Insatisfações, Esquecimentos & outras firulas

“Somos seres desejantes destinados à incompletude e é isso que nos faz caminhar” – Jacques Lacan

Costumo dizer que podemos ter um dia maravilhoso, com tudo correndo às mil maravilhas (passar naquela faculdade disputadíssima, receber um elogio do chefe rabugento, ganhar um beijo da pessoa amada, ser premiado na mega-sena e, de quebra, quem sabe até ver o Palmeiras ser campeão do mundo!), massssssssssssss…

Mesmo “plenamente” felizes e realizados (ainda mais se o Palmeiras for campeão do mundo!) se no final da noite vamos dormir e damos com o dedinho do pé na beira da cama – ai! – todas as glórias e maravilhas do dia se esfumaçam, tudo cai no esquecimento, a vista turva e o dia fica irremediavelmente estragado, para todo o sempre.

Fazer o que, não é mesmo? Está provado cientificamente que nós – seres humanos – somos seres incompletos; e completamente insatisfeitos.

Como bem definiram os sábios Titãs: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte; a gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte…”  E por aí vai! Mas, principalmente: “A gente não quer só comer, a gente quer prazer para aliviar a dor”.

Brincando com um importante conceito de nosso querido velhinho de longas barbas brancas, o Karl Marx, que define a luta de classes como o motor da história, arrisco a dizer que a insatisfação é o motor da luta de classes.

A insatisfação move o mundo! Muitas vezes não sem deixar de causar um grau absurdo de irritações, para dizer o mínimo de uma maneira doce, recatada e do lar.

“A maior riqueza do homem é sua incompletude” (Manoel de Barros)

O fato é que não fosse esse sentimento de incompletude e insatisfação, do qual filósofos, psicanalistas e  cientistas se dedicaram a estudar, do qual tantos poetas insatisfeitos não pouparam lamentos, maldições e impropérios (e que palmeirenses sem título de mundial sentem na pele) viveríamos ainda esfregando pedaços de pedras por entre palhas e feixes de madeira para atear fogo e comer uma carnezinha chamuscada na brasa, sem sal e sem tempero; estaríamos ainda fazendo pictografias caverna adentro, sem sequer um dia vir a entender que diabos seriam pictografias… Antes disso: muito provavelmente não teríamos desenvolvido nem linguagem, nem memória; muito menos teríamos criado instrumentos de apoio à memória, como as diversas formas de registros existentes.

Enfim, estaríamos quiçá nos tempos da Pedra Lascada, da Old Stone, da Piedra Vieja!

Por falar em memória, li certa vez que, ao contrário do que pensamos, a função principal do cérebro não é a memória e sim o esquecimento. Isso mesmo que você leu: esquecimento!

O cérebro se torna perito em selecionar as memórias mais importantes para serem acessadas de imediato, ou guardá-las em uma gaveta escondida para um dia usá-las, se precisarmos delas. Algumas ficam tão guardadinhas que caem literalmente no limbo e jamais são recuperadas.

Não fosse isso, ficaríamos loucos com tantas memórias acumuladas e em constante ebulição.

Se, como prega o velho ditado, recordar é viver, viveríamos a todo instante todas as experiências e sentiríamos todos os sentimentos, tatos, cheiros, gostos, visões que um dia vivemos e sentimos. Experiência boas e ruins, sensações das mais variadas, o Palmeiras sendo declarado campeão do mundo e logo em seguida o título sendo impugnado, ou seja, todas as alegrias e todas as frustrações de uma só vez; tudo ao mesmo tempo agora!

Esquecer pode também ser um hábito saudável. Como escreveu Rubem Alves, quando recebe algo que não cai bem, o estômago se vale de uma contração involuntária e coloca para fora o alimento indigesto. Assim também opera o cérebro: em algumas situações de traumas e em muitas outras situações corriqueiras (como certas aprendizagens sem significâncias) coloca “para fora” de cena, na forma de esquecimento, o que não considera tão importante, ou que considera inútil.

Curiosamente, há coisas que penso serem inúteis e não sei porque o cérebro volta-e-meia traz à lembrança – como por exemplo aquela professora da segunda série que (lá nos idos dos anos 85), a pretexto de “ensinar” fazer parágrafos desfechava sonoros croques nas cabeças das crianças.

Heyyyyy, anos 80!!! Charrete que perdeu o condutorrrr”…

O que ela ensinava mesmo é que parágrafo era colocar os dois dedinhos no início de cada… (tcharánnn!!!) Parágrafo. Ou seja, pura firula estética que praticamente caiu em desuso (não por mim, que sou um ser das tradições – uhhh!).

Um pouco comiserado mas com nenhum tico de insatisfação fico pensando no quanto foi em vão tamanho esforço físico empreendido pela não tão boa velhinha que fazia dos croques mais que a sua didática magna, mas sim praticamente sua marca registrada, expressão e extensão da assinatura de seu inesquecível sobrenome: “Clock” – talvez por isso não esqueço; afinal, também foi comprovado por cientistas, bêbados, poetas insatisfeitos e palmeirenses sem título de mundial que o cérebro memoriza as coisas por associação – com ou sem dois dedinhos antes do início de cada “parágrafo”.

[M.S.]

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