Análise crítica: “Reflexões Sobre o Multiculturaismo na Escola e na Formação Docente”, de Canen & Moreira – Parte 3

Algumas considerações (in) pertinentes: pensamento neoliberal e discurso pós-moderno

A preocupação com a pluralidade cultural, com o respeito e valorização dos grupos culturais e étnicos é fundamental para a construção de uma sociedade democrática. O diálogo, neste sentido, assim como propõem Conem e Moreira, deve ser o princípio básico, a essência de uma educação voltada para a transformação social. O “monopólio do diálogo”, a hegemonia da fala e do poder político, representado e concomitantemente perpetuado pela concentração do poderio econômico nas mãos de uns poucos ainda são entraves grandiosos para a superação da segregação social e discriminação cultural em nossa sociedade. Talvez por isso mesmo é que Paulo Freire nos alerta para a impossibilidade de um verdadeiro diálogo entre os sujeitos da classe oprimida e os sujeitos da classe dominante. O diálogo, define Paulo Freire (1986: 123) “é o momento em que os humanos se encontram para refletir sobre sua realidade tal como fazem e re-fazem(…)“. Através do diálogo, refletindo juntos sobre o que sabemos e não sabemos, podemos, a seguir, atuar criticamente para transformar a realidade. Não é preciso ir mais longe para dizer que esse diálogo não interessa a quem detém a hegemonia do poder e, por isso mesmo, as relações sociais (sendo sempre relações de poder), mesmo numa perspectiva multicultural, são sempre conflituosas. O perigo não está na perspectiva dialógica defendida por Canen e Moreira, mas sim na interpretação ingênua de um leitor desatento que, por desatento, consideraria o multiculturalismo, “enriquecido pelas sensibilidades pós-modernas[1], como a soma de todos os consensos, subtraídos todos os conflitos no fim das contas.

O perigo, na perspectiva apresentada pelos signatários do artigo em questão, reside na tendência de, sob pretexto de combater teorias e verdades supostamente universais, de olhar mais aproximado o particular (o que não considero desnecessário, de modo algum),  universalizar o pontual, o local e o cotidiano; reside também na propensão de, ainda que se considere a existência e a importância de antagonismos econômicos, de conflitos e disputas entre grupos dominantes e grupos dominados, particularizar essas disputas e conflitos nos grupos étnicos e culturais, como se estes existissem fora do contexto da existência das classes sociais. Não esqueçamos que o racismo, a discriminação, o xenofobismo e o machismo por exemplo, não estão desvinculados da questão de classes. Os recentes conflitos na França apontam para o caráter econômico, e não apenas simbólico-cultural, das manifestações dos grupos étnicos. A média salarial dos negros e das mulheres no Brasil, bem como os subempregos reservados aos latino-americanos, aos africanos, entre outros, na Europa e EUA também indicam que a análise dos grupos culturais e étnicos não pode ser desprovida da categoria classe social. Apple (2001: 190, 192), reticente quanto ao pó-modernismo e ao pós-estruturalismo, pondera que

           “O simples fato de que a classe não explica tudo não pode ser usado como uma excusa para negar seu poder. Este seria um sério erro. A classe é, naturalmente, um construto analítico assim como um conjunto de relações que têm existência fora de nossas mentes. (…) seria errado supor que o fato de que muitas pessoas não se identificam ou não agem de acordo com o que se poderia esperar das teorias que ligam identidade e ideologia com sua posição de classe significa que a classe tenha acabado”.

[1] Veremos algumas delas a seguir.

*

[Continua…]

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Para ler a primeira parte da resenha clique aqui.

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