O Discurso da Torre

Eu te falei: meus jogos de palavras são palavras em jogo. Lançadas ao vento, sopram furacões e tempestades sem mortes para contabilizar nem mortos a lamentar o destino perdido, ou encontrado. Sem resultado algum. Eu te falei; você que não quis ouvir. Agora, ouça… Tenho uma pele que arde em febre e nada do que eu diga sob a chuva acalma a força das minhas alucinações; elas apenas ecoam na entrada da caverna, elas apenas procuram a luz no fundo de um precipício. Observa. Não há nada de mais: os compromissos adiados continuam sendo compromissos. Você estava lá, eu que não fui, eu que não saí de mim mesmo para te encontrar. Não podia correr o risco de perder a segurança de minha vida insegura. Não poderia. Corri. E a cada passo o chão cravava seus grãos como pérolas adentrando os poros, formando uma segunda e mineral camada de pele sob os meus pés; e eu não sei se era dor ou era falta o que eu sentia. O mar continuou com suas ondas e as águas não se repartiram. O vento abrandou, mas não foi para me dar passagem, foi somente por casualidade. Olhei em seus olhos, vi um além que estava sempre ali e não havia reparado, e não estava preparado para perceber que era de verdade, que por trás de suas palavras existiam as mesmas palavras, sem outros sentidos a levar-me a outros caminhos. Ainda assim, novas trilhas surgiram. Arrastei minhas tralhas por entre os espinhos, e cada corte em meu corpo exalava um cheiro de rosas. Cruzei os dedos com os braços sobre o meu corpo deitado e dei-me por esquecido; fechei os olhos e vi mais claramente: à minha frente estava o horizonte. Não poderia alcança-lo, jamais poderia. Sorri. Levantei e fui ao seu encontro. Cada vez mais perto, cada vez mais distante. E quanto mais distante, mais próximo; e quanto mais próximo, mais em silêncio. Senti meu corpo tremendo ao sopro de um ar morno vindo do oceano. Era como um recado dos náufragos de eras passadas, e se acreditasse em fantasma confessaria que os ouvi sussurrando as palavras que escrevi na areia, as palavras que apaguei com chutes imprecisos antes das ondas lamberem as pontas de meus dedos, mas não antes que pudesse impedir-te de escrevê-las nos troncos de cem árvores centenárias. E num instante de fuga, cobri a face com espelhos contrapostos, aprisionando-me em versos e reversos infinitos. Quis atirar-lhe a primeira sentença, as demais e a última. No entanto, foram lágrimas, e não pedras, que rolaram das montanhas, alagando um vale e arrastando as árvores seculares, deixando apenas uma estátua formada por raios de sol, à sombra de uma torre inacabada.

[M.S]

Originalmente publicada em 2011

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