Análise crítica: “Reflexões Sobre o Multiculturalismo na Escola e na Formação Docente”, de Canen & Moreira – Parte 1

NOTA DA PEDRA LASCADA:  A resenha que seguirá aqui em quatro partes foi escrita em 2005 como um trabalho de análise crítica para a disciplina Formação de Equipe Escolar, do curso de Pedagogia do Centro Universitário Fundação Santo André. Reencontrei-a em meio a arquivos que estava reorganizando e resolvi compartilhar, pois resgata uma polêmica que mantenho com o conceito de pós-modernismo – polêmica esta que inspirou, por ironia proposital, o anacrônico nome deste Blog – Pedra Lascada. Autorizo a reprodução total ou parcial do mesmo para fins não comerciais, desde que devidamente citada a fonte e a autoria. [M.S.]

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“Para a mente ingênua, evolução e revolução parecem incompatíveis e o desenvolvimento histórico só está ocorrendo enquanto segue uma linha reta. Onde ocorrem distúrbios, onde a trama histórica é rompida, a mente ingênua vê somente catástrofe, interrupção e descontinuidade. Parece que a história pára de repente, até que retornem uma vez mais a via direta e linear de desenvolvimento.

O pensamento científico, ao contrário, vê revolução e evolução como duas formas de desenvolvimento mutuamente relacionadas, sendo uma pressuposta da outra, e vice-versa”.

(Vygotsky, 1998: 97)

“Em nossa corrida em direção ao pós-estruturalismo, podemos esquecer quão poderosas são as dinâmicas estruturais das quais participamos”.

(Apple, 2001: 192)

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CANEN, Ana. MOREIRA, Antonio F. B. Reflexões Sobre o Multiculturalismo na Escola e na Formação Docente. In_ CANEN, A. MOREIRA, A. Ênfases e Omissões no Currículo. SP: Papirus, 2001. Páginas 15-43.

Partindo da compreensão de que a “pluralidade de culturas, religiões, visões de mundo e outras dimensões identitárias tem sido cada vez mais reconhecida nos diversos campos da vida contemporânea”, os autores, no presente texto analisado, destacam a importância e urgência da inserção, no currículo escolar oficial e na formação docente, dos temas e estudos que abordem de modo crítico e reflexivo o pluralismo cultural, o que implica, segundo suas perspectivas, em:

  • Pensar formas de valorizar e incorporar as identidades plurais em políticas e práticas curriculares;
  • Refletir sobre mecanismos discriminatórios ou silenciadores da pluralidade cultural.

Canen e Moreira argumentam que a relação dialógica estabelecida no estudo das múltiplas culturas, tendo como pressuposto a “abordagem multicultural”, possibilita “uma educação democratizadora, crítica e comprometida com o desenvolvimento de uma cidadania plural e participativa” que, tendo por fundamento ético e condição essencial de sua existência a presença do diálogo, vem a favorecer a tolerância, a valorização e respeito às identidades culturais dos grupos, etnias etc.

Os autores explicam que o termo cultura tem diversos significados, conforme a época histórica e conforme o grupo que o utiliza. Após definirem alguns de seus significados ao longo do tempo, defendem a noção de cultura relacionada aos significados compartilhados pelos vários grupos, enfatizando uma “dimensão simbólica”, segundo a qual cultura é compreendida como “prática social”, ou seja, como elemento de um processo em constante movimento e construção, e não de uma coisa ou um estado de ser já definido e acabado; processo não-linear, conflituoso, cuja propriedade não é de exclusividade de nenhum grupo, elite ou classe dominante. Deste modo, estamos falando em culturas, em que um grupo que “compartilha uma cultura, compartilha um conjunto de significados, construídos, ensinados e aprendidos nas práticas de utilização da linguagem”. Mais precisamente, ainda nas palavras dos autores, a “palavra cultura evoca (…) o conjunto de práticas por meio das quais significados são produzidos e compartilhados em um grupo”.

Valendo-se das proposições de Williams, que entende o currículo como uma seleção da cultura, Canen e Moreira concebem também o currículo como “um conjunto de práticas que produzem significados”; mais ainda, com Silva (1997), percebem no currículo um campo de lutas “em torno dos diferentes significados sobre o social e sobre o político”, através do qual diferentes grupos sociais, “especialmente os dominantes, expressam sua visão de mundo, seu projeto social, sua ‘verdade’”. Em consonância com esta tese, Suárez (1995: 265), referindo-se ao mesmo Williams, acrescenta que os

“Projetos curriculares podem ser entendidos como objetos culturais, produzidos mediante a tradição seletiva (…) de um dado grupo social que, em função de relações de poder favoráveis, prioriza a inclusão hierarquizada de certos conteúdos e valores (próprios) como se fossem objetiva e universalmente válidos e legítimos, em detrimento de outros (alheios), aos quais desqualifica ou ignora (…)”

O currículo, assim como cultura, constrói-se sendo: prática de significação; prática educativa; relação social; relação de poder; prática que produz identidades sociais.

Tendo como base Kincheloe e Steinberg, para quem o multiculturalismo existe independentemente da crença ou concordância nele, ou seja, é uma condição inevitável nas sociedades ocidentais contemporâneas os autores, os autores defendem que o multiculturalismo representa, ainda, a maneira pela qual se atua em relação a essa realidade multicultural dada:

“Multiculturalismo representa a natureza dessa resposta, que envolve a formulação de definições conflitantes de mundo social decorrentes de distintos interesses econômicos, políticos e sociais. Nessa formulação, as relações de poder desempenham papel crucial, auxiliando a conformar o modo como os indivíduos, grupos e instituições reagem à realidade cultural. O multiculturalismo em educação envolve a natureza dessa resposta em espaços educacionais. Trata-se, nesse caso, de contextualizar e de compreender a produção das diferenças”.

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[Continua…]

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