A morte de Marisa Letícia e o Retrato de Dorian Gray

Ao anúncio da até então internação da ex-primeira dama Marisa Letícia seguiram-se, nas redes sociais, um lodaçal de comentários mórbidos; uns até feitos por figuras ou instituições da burguesia cinicamente vociferando uma mal fingida indignação sobre a mesma estar internada em hospital particular e não hospital público, como se estes fossem usuários do SUS…

Teve até quem se reuniu na frente do hospital em que a ex primeira dama estava internada para “protestar”. Certamente não foi gente trabalhadora, mas sim uns desocupados improdutivos que costumam destilar ódios contra a classe trabalhadora chamando-a de “vagabunda” e outros adjetivos degradantes quando esta se vê obrigada a fazer greves e paralisações para garantir direitos.

A declaração da morte de Marisa Letícia não foi diferente. Entre buzinaços e aplausos comemorando a fatalidade, mais lamaçal escorreu de massas cinzentas em falência múltipla dos neurônios que, acredito, possam ser recuperadas um dia, quem sabe…

Não custa acreditar, afinal eu mesmo, em tempos idos, quando da morte do ex-senador e ex-governador Antonio Carlos Magalhães (conhecido por ACM e também – com razão – por Toninho Malvadeza ) soltei um “deus está fazendo sua parte”, ou coisa semelhante, como se a morte de alguém – tragédia familiar – fosse obra de intervenção divina, ou justiça…

Felizmente, com o passar do tempo, com a experiência de vida, a gente tem a capacidade de aprender, de nos superar, de educar não só nossas razões, mas também nossos sentimentos e emoções. Ou isso, ou adoece.

Acontece que observando o tempo de vida de certos marmanjos que comemoram as desgraças alheias, fico cada vez mais certo de que esse adoecimento está cada vez mais intenso – o ser humano está cada vez mais desumanizado, mais brutalizado, mais irracional e ao mesmo tempo menos emocional, mais quebrado sentimentalmente.

Nunca é demais lembrar que razão e emoção não são opostos, e inteligência emocional é uma das tantas inteligências que nós, dito Homo sapiens, precisamos desenvolver para nos humanizar e nos constituir enquanto seres sociais, enquanto civilização. Ou isto, ou a barbárie.

Li, estes dias, que o Facebook e as redes sociais de um modo geral nos escancararam algo que particularmente eu custava a acreditar: que o pensamento retrógrado, reacionário e conservador impera ainda em nossa cultura. Dito de outra forma: o brasileiro (e parece que  mais ainda o brasileiro médio)  tem a cabeça quase que dos tempos medievais.

Para meu alento, na minha timeline do Facebook predominam manifestações de indignação frente à falta de empatia de certos indivíduos…Sinal de que, em geral, ando bem acompanhado e escolho relativamente bem minhas amizades…

A falta de empatia pela dor alheia é um indicativo de que algo não vai bem na cachola do indivíduo. Mas desde que o mundo é mundo os moralistas são os mais imorais, pois julgam a tudo e a todos conforme suas próprias lentes distorcidas sem se dar conta de que estão apenas reproduzindo a própria imagem refletida em um espelho em que não se enxergam, mas estão lá, tal como n’O Retrato de Dorian Gray – romance de Oscar Wilde: monstros aprisionados num quadro, mas externamente com “bela aparência” (aquilo que o dito popular denomina tão sabiamente por meio da famosa expressão “por fora bela viola, por dentro pão bolorento“).

E tal como no romance, quando tentarem liquidar o monstro, apunhalarão a si mesmos.

[M.S.]

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