Todos os posts de Marcelo Siqueira

Sou o que sou: presente, passado e futuro; tempos intercalados; movimento das ondas e do espaço; metamorfose ambulante e, ainda assim, o mesmo de antes! Professor do Ensino Fundamental por oito anos, atualmente diretor escolar em uma escola de Educação Infantil, "péssimo aluno, ótimo estudante" - alguém dissera de mim, se bem que tenho minhas dúvidas - leitor, garimpador de pérolas discursivas, escrivinhador sem pretensões literárias. E assim caminha a humanidade...

Noventa e cinco centavos

− Quanto custa?

− Noventa e nove centavos.

Colocou a mão no bolso direito de trás da calça; reparou que estava sem a carteira. Não se preocupou. Com certeza teria caído no banco do carro, como sempre acontecia quando usava aquela calça verde musgo. Enquanto batia as mãos nos bolsos procurando alguma nota perdida, ou moedas do troco da manhã, pensou que não sabia porque ainda usava aquela calça, cuja cor não era das suas preferidas e o pano estava surrado pelo tempo, desbotado de tantas lavagens, ou antes, sabia sim: sentia-se confortável nela, era das poucas que se ajustava bem, não apertava no cós como as demais (e, maior vantagem não existia, podia tirar direto do varal e vesti-la sem se dar ao trabalho de levar ao ferro de passar, o que não era muito de seu costume, pois acreditava que o próprio uso se encarregaria de desamarrotá-las – hipótese em que teimava mesmo que os resultados refutassem a olhos vistos; porém, para seu espírito mais distraído do que prático, isto não era um problema). Sentiu algumas moedas e tirou-as com as pontas dos dedos, uma a uma, transferindo-a para a mão esquerda: dez centavos, cinco centavos, dez centavos, vinte e cinco centavos, outra de vinte e cinco centavos, mais uma de cinco centavos, uma de dez centavos, outra de cinco. Enfiou a mão mais fundo no bolso, apalpou novamente os demais. Era tudo. Entregou as moedas ao balconista.

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Duas tribos

Ela era tão sã e séria que as meninas a invejavam, os meninos a temiam e os adultos lhe duvidavam da idade. Não ter uns parafusos a menos lhe fazia uma falta; um pouco de maluquice lhe faria bem…

Mas aquele verão que estava se fechando para os princípios das águas marcianas seria marcado por muitos contrastes, alguns desassossegos e outros contratempos, a começar pela chegada daquela que em segredo apelidamos de “Sombra”, em contraposição da que um dia fora levada às pressas à administração central e jamais retornou, para nós desaparecida desde então pois, quando perguntávamos, nos respondiam simplesmente com um olhar silenciador.

Sei que algo havia se quebrado – sem recuperação se fora, irrecuperável ficara. De sorte que naquele final de estação, quando uma partiu e a outra chegou – uma sem dar tempo de levantar poeiras e outra sem dar-lhes tempos de assentar –, naquele final que prenunciava novos inícios, velhas e novas idades se cruzando em um cubículo que mal cabiam trinta e quatro mesas, dezessete assentos e quase o dobro de pessoas a lhes ocupar, muitas histórias aconteceriam e nenhuma seria contada – a não ser as histórias ocorridas entre frações de segundos e que, não fosse por capricho do destino e da imaginação que as preservaram na memória, teriam passado desapercebidas ou não teriam sido imaginadas.

Pois é sabido por todo mundo, inclusive por aqueles que fingem não saber: nenhuma história tem mais força e nenhuma é mais real que a história inventada, porque esta cabe em qualquer palma da mão, desde a mais áspera até a que nunca tocou no cabo de uma enxada ou de uma vassoura, nem mesmo quando criança, numa de brinquedo, quando brincava…

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2018

Prometo não dizer nunca;
e de prometer jamais me contrariar
- nunca antes, nunca depois, sempre agora...

Um instante preso dentro de uma garrafa
opaca e sem tampa;
Um instante pronto para ser bebido
até a última gota,direto do gargalo
para a garganta.

Prometo escolher só as palavras erradas
- as mais rotas, irregulares e inexatas
Para que todos os sentidos sejam possíveis,

Para que nenhuma palavra 
seja sentida, mesmo que linda
e tudo seja incompreensível
e ao mesmo tempo cristalino
como o brilho de uma sinapse
em seu ápice,
no instante em que finda.

Prometo não dizer prometo
e não arrancar da pele a flor,
à flor da pele, 
quando exausto,
num silêncio incauto e ao infinito,
soltar um grito em série.

Prometo não dizer mais nada
Prometo não guardar segredo
e ainda (o que à memória agrada)
- prometo não esquecer do medo.

[M.S.]











Vão-se os anéis…

 

O dia que vem chegando,
As palavras que disse sem pensar,
As consequências inevitáveis,
A impulsividade contagiosa de meus amigos..

Somado a tudo isso: a esperança perdida.
Salvar o homem? Para quê?
Ainda assim, persisto - persistimos.

Encontro rostos conhecidos,
Vozes ressurgem na memória...
Gritos - nesse instante silencioso -
Cerram o sono e a paciência.

É preciso ter coragem ou estar louco
Para saber-se a muito e ser tão pouco.

A manhã se aproxima,
Sabemos que o Sol existirá longamente
E que cada manhã vindoura é um dia a mais
De menos paz, de intensa irracionalidade.

Preso neste mar de papéis
A mente convergindo para a incoerência
E essa lembrança triste e serena, trapaceira.

Vão-se os anéis, os dedos...

[M.S., abril/2000]

 

Colhendo o Dia

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

[Ricardo Reis]

 

Primavera de mil setecentos e setenta e quatro

No dia em que você me deu bombos tentando me expulsar do seu coração, pensei no quanto a ironia das circunstâncias pode ser planejada e no quanto acontece inconscientemente, sendo apenas parte da mente de quem a interpreta.Então decidi que não mais tentaria. Comeria os bombons como a gorda os comeu sem nem mesmo me dar um pedaço, daria um último beijo e faria o último sexo, como se realmente fossem os últimos atos de uma vida tão valiosa quanto qualquer outra vida, como se eu pudesse premeditar os sentidos e os sentimentos, como se eu fosse o último dos homens e o primeiro dos pais. Continuar lendo Colhendo o Dia

Leitura de recesso escolar: “Amor e Capital”, de Mary Gabriel

Gabriel, Mary. Amor e Capital: a saga familiar de Karl Marx e a história de uma revolução; tradução de Alexandre Barbosa de Souza. – Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

Quando comprei esse livro, há uns anos atrás, fui atraído pela ideia de conhecer sobre a vida de Karl Marx para além do político e pensador endeusado ou amaldiçoado de acordo com as lentes e filtros adotados.

Contudo, este não é um livro pura e simples sobre Karl Marx, e sim sobre sua família, sobre a história de um casal e sobretudo sobre as mulheres fortes e combativas que enfrentando barbaramente as adversidades da vida impostas pelo modo de produção e pelas relações sociais predominates no capitalismo fizeram história junto com Marx, mas na historiografia acabam sendo relegadas a segundo plano. Como diz a autora, num prefácio que dispensa maiores apresentações, e que transcrevo parte como um convite à leitura:

“A história da família Marx é tão rica que elucida também o desenvolvimento das ideias de Marx, uma vez que se desenrola sobre o pano de fundo do nascimento do capitalism moderno. O sistema capitalista do século XIX amadurece com as filhas de Marx. Ao final do século, as lutas que elas enfrentaram em nome dos trabalhadores já não pareciam as que o pai lutara em meados do século. As batalhas da época dele davam a impressão de ter sido relativamente amenas. As lutas do tempo de suas filhas se tornaram selvagens (…)

Ao escrever as biografias dos grandes homens de Roma e Atenas antes de sua morte em 120 d.C., Plutarco afirmou que a chave para entender esses homens não estava nas conquistas dos campos de batalha ou en seus triunfos públicos, mas em suas vidas pessoais, em seus personagens, até mesmo um gesto ou uma palavra. Acredito que através da história da família Marx, os leitores poderão entender melhor Marx, da forma como Plutarco sugere. Espero também que os leitores saiam desta leitura com admiração pelas mulheres da vida de Marx, que por causa da sociedade em que foram criadas acabaram assumindo papéis quase sempre secundários. Acredito que a coragem, a força e o brilhantismo dessas mulheres já permaneceram tempo demais na obscuridade. Sem elas não haveria Karl Marx, e sem Karl Marx o mundo não seria como nós o conhecemos”.

Vamos à leitura, pois!

[M.S.]

Policromático

Com teu sorriso o meu rosto cobre
passeando seus olhos cor de cobre
semeia sonho, sanha, simplicidade
magia e feitiço em meio à verdade
impulsos de sentimentos pulsantes
devoram pensamentos inebriantes

sons que voam tontos, livres, leves
cem frases soltas ao vento - breves
lembram a imagem em vão perdida
completam uma palavra - esquecida
experiência de ciência inconsciente
sempre aquiescente a inquieta mente

tons e sobretons ornam a sua face
de uma voz outra vez sem disfarce
apertando a si mesma num abraço
impõe seu caminho em cada passo
acordes que tange por onde passo.

[M.S.]

 

 

 

 

 

O que não se pode explicar…

 

Quantos abraços precisamos
(não mais que dois)
para que fique a saudade
de um antes e de um depois
inexistidos,

um tanto de quero-mais
e de bem-querer
contidos
numa vida incontida
ainda por viver?

Quantos silêncios
seriam precisos
para explicar
a preciosa e imprecisa
linguagem do olhar,

dos sorrisos compartilhados
em gestos espontâneos,
simultâneos, sincronizados
por encantamentos febris
em instantes sutis?

Quantos versos seriam
suficientes
para que não mais
ou mesmo de repente
explicar o pensamento

e ser capaz
de ver o que há por dentro
ou não - de um coração
que ao sabor dos ventos se abre
colhendo tempo e tempestade?

                       [M.S.]