Corrupção, transporte e direito à cidade – Parte I

Fonte: Território Livre
Fonte: Território Livre

A corrupção talvez seja uma via de mão dupla em que transitam em sentidos falsamente opostos e em algum ponto se encontram o  disposto a se corromper e o corruptor.

É muita falta  de clareza desconsiderar que se existem os  políticos que cobram propinas para aprovarem contratos com empresas igualmente existem empresários que pagam propinas para que suas empresas vençam as concorrências –  políticos corrompidos e empresários corruptores   são dois sujeitos que constituem lados de uma mesma moeda,  que é a corrupção (e ambos pertencem à mesma categoria: a dos corruptos).

Penso, contudo, que esta é ainda uma visão muito simplista da situação; uma visão muito em preto e branco. Se misturarmos um pouco o preto com o branco chegaremos a alguns tons – uns cinquenta ou mais (bem mais) de cinza. Digo desde já: a conclusão não será nem um pouco prazerosa.

A verdade é que desconfio que a corrupção nem seja uma via apenas, e sim sinuosos e confusos caminhos nos quais circulam diferentes seres em múltiplas direções, paradoxalmente jamais em sentidos opostos, uma vez que são conduzidos e conduzem-se em um único sentido: o de levar vantagem pessoal em cima de qualquer coisa e sobretudo contra qualquer pessoa. Afinal, na sociedade da meritocracia, que é a sociedade capitalista, ganhar – seja lá o que for, contra quem for e não importando os meios, tampouco importando os méritos – é uma dádiva e uma glória.

Talvez por aí encontramos alguma lógica no comportamento tresloucado de certas pessoas que gritam escandalizadas contra a corrupção alheia, mas nem fazem caso das pequenas e médias corrupções que elas mesmas praticam, como se umas coisas não tivessem nada a ver com as outras: ocupar lugar de idoso no ônibus; furar fila; assinar o ponto sem trabalhar, falsificar carteirinha de estudante; sonegar imposto de renda; emitir notas ficais frias; ultrapassar pela direita ou pelo acostamento, ou em farol vermelho, dirigir embriagado, colocando a vida de outras pessoas em risco, não devolver ao dono o objeto encontrado – “achado não é roubado”…

Talvez indo por esse pensamento possamos também entender a lógica insana dos que se dizem favoráveis à vida e ao mesmo tempo defendem  a pena de morte; que gritam escandalizados perante a violência contra a propriedade material e ao mesmo tempo defendem práticas de torturas, linchamentos, espancamentos, aplaudem a violência policial e institucional – violências, aliás, que também a sofrem em seu dia-a-dia.

Será que por sofrerem tanta violência física, psicológica e simbólica foram perdendo a sensibilidade, a humanidade?

Novamente desconfio que sim, porque se é certo, como se diz popularmente, que a ocasião faz o ladrão, mais certo ainda é que de tanto olhar o torto os olhos e os olhares vão entortando também, ao ponto de tomar como direito o torcido, o retorcido e o distorcido; ao ponto de tomar como certo o errado e não mais o duvidoso, como já é bem perigoso tomar. Aquilo que outro ditado diz – “se você olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para você”, e que os Titãs (quando faziam boa música e ainda não namoravam o conservadorismo) traduziram com um refrão bem explícito: “a televisão me deixou burro, muito burro demais”…

Bons tempos em que o risco maior era apenas tomar o certo pelo duvidoso, porque pelo menos restava o benefício da dúvida, o questionamento: “mas, será que isto que estou ouvindo na televisão, ou lendo no jornal, aconteceu assim mesmo?”. Agora não, certas pessoas reproduzem sandices com um grau absurdo de certeza. E nem percebem que suas certezas são meras reproduções irrefletidas dos meios de comunicação da classe dominante – é possível que nem seja o caso de se perceberem, mas de não se importarem mesmo em fazer papel de papagaio de pirata.

O fato é que na ilusória sociedade do conhecimento inaugurada pela falsa pós-modernidade há opiniões sobre quase tudo, mas conhecimento sobre pouco – e de uma superficialidade delirante.

Mas que diabos tudo isso tem a ver com a questão do transporte? Calma, que chegaremos lá, porque ao menos para pensar não precisamos dispor de R$3,50…

[Continua…]

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