Assédio Moral no Trabalho – como lidar com ele?

Nota da Pedra Lascada: O presente texto foi sugerido pela colega Célia Gutierrez. Ainda que pessoalmente tenho ressalvas devido à linguagem  e caráter empresarial, fruto da origem e do contexto do autor,  este artigo é mais uma valiosa contribuição ao debate. Boa leitura! [MS]

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Por Werner Kugelmeier

Assédio moral, também chamado “psicoterrorismo no trabalho”, é tão antigo quanto  o trabalho; já existia na Antigüidade, quando o escravo era recrutado à força.  Trata-se de uma prática perversa, bastante comum, realizada no local de  trabalho. É aquela sensação de medo, isolamento, humilhação e insegurança que,  em maior ou menor grau, a maioria dos trabalhadores alguma vez já sentiu. Esse  terror psicológico pode se instalar em qualquer ambiente de trabalho e afetar  profissionais de todos os níveis hierárquicos.

A novidade reside na intensificação, gravidade, amplitude e banalização do  fenômeno e na abordagem que tenta tratá-lo como não inerente ao trabalho.

Um cenário crítico, levando em conta que a prática de assédio moral é capaz de  até desequilibrar e provocar explosões de ódio, acarretando situações  desesperadas, com riscos ou até mesmo perdas de vidas.

O medo do desemprego é uma das principais causas desse fenômeno. Para garantir  seu emprego, o(a) funcionário(a) sujeita-se a atitudes anti-profissionais.  Quando a auto-estima está em baixa, o(a) funcionário(a) não se reconhece como  profissional, tornando-se, assim, alvo para qualquer tipo de assédio.

• Assédio Sexual:

Quando se fala de assédio moral merece destaque a questão do “assédio sexual”, que se configura quando a liberdade sexual de outra pessoa é invadida e ela é  coagida a fazer aquilo que não quer. A situação se agrava quando alguém se  utiliza do poder hierárquico sobre outra pessoa, normalmente do sexo feminino,  para assumir uma conduta sexual que faz com que a pessoa assediada se sinta  molestada, constrangida ou humilhada.

Para que se caracterize o assédio sexual é  elementar que haja recusa por parte do assediado; do contrário, o fato será  encarado como paquera ou namoro

• Qual a extensão do Assédio Moral?

A violência moral no trabalho constitui um fenômeno internacional. No chamado mundo civilizado, segundo inquérito da União Européia, cerca de 12  milhões de trabalhadores já foram vítimas de maus tratos morais; nos EUA,  ocorrências de assédio sexual levam frequentemente a punições por parte das  empresas.

No mundo latino-americano, árabe, africano e asiático, o assédio moral e sexual  existe de forma alarmante, analisando gravidade, freqüência e tendência  crescente.

 No Brasil, o tema é pouco discutido, mas os números também assustam. Recente  pesquisa, publicada na “Folha Equilíbrio”, suplemento do Jornal Folha de São  Paulo, de 21 de fevereiro de 2002, revela que a maioria dos trabalhadores sente  o drama na pele. Segundo o jornal, foram ouvidos 4718 profissionais em todo o  Brasil e 68% deles disseram sofrer de algum tipo de humilhação, várias vezes por  semana.

Trata-se de uma situação evidentemente delicadíssima, numa nação com altíssimas  taxas de desemprego e uma tradição autoritária derivada da escravidão, na qual o  agressor costuma alegar (de forma irritante e persistente) “estar querendo  somente ajudar, dar um toque, uma dica”.

 As perspectivas são sombrias para as duas próximas décadas pois, segundo a  Organização Internacional de Trabalho – OIT e a Organização Mundial da Saúde – OMS, estas serão as décadas do “mal-estar na globalização”, em que predominarão  angústias e depressões.

• Motivos para o Assédio Moral

Em geral, inveja, mesquinhez, preconceito, machismo e pequenez de mentalidade  levam a este tipo de comportamento. O agressor alega, entre outras coisas, que “é pelo bem do assediado”. Isto é, indubitavelmente, o sumo da hipocrisia.

Um dos principais motivos do assédio é, ainda, o fato de o empregador desejar o  desligamento do funcionário, mas não querer demiti-lo, em função das despesas  trabalhistas decorrentes. Cria-se, então, uma situação insustentável em que o  empregado é levado a pedir demissão – compulsiva.

• Perfil do Assediador

De acordo com o site http://www.assediomoral.com.br , a violência é geralmente exercida  pelas pessoas “inseguras, autoritárias e narcisistas”. Esses indivíduos

 • têm facilidade para manipular as pessoas
• sabem identificar quem vai abaixar a cabeça perante seus insultos
• têm propensão à perversidade
• têm intenção firme de constranger ou humilhar a vítima

• Perfil do Assediado:

 • Empregados que são considerados velhos
• Empregados que não aceitam o autoritarismo e são mais capazes do que o  agressor
• Portadores de deficiência física
• Pessoas que têm valores religiosos/políticos/sexuais diferentes do agressor
• Homens em um grupo de mulheres e mulheres em um grupo de homens
• Mulheres grávidas ou com filhos pequenos

Daí se conclui que o assédio moral, em geral, é praticado contra minorias,  pessoas vulneráveis e contra a mulher em particular.

• Estratégias do Agressor

 Para que se caracterize o assédio moral, são fundamentais a intenção do agressor  de atingir o empregado e a repetição da agressão. Em geral, um ataque isolado  não seria prejudicial, apenas causaria um certo incômodo. O que faz o assédio  moral ser violento é a freqüência com que o ato é praticado. O assediador  utiliza estratégias como:

• Escolher a vítima e isolá-la do grupo
• Menosprezá-la em frente aos pares
• Criticá-la publicamente
• Desestabilizá-la emocional e profissionalmente
• A explicitação do assédio

O assédio moral manifesta-se por gestos e condutas abusivas e constrangedoras,  tais como: inferiorizar o indivíduo, ignorá-lo, difamá-lo, ridicularizá-lo,  passar tarefas através de terceiros ou colocá-los em sua mesa sem avisar,  controlar o tempo de idas ao banheiro, tornar público algo íntimo da pessoa  subordinada, não explicar a causa da perseguição e assim por diante.

O assédio sexual se torna evidente através de piadas jocosas relacionadas a  sexo, cantadas desmascaradas, insinuações vulgares, “elogios” ao corpo, ou  mensagens/fotos de caráter pornográfico.

• Exemplos de assédio moral

Nas empresas:
• Humilhações com intenção de forçar o pedido de demissão
• Estabelecimento de metas impossíveis de serem atingidas e a cobrança  humilhante
• Boicote através de menos trabalho e/ou trabalho menos complexo do que o padrão
• Isolamento dos demais colegas
• Ataques freqüentes à vida pessoal do empregado, no ambiente de trabalho

No ambulatório das empresas e INSS:
• Ser atendido de porta aberta e não ter a privacidade respeitada
• Ter seus laudos recusados e ridicularizados
• Dar alta antecipada ao doente em tratamento, encaminhando para a produção
• Negar laudo médico, não fornecer cópia dos exames e prontuários
• Não orientar o trabalhador quanto aos riscos existentes no posto de trabalho

• Política de reafirmação da humilhação nas empresas

 a) com todos os trabalhadores:
• Treinar, discriminar por sexo: cursos de preferência para homens
• Discriminação de salários, conforme o sexo
• Induzir trabalhadores a não procurar o Sindicato
• Dar advertência, em conseqüência de atestado médico

b) com a mulheres
• Impedir que as grávidas se sentem durante a jornada
• Impedir que as grávidas façam consultas de pré-natal fora da empresa
• Exigir das mulheres que não engravidem, evitando prejuízos à produção

c) com os doentes e acidentados que retornam ao trabalho
• Diminuir salários quando retornam ao trabalho
• Controlar as idas a médicos
• Desaparecer com os atestados
• Demitir acidentados do trabalho
• Danos da humilhação à saúde

A depressão é a doença mais freqüentemente constatada como oriunda do assédio  moral. Estamos falando de lesões psicossomáticas; causas que precisam do amparo  dos tribunais. O mais importante é que o ofendido procure os seus direitos com o  simples propósito de recompor a sua auto-estima.

A ofensa moral não tem preço;  mas vale a pena alguém pagar, nas garras dos tribunais, pela humilhação causada  ao seu próximo.

A manifestação dos sentimentos e emoções nas situações de humilhação e  constrangimentos é diferenciada conforme o sexo: entrevistas realizadas com 870  homens e mulheres, vítimas de opressão no ambiente profissional, revelam como  cada sexo reage a essa situação (em porcentagem):

Sintomas Mulheres/Homens
Crises de choro 100
Dores generalizadas 80/80
Palpitações, tremores 80/40
Sentimento de inutilidade 72/40
Insônia ou sonolência excessiva 70/64
Depressão 60/70
Diminuição da libido 60/15
Sede de vingança 50/100
Aumento da pressão arterial 40/52
Dor de cabeça 40/33
Distúrbios digestivos 40/15
Tonturas 22/3,2
Idéia de suicídio 16/ 100
Falta de apetite 14/2
Falta de ar 10/30
Passa a beber 5/63
Tentativa de suicídio – 18

(Fonte: Barreto, M. Uma Jornada de Humilhações. 2000 PUC/SP)

É este sofrimento imposto nas relações de trabalho que revela o adoecimento,  pois o que torna as pessoas doentes é viver uma vida que não desejam, não  escolheram e não suportam.

• O que você deve fazer ?

• Verificar, em primeiro lugar, se o que está ocorrendo é realmente assédio  moral
• Resistir: anotar com detalhes todas as humilhações sofridas
• Dar visibilidade, procurando a ajuda de pessoas de confiança
• Evitar conversar com o agressor sem testemunhas
• Reunir provas para a comprovação do assédio, p.ex. testemunhas
• Denunciar o assédio ao RH, à CIPA, ao SESMT e ao Sindicato

Se você for testemunha de cena(s) de humilhação no trabalho, supere seu medo,  seja solidário com seu colega. Você poderá ser “a próxima vítima” e, nesta hora,  o apoio dos seus colegas também será precioso. Não esqueça que o medo reforça o  poder do agressor!

O basta à humilhação depende da informação, organização e mobilização dos  trabalhadores. Um ambiente de trabalho saudável é uma conquista diária, possível  na medida em que haja “vigilância constante”, objetivando condições de trabalho  dignas, baseadas no respeito “ao outro como legítimo outro”, no incentivo à  criatividade, na cooperação.

O combate de forma eficaz ao assédio moral no trabalho exige a formação de um  coletivo multidisciplinar, envolvendo diferentes agentes sociais: sindicatos,  advogados, médicos do trabalho e outros profissionais de saúde, sociólogos,  antropólogos e grupos de reflexão sobre o assédio moral. Estes são passos  iniciais para conquistarmos um ambiente de trabalho saneado de riscos e  violências e que seja sinônimo de cidadania.

• A luz no final do túnel

A empresa, muitas vezes, faz vista grossa, ou apresenta-se perplexa diante de  uma situação de assédio moral aos seus colaboradores; porém, muitas não sabe ou  carece de qualquer liderança situacional a respeito.

É importante que a empresa conheça e oriente todos os seus colaboradores sobre  quais aspectos podem ser considerados assédio moral, quais prejuízos a empresa  pode ter e, principalmente, quais as reações as pessoas podem manifestar quando  submetidas à agressão moral.

Uma estratégia de desenvolvimento do Capital Humano diminui as chances de  surgirem comportamentos de assédio moral e aponta a cultura de aprendizado, no  lugar da punição bem como a desmistificação das relações de poder.

Já existem empresas que estão começando a encarar o assédio moral e aceitam  reclamações. Elas entendem que a produtividade está diretamente ligada ao  ambiente sadio – o clima pessoal e organizacional.

Partindo da premissa de que a empresa é um ser vivo, composto pelos  colaboradores, cabe a cada um – uns mais, outros menos – dar suporte à missão “Basta!”

• Trabalhe insistentemente para que exista um clima saudável na empresa
• Invista no relacionamento entre os seus funcionários; p.ex., jogos, happy  hours etc.
• Estabeleça um código de conduta que deve ser seguido por todos os  colaboradores
• Crie a figura do Ouvidor para que o(a) colaborador(a) denuncie
• Converse com as partes envolvidas para saber a visão de ambas sobre o caso
• Recorra aos advogados como último recurso entre as partes
• Se necessário, encaminhe o assediador para um tratamento  psicológico/psiquiátrico

Em suma, é possível, sim, dar um “basta”, basta fazê-lo com
B ravura – A titude – S eriedade – T eamwork – A creditar (BASTA)!!!

***

Werner Kugelmeier é Diretor da WK PRISMA – EDUCAÇÃO CORPORATIVA MODULAR, Empresa  de Treinamentos Empresariais, de Campinas – SP, http://www.wkprisma.com.br, Autor do  Livro “PRISMA – girando a pirâmide corporativa”, wkprisma@wkprisma.com.br

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