Futebol, ufanismo, velhas mazelas e resistência popular

“A morte não é a maior perda da vida. A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos”                                                                                                                                                                                                                      (Pablo Picasso)

O ufanista escondido em (quase) cada um de nós, que a copa da FIFA (não do Brasil, da FIFA mesmo, como o nome oficial dela escancara) aliada à toda propaganda governista parece que faz com que a visão para alguns fique (ainda mais) cega e para outros fique turva…

Não se trata  de ser contra ou a favor do futebol em si, ou opor em importância esporte à educação, como se o valor desta fosse somente possível vinculado à anulação daquele (se bem que não podemos esquecer que esporte não se resume a futebol).

O problema é que, no Brasil (mas não apenas aqui) o capitalismo – que transforma tudo e todos em mercadoria – elevou o futebol à categoria de sonho máximo de consumo e objetivo de crianças e jovens que – acreditam eles – nem precisam de escolaridade para alcançar o sucesso, a fama e a grana, mas iludidos com o fetiche dessa mercadoria, não se dão conta de que, no darwinismo social típico do capitalismo, sucesso, fama e grana são para poucos. E para que os poucos acumulem ganhos miliardários, a grande maioria dos jogadores recebem precariamente e, em campo, o “produto” de seu trabalho (se é que não poderíamos também denominar mais-valia) é expropriado pelos empresários, pelos patrocinadores, enfim, pela burguesia.

Particularmente, essa copa nem significa de fato investimento em esporte. Significa gastos milionários de verba pública que servirão à especulação imobiliária, aos grandes empresários, às empreiteiras, aos bancos.

Para a população pobre continua a política do pão e circo, os desalojamentos, a política “higienista”, o genocídio, a tortura – que se manifesta não apenas por meio da ação direta de agentes da repressão militar, que aí estão e aí continuam espancando, jogando bombas e dando cacetadas, murros e pontapés etc a torto e a direito, atirando primeiro e perguntando depois (aliás nem perguntando, como temos visto nós últimos acontecimentos de forjamento de provas para criminalizar manifestantes); tortura que se manifesta nos preços dos alimentos, nos transportes coletivos deteriorados e superlotados, no desemprego e no subemprego, na baixa qualidade da educação pública, na falta de vagas em creches e pré-escolas, nos critérios que ilegalmente municípios estabelecem para oferecer (quando tem) vaga para criança em creche, nas UPAs de lata sem médicos e sem equipamentos suficientes, na saúde pública precarizada, nas propagandas políticas que mentem descaradamente vendendo um mundo de ilusões enquanto a realidade é cada vez mais dura.

Somente mesmo os governistas e os mal-intencionados fingem acreditar que os atos contra a copa (até mesmo no movimento “não vai ter copa) visavam ou visam impedir a realização da copa da FIFA no Brasil. E eu digo “fingem” porque só acredita nesse discurso os ingênuos. E infelizmente o que há de ingênuos não cabe no gibi!

Os governistas tucanos e petistas, isto é, os da velha e os da nova direita, não são nem um pouco ingênuos, e vendem esse discurso em prol de se manterem no poder, aprofundarem o fascismo recém-saído do armário e criminalizarem os movimentos sociais e políticos que legitimamente continuam saindo às ruas e se manifestando contra essa política nefasta que cada vez mais ganha corpo; continuam saindo às ruas – e não começaram a sair agora, na copa, como alguns dizem tentando atribuir a pecha de oportunistas (???) a quem luta, enquanto estes mesmos alguns ficam em casa com ou sem suas bandeirinhas de ocasião lamentando a “corrupção” e blablabla e tititi e trololó com os velhos mimimis e jargões que já estão cheios de teia de aranha…

Os movimentos sociais e políticos continuam saindo às ruas em defesa dos direitos dos trabalhadores, da juventude, da população em geral (da qual também fazem parte os que optaram olhar o mundo pela janelinha).

Ainda que possamos discordar de algumas táticas usadas com as dos black blocs (e particularmente discordo), os movimentos sociais e políticos que resistem na luta e continuam ocupando as ruas manifestam um intenso desejo de vida e de construção.

Como afirma Madalena Freire, desejos de vida são aqueles que nos impulsionam para os conflitos, para os problemas na busca de superação, transformação, mudança.

Há quem, em defesa dessa copa da Fifa, afirme que se não houvessem gastos com esse evento, ocorreriam os mesmos gastos em coisas menos importantes, e não na educação, na saúde, no transporte coletivo, na moradia… enfim, em necessidades de primeira ordem; e afirmam também que os gastos com o evento da Fifa não tiraram recursos dessas é de outras áreas. E tudo isso pode ser bem verdade, mas é no mínimo lamentável que se aceite como fato dado e consumado que os governos gastem (ou gastariam) com coisas “menos importantes” e invistam menos em áreas prioritárias.

A questão nem é se não foram desviados recursos da educação e da saúde por exemplo (nem poderia, porque essas áreas têm formas de financiamento específicas, com verbas próprias e cuja legislação impede a aplicação para outros fins). A questão é que cada centavo, ou melhor, cada milhar gasto com a FIFA representa menos recursos investidos na solução dos históricos problemas sociais brasileiros (e não estou me referindo a paliativos programas assistencialistas).

O problema reside no conformismo dos seres humanos frente às mazelas do capitalismo, como se elas fossem inevitáveis, naturais e eternas. Justamente é esse conformismo e esse pensamento de “inevitabilidade” que colaboram para que as mazelas (desemprego, subemprego, miséria, pobreza, concentração de renda, segurança, saúde, educação e transporte público cada vez mais precários…) se perpetuem.

Seria aceitável afirmarmos que se não fossem os petistas a praticarem mensalão seriam qualquer outro que estivesse no governo, só porque o tucanato à frente dos governo estaduais e à frente do governo federal com FHC também o praticou para, entre outras coisas, aprovar a reeleição? Só porque praticam mensalinhos prefeitos de tantos municípios que conhecemos, seria aceitável que, se não fossem estes, seriam outros?…

Se você, que chegou até aqui na leitura, já jogou a toalha e considera aceitáveis  ou normais e naturais (e por isso eternas e imutáveis) as mazelas da vida (que são causadas pela exploração do homem pelo homem), lamento informar, mas você é potencialmente um perigo para si mesmo, pois (também utilizando uma expressão de Madalena Freire) alimenta psiquicamente um tenebroso desejo de morte.

Como diz Madalena Freire, “desejos de morte (…) nos empurram ao não enfrentamento das dificuldades, dos problemas, dos conflitos, deixando-os resguardados e acomodados na repetição, na mesmice da reprodução e, portanto, no não pensar reflexivo”.

Para finalizar, deixo aqui o meu protesto contra as prisões políticas que estão ocorrendo Brasil afora e, principalmente, em São Paulo. Tratam-se de tentativas de criminalização dos movimentos populares, sociais e políticos e claramente um atentado à democracia, que ocorre sob o patrocínio e silêncio conivente do governo federal.

Liberdade já para os presos políticos do governo Alckimin! Abaixo a escalada da ditadura brasileira!! Pela garantia dos direitos constitucionais!!!

(Foto: Padre Júlio Lancellotti)

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