforma as províncias em Estados e cria o Distrito Federal, estabelecendo novas relações – de dependência, de interdependência e de autonomia – entre as unidades federativas, inclusive o princípio de não intervenção da União nos assuntos dos Estados – obviamente com algumas exceções; elimina o então denominado Poder Moderador e estabelece como constituintes da organização do Estado os até hoje conhecidos Três Poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário.

No plano político, não admite os “privilégios de nascimento, desconhece foros de nobreza e extingue as ordens honoríficas existentes e todas as suas prerrogativas e regalias, bem como os títulos nobiliárquicos e de conselho”.

No plano jurídico, abole a pena de morte, as galés e o banimento. No plano social, estabelece a igualdade (formal) de direitos, a liberdade de culto, entre outros.

No plano educativo, a principal novidade é a decretação do ensino laico nos estabelecimentos públicos (Art. 72, § 6º). Quanto à organização do ensino, financiamento e responsabilidades entre as esferas administrativas, nada consta.

Livros: “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck

“A podridão espalha-se por todo o estado, e o cheiro doce torna-se uma grande preocupação nos campos. Os homens que sabem enxertar as árvores e fazer fecundas e fortes as sementes não encontram meios para deixar a gente esfaimada comer seus produtos. Homens que criaram novas frutas para o mundo não sabem  criar um sistema pelo qual suas frutas possam ser comidas. E o fracasso paira sobre o estado como um grande desgosto.

As obras feitas nas raízes das vinhas e das árvores devem ser destruídas, para que sejam mantidos os preços em alta. É isto o mais triste, o mais amargo de tudo. Carradas de laranja são atiradas ao chão. O pessoal vinha de quilômetros de distância para buscar as frutas, mas agora não podia ser. Eles não iam comprar laranjas a vinte cents a dúzia, quando bastava saltar dos carros e apanhá-las do chão. E homens com mangueiras derramam querosene sobre as laranjas, e eles estão furiosos como crime, com o crime daquela gente que veio buscar frutas. Um milhão de pessoas com fome, pessoas que necessitam das frutas… e o querosene derramado sobre as faldas das montanhas douradas.

O cheiro de podridão enche o país.                                         

Eles queimam café como combustível de navios. Queimam o milho pra aquecer; dá um bom fogo. Atiram batatas nos rios, colocando guardas ao longo das margens para evitar que o povo faminto vá pescá-las. Abatem porcos, enterram-nos, e deixam a putrescência penetrar na terra.

Há um crime nisso tudo, um crime que está além da compreensão humana. Há uma tristeza nisso, a qual o pranto não pode simbolizar. Há um fracasso nisso, o qual opõem barreiras ante todos os nossos sucessos: à terra fértil, às filas retas de árvores, aos troncos vigorosos e às frutas maduras. E crianças, sofrendo de pelagra,  têm que morrer, porque a laranja não deve deixar de dar o seu lucro. E médicos-legistas devem declarar nas certidões de óbito: “Morte por inanição”, porque a comida deve apodrecer, deve ser forçada a apodrecer.

O povo vem com redes para pescar as batatas no rio, e os guardas impedem-no. Os homens vêm nos carros barulhentos apanhar as laranjas caídas ao chão, mas elas estão untadas de querosene. E eles ficam imóveis, vendo as batatas passarem flutuando; ouvem os gritos dos porcos abatidos num fosso e cobertos de cal viva; contemplam as montanhas de laranjas, num lodaçal putrefato. Nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as vinhas da ira diluem-se e espraiam-se com ímpeto, amadurecem com ímpeto para a vindima”.

[Steinbeck, John. As Vinhas da Ira. – 9 ed. – RJ: Record, 2009]

——————–

Impressionante a sensação que ficou após terminar a leitura desse romance: a de que eu não havia lido nada antes de ler “As Vinhas da Ira” (não somente na área da literatura, mas em todas as demais: sociologia, educação, filosofia etc).  Não que as leituras anteriores não tenham sido significativas e algumas até mesmo essenciais, muito pelo contrário: é que a impressão que fica é a de que um ciclo se completa, um nó se desata, uma compreensão de mundo se reforça, se ressignifica.

Sabe aquilo que você quer dizer e lhe faltam palavras? Ou aquilo que você quer pensar e lhe faltam idéias? Está ali, estampado em cada parágrafo, impresso em cada palavra não por um escritor de gabinete, mas por alguém que viveu a experiência que narra, e a narra com uma precisão cirúrgica, num tom coloquial, no entanto, sem se render a fórmulas fáceis, a frases feitas, ou a estereotipias desbaratadas e maniqueísmos típicos dos best sellers.  Acredito que será impossível você permanecer impassível a esta história, muito menos ao seu final comovente.

Ao imergir no mundo das personagens desta história, de seus dramas, de suas lutas, de seus sonhos, de seus sucessos fugazes e fracassos constantes, é fascinante perceber como Steinbeck as constrói tão humanas – humanamente possíveis e humanamente viáveis -, capazes de bondades instintivas, de maldades torpes, e de se agarrarem à vida a todo custo, mesmo quando a mesquinharia e a ganância jogam milhões de pessoas cada vez mais na miséria absoluta, e a somatória de todos os acontecimentos subtrai suas esperanças, vilipendiando-as, colocando-as numa escala de valor inferior a de um animal de carga (aos cavalos quando não trabalham, nunca falta comida, repete o autor, como a nos estapear por nossos preconceitos de classe, por nossos ranços burgueses).

Simplesmente uma viagem da qual não dá para permanecer impassível; uma viagem cujo final comovente nos serve de alerta e de lição. Mas não vá tentar comer a comida crua, mastigue-a lentamente, saboreando cada pedaço, para que o último pedaço, isto é, a última cena, tenha sempre um sabor de “quero-mais”.

M.S.

P.s: Não pude deixar de lembrar as tão propaladas palavras de Marx, que vão citadas livremente: “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem”…

Bom Pra Cachorro

Passei a semana toda apoquentado com uma crônica a ser entregue ainda hoje. No início estava empolgado com a proposta – belo desafio! –, mil idéias passando pela cabeça, mas nenhum assunto em especial.

Conheço um poeta que, na falta de assunto, escreve sobre o próprio fazer poético. Descobri isso neste domingo, quando, após a tradicional macarronada, me apresentou um de seus autopoemas – como gosta de chamar estes poemas sem assuntos.

Vou contar o milagre, mas o santo permanecerá anônimo, porque é meu amigo e não quero comprometer a sua reputação, ou constrangê-lo publicamente. O fato é que, ainda com a vista turva – efeito do vinho uruguaio (ou era paraguaio?) – fui submetido a uma bateria de poemas e enxertos literários.

Já que estava ali, resolvi me aconselhar com quem entende do assunto: “Como é que se faz quando se quer muito escrever – na verdade, precisa – e o assunto falta?”

Com ar de perito, sacou de uma gaveta outro poema, propondo-me a leitura. Sou leigo na área, mas, com certa facilidade, sei diferenciar um “furo” – no jargão jornalístico – de uma “furada” – na expressão popular – ou, em outras palavras, reconhecer um bom “vinho”.

“Você tem mais neste estilo?” Tinha. Da mesma gaveta saltaram mais um, dois, três… Sete poemas em folhas sutilmente amareladas. “Que bom que você gostou – disse o amigo, entre sorrisos e tapinhas nas minhas costas –, já que está de saída, leve estes e depois me conta o que achou!”

Alojei-os discretamente embaixo do braço, meio sem jeito. De onde ele tirou que eu havia gostado do poema? Na verdade, não fosse a amizade de longa data (ou o inconveniente de perdê-la), teria sugerido o quanto antes a queima daquele delito, verdadeiro assassínio da Língua Portuguesa (os poetas são seres estranhos, passam dias e noites debruçados sobre o dicionário procurando significados de algumas palavras só para, depois de tanto trabalho, dar a elas significados diferentes; ou até mesmo antagônicos!).

Todavia, outra coisa me deixava encafifado: que idéia aquela de que eu já estava de saída?! Bem, melhor não protestar (ultimamente meu amigo não andava muito bem)… Assistiria a Fórmula Trucker em casa mesmo.

Enquanto acompanhava-me até a porta, ia recomendando que eu não mostrasse seus poemas a ninguém. “Sabe como é, né?” . Não sabia. A recomendação era desnecessária e sem sentido – além de amigo fiel, permanecia um leitor fiel… E único!

Em casa, um incidente me colocou em vias de um colapso nervoso. Enquanto tomava banho, o cachorro entrou no quarto e, encontrando as folhas espalhadas sobre o assoalho (provavelmente uma lufada as tenham levado ao chão), resolveu acomodar-se, inadvertidamente, nelas.

Ao me ver saindo do banheiro, o cachorro deu um pulo e se esgueirou porta afora, deixando as folhas amassadas. Recolhendo-as, notei que uma delas estava umedecida, desprendendo um ácido odor amoníaco. Filho de uma cachorra!!! No susto, urinara no papel…

Era preciso, urgentemente, tomar uma providência. Avistei o secador de cabelos na penteadeira. Talvez resolvesse. No fim da delicada operação, nenhuma letra havia se desfigurado, apenas restou uma folha ligeiramente mais amarelenta que as demais. Possível que o amigo nem percebesse a diferença… Mas, aquele odor de urina de cachorro denunciava-me o descuido!

Como boi indo para o corte, tomei o telefone, imaginando a melhor maneira de noticiar o desagradável ocorrido. Os números foram discados inconscientemente. Quando dei por mim, a voz do outro lado da linha já estava praguejando a ausência de identificação por parte de quem telefonara. A conversa se deu mais ou menos assim:

– Ahãn! Alô, fulano? Sou eu…

– Ah, é você! Pensei que fosse trote.

– Sabe aqueles poemas que você pediu pra eu ler?…

– Sei. Pelo jeito, você não gostou… Vai, pode criticar, comigo não tem esses melindres!

– Não, não é o caso. É…

– Ah, então gostou, hein? Que bom, e aí?

– É que…

– Pode falar. Eu te conheço, está com vergonha de elogiar!

– Eu?! Vergonha?…

O sujeito realmente havia mexido com meus brios. Ora essa, insinuando que eu estivesse com vergonha de elogiá-lo… Que presunção! Resolvi partir para o ataque:

– Quer saber mesmo? Eles não ficaram ruins, não. Ficaram bons. Bons pra CAHORRO!

É, pra CA-CHOR-RO!!! – repeti, sílaba por sílaba, enquanto do outro lado da linha ainda podia ouví-lo dizer: “Eu sabia, eu sabia!”

Sem me despedir, indignado, coloquei o fone no gancho. De certo, o amigo poeta não retornaria o telefonema. Pensaria que a ligação tivesse caído, ou, na bestial empolgação, se ocuparia com novos “autopoemas”. Com sincera repugnância, enfiei as folhas na gaveta, como se escondesse a arma de um crime ou o próprio crime.

O domingo se esvaía e nenhuma idéia (ao menos fosca) despertava-m para a crônica encomendada.

Escrever por escrever… Que ideia brilhante! Pra cachorro! Não, isso não! Teria, quiçá, o mesmo fim do poema de meu amigo.

Aliás, um fim merecido!

[M.S.]

Ensaios sobre financiamento público e Educação Infantil (1)

Por Marcelo Siqueira

“Constituição Política do Império do Brazil” (25 de março de 1824)

 A primeira Constituição brasileira marcou, no âmbito legal, o momento histórico conhecido como “Independência do Brasil” – processo esse que tirou o Brasil das garras portuguesas e o lançou às amarras econômicas da Inglaterra. Era o nascimento de uma nação; e da eterna dívida externa.

Forjada nos gabinetes do então Imperador Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon – que para o nosso alívio passou a ser denominado simplesmente Dom Pedro I (primeiro do Brasil, mas IV de Portugal) –, a Constituição de 1824, resultada da evidente preocupação com a organização administrativa e consolidação dos poderes do Império, se por um lado apressou-se em proibir aos pobres o direito ao voto e à candidatura, bem como coroou o casamento da religião Católica Apostólica Romana com o Estado, tornando-a religião oficial do Império, por outro lado instituiu, entre outros direitos sociais, a inviolabilidade do “Segredo das Cartas” e aboliu – ao menos em nível discursivo – “os açoites, a tortura, a marca de ferro quente, e todas as mais penas crueis”.

A Constituição Imperial, contudo, quase nada tratou de educação, sendo evasiva com relação à organização do ensino e omissa sobre o financiamento para este setor. Assim, em seu Título 8º (“Das Disposições Geraes, e Garantias dos Direitos Civis, e Politicos dos Cidadãos Brazileiros”), promulga:

·         “A Instrucção primaria, e gratuita a todos os Cidadãos” (Inciso XXXII).

·         “Collegios, e Universidades, aonde serão ensinados os elementos das Sciencias, Bellas Letras, e Artes” (Inciso XXXIII)

Ainda que não caracterize a “instrução primária” e não estabeleça mecanismos de garantias, a “boa-nova”, no caso, trata-se justamente da gratuidade dela para todos os cidadãos (entre os quais, as mulheres). É bem verdade que instituir no corpo da lei foi uma coisa, fazer acontecer é que não foi nem tão rápido, nem tão simples, nem tão amistoso.

Isso não quer dizer que a educação ficou esquecida durante o Brasil Império, pois, em 15 de outubro de 1827, D. Pedro I promulgou um Decreto-Lei que legislou sobre a organização do ensino primário no Brasil e sobre o qual arriscamo-nos a afirmar que se trata da primeira lei sobre financiamento público da educação, no sentido de determinar aos Presidentes das Províncias a fixação e os limites dos salários dos professores.

No entanto, a infância brasileira ainda estava bem mais de 100 anos distante de adquirir visibilidade e, assim, constituir-se enquanto sujeito de direitos educacionais – o que ocorrerá formalmente 161 anos após, com a promulgação da Constituição de 1988, que coloca a educação da criança de 0 a 6 sob a responsabilidade dos sistemas de ensino, definindo creches e pré-escolas como integrantes da Educação Infantil.

"Sinto-me nascido a cada momento/ Para a eterna novidade do Mundo…" (Alberto Caeiro)

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Aqui você pode encontrar informações dos livros e eventos realizados pela editora Boitempo. E, principalmente, pode interagir e ajudar na construção da editora que ousou ter uma cara e conquistou seu espaço produzindo livros de qualidade

E M A N C I P A Ç Ã O - ensaios de Filosofia Negativa

"Não há vida correta na falsa" (Theodor Adorno)

Inferno Riscado a Giz

A CASA DO POETA TRÁGICO