A primeira vez, a gente nunca esquece…

Nota da Pedra Lascada: Peguei emprestado o título “Memórias de Escola”, que dá nome a esta seção, de um livro muito interessante escrito pela Professora Teresa Cristina Rego¹. Obviamente, os objetivos desta seção são bem mais modestos, e resumem-se no resgate das lembranças escolares de quem desejar compartilhá-las. [M.S].

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1993. Primeiro dia de aula no magistério. CEFAM – em Santo André. O rapaz pára na porta da sala e, com os olhos, procura um lugar para se sentar. Percebe que há alguns lugares no fundo, onde preferia estar para não ficar diretamente exposto, mas o caminho da porta até o
fundo do outro lado da sala lhe parece bem distante, uma eternidade a ser percorrida. Senta-se na terceira carteira da primeira fileira, ou seja, até onde as suas pernas, bambas,  lhe permitem caminhar. Ali, pelo menos, tem a parede para servir como apoio extra. Sente que todos os 70 olhos (salvo engano, são 34 moças e outro rapaz) estão voltados para ele – e provavelmente estão, porque deve estar muito, muito vermelho, tanto quanto seu rosto ferve. A primeira professora do dia entra, simpaticíssima. Começam as apresentações. A pergunta de sempre: “Por que você resolveu fazer magistério?”. Ele torce para que não comece por sua fileira, assim teria tempo para pensar no que responder. De fato, a professora escolhe começar pela outra ponta, o que, ao final das contas, foi bem pior, porque cada vez que passa para outra pessoa, mais a ansiedade aumenta, e menos ele sabe o que responder, muito embora todas as respostas sejam praticamente as mesmas, com pequenas variações: “Porque eu gosto de crianças”, “Porque me dou bem com crianças”, “Porque eu sempre sonhei em ser professora”… Última fileira antes da sua, apenas  dez colegas na frente, e as respostas todas igualíssimas desta vez (“Porque eu gosto de crianças”).  Ele, por sua vez, opta por responder a mesma coisa, para não parecer ainda mais diferente e, na sua vez, responde: “Por que as crianças gostam de mim”. Risos, gargalhadas, palmas.

E assim começa o meu primeiro dia no magistério. [M.S.]

***

¹A partir da narração da história de vida de alguns professores universitários, que tiveram uma “infância difícil”, a autora, fundamentando-se nos postulados de Vygotsky, procura desvelar a efetiva influência da escolarização na constituição da identidade das pessoas. Em “Memórias de Escola: Cultura escolar e constituição de singularidades” (Ed. Vozes, 2003), Teresa Cristina Rego propõe as seguintes questões: “Afinal, qual é o efeito de uma passagem longa e sistemática pela escola no pisiquismo dos sujeitos? Que tipo de desenvolvimento a escolarização promove no indivíduo? Tal desenvolvimento se restringe aos domínios cognitivo e social ou se estende também aos planos afetivo e motor? Basta estar na escola para que os efeitos desejados ocorram? Qualquer escola promove o mesmo tipo de desenvolvimento? De que forma o maior ou menor impacto da escolarização se relaciona com as características do contexto social em que o indivíduo se insere (condições socioeconômicas, tipo de educação familiar, ambiente cultural, nível de acesso a cultura letrada, etc) e ao tipo de escolarização vivenciada (qualidade da proposta pedagógica, possibilidade de interações ricas e variadas, etc)?”.

Uma consideração sobre “A primeira vez, a gente nunca esquece…”

  1. Sabe… Nunca gostei de falar sobre o motivo da escolha da minha profissão (e já tive que fazer isso várias vezes!). Como não sei mentir, sempre que eu respondia “decidi ser professora porque poderia trabalhar meio período, cuidar da casa e dos filhos, e pagar as contas” (naquela época, meio período pagava as contas da casa, acreditam?), as pessoas me olhavam de forma esquisita – acho que pensavam algo tipo: “Tá, mas não precisa dizer, né… É feio!” ou “que falta de romantismo” ou “nossa… como ela deve ser infeliz!” ou ainda: “Ela não tem o dom, nunca será uma boa professora!”. Os anos passaram, e eu fui ficando… Há muito tempo não trabalho só meio período (hoje, tripla jornada não paga as contas da casa!!). Fiz 25 anos de profissão e sou realizada profissionalmente… Eu APRENDI a ser uma boa professora (hoje sou coordenadora). Na vida, a gente precisa fazer muitas escolhas… Às vezes, a gente pode escolher um caminho por razões que não se sustentam e, com certeza, será preciso retornar ao ponto de partida depois de algum tempo… Mas, é possível que algo aconteça durante a caminhada, mostrando que você escolheu o caminho certo. Essa coisa de “dom” é estranha… Sabe o ditado: “Filho de peixe, peixinho é!” Não é só isso, não… Filho de peixe, peixinho é, porque viveu no mar! Aprendeu a ser peixe!
    Bjks a todos!

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