A noite mais longa

Começou por volta das 15h, mas a algum tempo já dava sinais: um certo gelo no ar, um distanciamento entre os elementos naturais, uma forçada indiferença e, antes que desse por mim (que déssemos por nós), na plenitude da tarde a noite mais longa do ano desceu sobre nossas cabeças.

Entre piadas e comentários jocosos, entre a cotidiana quizília de pessoas cujo prazer em dizer e maldizer (não importando os fatos conquanto os boatos lhes rendam alguns risos) não passa de vã tentativa de amenizar egos feridos e invejas incontidas, a noite desceu.

Primeiro um vento frio seguido de uma garoa fina, cortante, que sentíamos adentrar pelos poros da pele sem que nem mesmo tivessem entrado pelos poros do agasalho. Depois escuridão. As luzes da cidade se acenderam. O cheiro de terra molhada deu lugar para um leve, porém, sufocante cheiro de fumaça.

Havia algo no ar, mas sobretudo havia algo no clima. Então ficamos sabendo que, ao norte do país e a oeste de nossos peitos, incêndios se alastravam com a mesmas proporção de palavras ferinas soltas ao vento.

Até o fim do dia, chegada a meia-noite, o que acabaria em fogo primeiro não sabíamos: o pouco da floresta que ainda resta? A alma leiloada às traças, sufocada pela densidade de palavras esfumaçadas?…

A garganta em brasa viva: efeito de quê seria?

Era tudo tão previsível a ponto de enganosamente parecer inevitável.

Num jogo de gatos e ratos, de verdades camufladas e realidades falseadas, é urgente derrubar o rei. Não basta expor, a nu, a sua desfaçatez. É preciso o enforcar com suas próprias tripas, sufocá-lo com sua própria língua.

Era tudo tão previsível a ponto de enganosamente parecer inevitável.

Num jogo de gatos e ratos e de cartas marcadas, ele deixou que ela as embaralhasse diante de suas vistas turvas. Imaginava-se forte, sentia-se fraco.

Não tinha certeza se ela estava fazendo o jogo conscientemente ou se apenas se deixava levar pelas circunstâncias, mas sabia que havia algo – pouco ou muito – não dito.

Era inútil preencher as lacunas ao sabor da imaginação, do pressentimento ou do ressentimento – quaisquer que fossem os cálculos, o resultado permanecia inalterado e nada lhe parecia um blefe que pudesse dar esperanças de uma breve reviravolta, quanto menos de uma imediata revolução.

No tempo escuro que se instalara, tudo ficava muito claro, quase transparente. Era preciso perder para não perder… para não se perder e para, um dia (quem sabe?), reencontrar.

Ou, ainda, nada disso era (nem é) necessário. Nunca seria. Há sempre escolhas – todas elas certas; todas elas erradas. Jamais indiferentes.

Naquele momento, com as nuvens caindo sobre os sonhos, com a noite adentrando a insônia das horas, com a floresta e a alma ardendo em chamas, só conseguia pensar em manter a semente a salvo para que pudesse germinar quando fizesse sol, quando pudesse o Sol fazer.

[M.S.]

2 comentários em “A noite mais longa”

  1. É tudo dolorosamente escuro e claro neste momento do nosso pais. Às vezes bate esse sentimento de impotência, acho que porque a gente se deixa encharcar com as notícias nefastas. Quando estou no meio do povo, vendo suas manifestações culturais a despeito da dureza da vida, chego a ter fé que a claridade vai vingar.

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