Arquivo da categoria: Poema Pedagógico

O Inglório começo da Colônia Gorki (2/6)

Ao chegar na colônia, já lá encontrei o chefe do abastecimento Kaliná Ivánovitch, que me saudou com uma pergunta:

― O senhor é que será o diretor do Departamento Pedagógico?

Constatei logo que Kaliná Ivánovitch falava com sotaque ucraniano, embora por princípio se recusasse a reconhecer o idioma da Ucrânia. No seu léxico havia muitas palavras ucranianas e ele pronunciava o som do “guê” sempre à maneira do Sul, como um “H”. Mas na palavra “pedagógico” ele caprichava tanto na pronúncia literária russa, que o seu “guê” saía até duro demais.

― O Senhor é que será o diretor do Departamento Pedagógico?

― Por quê? Eu sou o diretor da colônia.

― Não – disse ele, tirando o cachimbo da boca –, o senhor será o chefe do departamento pedagógico e eu, o chefe da parte econômica.

Imaginem um pan [1]de Vrubel, já totalmente calvo, com apenas alguns tufos de cabelo sobre as orelhas. Raspem a barba do pan e aparem-lhe os bigodes à moda episcopal. Ponham-lhe um cachimbo entre os dentes, e terão não mais um pan, mas Kaliná Ivánovitch Serdiuk. Ele era assaz complicado para um trabalho tão simples como a chefia econômica de uma colônia infantil. Tinha atrás de si não menos de cinqüenta anos de atividades diversas. Mas o seu orgulho era constituído de duas épocas somente: n a juventude, ele fora hussardo da guarda pessoal do Regimento de Keksholm de Sua Majestade, e em 1918 dirigia a evacuação da cidade de Mírgorod durante a ofensiva alemã.

Kaliná Ivánovitch ficou sendo o primeiro objeto da minha atividade educacional. O que me causava maiores dificuldades era a quantidade das suas variadíssimas opiniões. Ele deblaterava com o mesmo entusiasmo contra os burgueses, os bolcheviques, os russos, os judeus, o nosso relaxamento e a meticulosidade alemã. Mas os seus olhos azuis brilhavam com tanto amor à vida, ele era tão sensível, receptivo r disposto, que eu não poupei um pouco da minha energia pedagógica para ele. E comecei o meu trabalho educacional com ele logo nos primeiros dias, desde a nossa primeira conversa:

― Como assim, camarada Serdiuk, a colônia não pode funcionar sem um diretor-geral. Alguém deve ser responsável por tudo.

Kaliná Ivánovitch tornou a tirar o cachimbo da boca e inclinou-se respeitosamente para o meu rosto:

― Então o senhor deseja ser o diretor da colônia? E que eu, de certa forma, seja seu subordinado?

― Não, não é necessariamente assim. Se quiser, posso ser eu o seu subordinado.

― Eu não estudei pedagogia, e o que não me cabe, não me cabe. O senhor é ainda um homem jovem – e quer que eu, um velho, seja os eu menino de recado? Assim também não fica bem! Quanto a ser diretor da colônia, para isso eu não tenho preparo suficiente, sabe – e para que é que eu vou querer isso?

Kaliná Ivánovitch afastou-se de mim, abespinhado. Emburrou. Andou tristonho o dia inteiro, e ao anoitecer veio para o meu quarto, já totalmente abatido.

― Eu lhe coloquei aqui uma mesinha e uma cama, o que pude encontrar…

― Obrigado.

― Eu pensei e pensei como vamos fazer com esta colônia aqui. E resolvi que é melhor, de fato, que o senhor seja o diretor da colônia, e que eu seja, por assim dizer, seu subordinado.

― Vamos nos entender, Kaliná Ivánovitch. Ficaremos bem.

― Eu também penso assim, que ficaremos bem. Não é um bicho de sete cabeças, e nós faremos a nossa parte. E o senhor, como homem instruído, vai ser por assim dizer o diretor.

Pusemos mãos à obra. Com auxílio de escoras, conseguimos colocar de pé o rocinante de trinta anos. Kaliná Ivánovitch encarapitou-se numa espécie de charrete que nos foi gentilmente cedida por um vizinho, e toda essa geringonça deslocou-se em direção à cidade à velocidade de dois kilômetros por hora. Começou o período de organização.

Para o período de organização foi estabelecida uma meta bastante apropriada – a coleta de valores materiais indispensáveis para a educação do homem novo. Durante dois meses, eu e Kaliná Ivánovitch passávamos dias inteiros na cidade. Kaliná Ivánovitch viajava no veículo, eu ia a pé. Ele considerou o pedestrianismo abaixo da sua dignidade, a o passo que eu de modo algum conseguia me adaptar ao ritmo proporcionado pelo ex-corcel quirquiz.

No decorrer de dois meses, com a ajuda de especialistas da aldeia, conseguimos por mais ou menos em ordem uma das casernas da antiga colônia: colocamos vidraças, consertamos estufas, pusemos portas novas. Na área da política exterior, tivemos uma só, mas significativa, realização: de tanto insistir, conseguimos arrancar 150 puds[2] de farinha de centeio da Comissão Especial de Alimento do Primeiro Exército da Reserva. Não tivemos tanta sorte em “coletar” outros valores materiais…

Comparando esse resultado com os meus ideais na esfera cultural material, constatei que, se eu tivesse cem vezes mais, faltaria para o meu ideal o mesmo que agora. Em resultado do que me vi obrigado a declarar encerrado o período de organização. Kaliná Ivánovitch concordou com o meu ponto de vista:

― E o que é que você vai coletar, quando eles, os parasitas, só produzem isqueiros? Arruinaram o povo, está entendendo, e agora a gente que se organize como puder. Vamos ter de fazer como Ilyá Múromets…[3]

― Ilyá Múromets?

― Pois é. Existiu esse tal… Ilyá Múromets… quem sabe você ouviu falar dele… bem, aqueles parasitas o proclamaram um bogatyr, um herói. Mas eu cá acho que ele não passou de um pobretão e um vadio,q eu andava de trenó em pleno verão.

― Pois bem, façamos como Ilyá Múromets, isto ainda não é tão mau assim. E quanto ao Solovêi-Bandido?

― Solovêi-bandidos, amigo, temos à vontade…


[1] Senhor ou patrão em ucraniano.

[2] Pud: medida de peso, cerca de 16 kg.

[3] Ilyá Múromets e Solovêi (Rouxinol)-Bandido: bogatyrs, heróis populares lendários da velha Rússia.

O inglório começo da Colônia Gorki (1/6)

Por Anton Semiónovitch Makarenko

A seis quilômetros de Poltava, pelas encostas de colinas arenosas, estende-se uma floresta de pinhos de uns duzentos hectares, e bordejando a floresta corre a estrada para Khárkov, pavimentada de pedras limpinhas, de brilho monótono.

Na floresta há uma clareira de uns quarenta hectares. Num dos seus cantos foram colocadas cinco estruturas em forma de caixote de tijolos, geometricamente certos, compondo todos juntos um quadrado perfeito. Isto é que é a nova colônia para infratores da lei.

O pátio arenoso desce para se fundir com uma ampla clareira na floresta, até os juncos de uma lagoa, em cuja margem oposta se vêem as cercas e as casinhas de uma quinta de kulács. Ao longe, no horizonte, delineiam-se no céu os contornos de um renque de velhas bétulas, mais uns dois ou três telhados de palha. E só.

Antes da Revolução existia aqui uma colônia de menores delinqüentes. Em 1917 ela se dispersou, deixando atrás de si bem poucos vestígios pedagógicos. A julgar por esses vestígios, preservados em surrados livros-diários, os diretores pedagógicos da colônia eram velhos militares, ao que parece oficiais de baixa patente reformados, cujas obrigações consistiam em vigiar todos os passos de cada um dos seus educandos, tanto no trabalho como nas horas de recreio, e à noite dormir no aposento contíguo. Pelos relatos dos camponeses vizinhos podia-se deduzir que a pedagogia desses “tios” se limitava a um instrumento da simplicidade de um porrete.

Os vestígios materiais da antiga colônia eram ainda mais insignificantes. Os vizinhos mais próximos da colônia retiraram e levaram embora, para os seus próprios galpões, barracões e locais de armazenagem, tudo o que podia ter qualquer valor material: oficinas, despensas, mobília. Entre outros valores, levaram até um pomar inteiro. Entretanto, em toda essa história, não havia nada que lembrasse vandalismo. O pomar não foi derrubado, mas erradicado e replantado mais adiante, as vidraças das casas não foram quebradas mas cuidadosamente retiradas, as portas não foram arrancadas a furiosos golpes de machado, mas ordeiramente retiradas dos gonzos, as estufas foram desmontadas tijolo por tijolo. Somente o grande armário, o bufê da antiga residência do diretor, permaneceu no lugar.

― Por que deixaram o bufê? ― perguntei a um vizinho, Luká Semiónovich, que viera da quinta para olhar os novos donos.

― É que, sabe, pode-se dizer que esse tal de bufê não tem serventia para a nossa gente. Nem dá pra desmontar, o senhor mesmo pode ver. E nas nossas casas, ele nem ia passar pela porta, por causa da altura dele e da largura também…

Pelos cantos dos barracões havia toda sorte de tralha amontoada, mas objetos úteis de fato não havia. Seguindo certos sinais mais recentes, foi-me possível recuperar algumas coisas d evalor, surrupiadas nos últimos dias. Eram elas: uma vetusta semeadeira, oito bancadas de marceneiro cambaias, um cavalo capado, ex-garanhão quirguiz, de trinta anos de idade e um sino de bronze.

Conversa com o Zavgubnarobraz – chefe do Departamento de Educação da Província

Por Anton Semiónovich Makarenko*

Em setembro de 1920, o Zavgubnarobraz me convocou à sua presença e disse:

― Olhe aqui, meu caro, ouvi dizer que você anda reclamando à beça… porque eles… do Conselho Econômico da Província… lhe cederam aquele lugar ali… para a sua escola profissional…

― E como é que eu não havia de reclamar? O caso não é só de reclamar, é caso de sentar e chorar aos uivos: que espécie de escola profissional é aquilo? Imunda, empestada de fumo! Então aquilo ali parece uma escola?

― Pois sim, já sei do que é que você gostaria: que construíssem um prédio novo, colocassem carteiras novinhas, aí então você se poria a trabalhar. Não são os prédios que importam, meu caro, o que importa é educar o homem novo, mas vocês, pedagogos, sabotam tudo: é o prédio que não lhes agrada, são as mesas que não lhes servem. O que lhes falta é aquele fogo… o fogo, sabe ― aquele… o revolucionário. Janotas, é o que vocês são.

― Eu até que não sou janota.

― Vá lá, você não é… Intelectuais sarnentos!… Eu procuro e procuro, temos uma tarefa tão grande pela frente: proliferam esses vagabundos, moleques abandonados ― não se pode mais andar pela rua, até residências eles invadem. E só o que eu ouço é, isto é assunto seu, responsabilidade do Departamento de Educação Pública… E então?

― E então, o quê?

― É isso aí: eles não querem nem saber, com quem quer que eu fale, só recebo recusa redonda ― eles vão nos esfaquear, falam. O que vocês querem é um bom escritorinho, seus livrinhos… Olhe só para você, até óculos já botou…

Desatei a rir:

― Ora vejam, agora até meus óculos atrapalham!

― O que eu quero dizer é que vocês só querem saber de leitura, mas se lhes puserem pela frente um ser humano vivo, lá vão vocês: o tal ser humano vivo vai me matar! Intelectuais!

O Zavgubnarobraz me espetava com seus olhinhos negros enfezados, e de sob o bigode nietzchiano, emitia impropérios contra toda a nossa confraria pedagógica. Só que ele não tinha razão, esse Zavgunarobraz.

― Mas ouça-me, por favor…

― “Ouça-me, ouça-me…” Ouvir o quê, para quê? O que é que você pode me dizer? Vai me dizer, ah, se fosse daquele jeito… como na América! Há pouco eu li um livreco a esse respeito, alguém me empurrou. Reformador… ou, como é mesmo, espere… isso mesmo, reformatórios. Pois bem, isso nós ainda não temos.

― Não é isso, o senhor me escute.

― Muito bem, estou escutando.

― Mesmo antes da Revolução já se sabia lidar com esses vagabundos. Já existiam as colônias para delinqüentes juvenis.

― Isso não nos serve, sabe… O que foi antes da Revolução não presta para nós.

― Certo. Isso significa que temos de criar o homem novo de maneira nova.

― De maneira nova, isso mesmo, nisso você está certo.

― Mas ninguém sabe de que jeito fazer isso.

― Nem você sabe?

― Nem eu sei.

― Pois aqui comigo, sabe… eu tenho uns caras aqui mesmo no Departamento de Educação da Província que sabem…

― Mas não querem pôr mãos à obra.

― Não querem, os safados, quanto a isso você acertou.

― Mas se eu começar alguma coisa, eles vão infernizar-me a vida, vão acabar comigo. Faça o que fizer vão dizer que não é nada disso.

― Vão mesmo, os desgraçados, nisso você está certo.

― E o senhor vai acreditar neles e não em mim.

― Não vou acreditar neles, vou dizer-lhes: e por que não começaram vocês mesmos?

― Mas, e se eu de fato meter os pés pelas mãos?

O Zavgubnarobraz deu um murro na mesa:

― Mas que conversa é essa de meter os pés pelas mãos? Meter os pés pelas mãos? Então você vai meter os pés pelas mãos, e daí, ora bolas! O que é que você quer de mim? Acha que eu não compreendo nada, ou  quê? Então faça as suas trapalhadas, meta os pés pelas mãos, mas o trabalho tem de ser feito. Faça, e depois veremos. O principal é que, sabe… não se trata de alguma colônia de delinqüentes juvenis qualquer, mas, você entende, é a Educação Social… Precisamos de um homem novo assim… um que seja nosso! E você trate de construí-lo. De qualquer jeito, todos têm de aprender. Então você vai aprender, também. Até que foi bom você me dizer na cara que não sabe. Pois então está resolvido, e tudo bem.

― Mas existe um lugar? Uns prédios sempre são necessários, apesar de tudo.

― Existe, meu caro. Um lugar e tanto. Exatamente no local onde ficava a antiga colônia de delinqüentes juvenis. Não é longe ― umas seis verstás. É gostoso ali: bosques, campos ― dá para criar umas vacas…

― E gente?

― Vou já, já tirar gente do bolso, para você. Quem sabe vai querer também um automóvel?

― E dinheiro?

― Dinheiro temos. Aqui, receba.

― Ele tirou um pacote de notas da gaveta da escrivaninha.

― Cento e cinqüenta milhões. Isto dá para qualquer tipo de despesa de organização e para alguma mobília de que precise…

― E para as vacas?

― As vacas vão ter de esperar; lá não há nem vidraças. E para o ano você me prepara uma estimativa.

― Mas fica meio esquisito, assim ― não seria bom eu dar uma olhada ali, antes?

― Eu já olhei… e daí, acha que você vai enxergar mais do que eu? Vá para lá duma vez e pronto!

― Pois muito bem ― disse eu, aliviado, porque naquele momento nada me parecia mais assustador do que o recinto do Conselho Econômico da Província.

― Assim é que se fala ― disse Zavgubnarobraz. ― Vá em frente! A causa é sagrada.

–  –  –

*Makarenko (http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/educar-coletivo-423223.shtml), nascido na Ucrânia em 1 de março de 1888, é um dos grandes educadores do século XX. Como afirma Tatiana  Belinky, na apresentação  do livro Poema Pedagógico, do qual ela é também tradutora: a “grande epopéia educacional” de Makarenko “começou de 1920 em diante, quando, durante 16 anos, dirigiu as instituições educacionais “correcionais” para crianças e adolescentes abandonados, que o tornaram famoso: a Colônia Maxím Gorki (em Poltava, 1920 a 1928), e a Comuna F. M. Dzerjinsk (em Khárkov, 1927 a 1935)“. Poema Pedagógico é um livro que vale a pena ser lido e relido (e um dos livros que eu vivo relendo), tanto pelo seu valor literário como pelo seu valor histórico: com muita sensibilidade e riqueza estética, Makarenko relata, através de verdadeiros contos extraídos da experiência concreta, a construção da educação socialista, no contexto da então recente Revolução de Outubro. “Conversa com Zavgubnarobraz…” é o primeiro “capítulo”, ou “conto”, do primeiro volume desse belo livro.

Bibliografia: MAKARENKO, A.S. Poema Pedagógico. – Trad. do russo e apresentação: Tatiana Belinky. – 2 ed. – SP: Brasiliense, 1987.