Carta pessoal, mas aberta ao Prof. Jorge Paz de Mogi das Cruzes

São Bernardo do Campo, 01 de abril de 2011

“O saber que não vem da experiência, não é realmente saber”. Lev Semenovitch Vygotsky

 

Caro Amigo Prof. Jorge Paz,

No silêncio desta manhã, acordei com pensamentos sobre meu trabalho pedagógico coletivo. Normalmente, acordo assim após eles acontecerem.

Ah, certo! Eu deveria acordar com planos sobre o novo dia e não revendo o dia anterior. Mas às vezes isso acontece e eu lhe conto o porquê. Sinto-me indiferente, ausente, distante…longe do raciocínio propositor, investigador, realizador. Diria que concomitantemente aos anos que me afastam da nossa profícua militância sindical junto aos educadores do estado de SP, e lá se vão 15 anos, houve um crescente apagar das luzes dos nossos ideais revolucionários no seio da Educação. Só prá imaginar, Callegari que propôs a Escola Padrão durante o governo de Fleury no estado de SP hoje dirige a construção de um “novo” estatuto para o magistério são bernadense. Mas ainda conclui se issso é bom ou ruim. Apenas uma constatação.

Quando as luzes se apagam para dar vez a um ressurgir forte e claro de novas proposições ou mesmo realizações é bom. Na educação, a cada luz que se apaga, várias vidas intelectuais também se obscurecem e parece não voltarem mais a brilhar. Há um conformismo factual e uma inércia intelectual latente.

Durante estes quase 15 anos que nos afastam do raciocício analista-propositivo tivemos, sim, até tivemos bons momentos de uma discussão política pautada em questões de fundo para a educação e mesmo para nossas carreiras que porém não sairam dos papéis sujos pela condecêndencia de alguns dirigentes que continuam a dirigir o que não lhes pertence, já que políticos de carreira pouco tem de representatividade efetiva (compromisso) com aqueles que deveriam estar representando. Penso que há muito não participo de uma reunião em que se analise nossos reais objetivos e possíveis formas de alcançá-los a luz de uma reflexão global que parta de uma análise conjuntural mundial focando o papel na nossa Educação dentro desse conjunto global que nos dita normas e condutas.

As reuniões, para as quais somos remunerados de forma vil, ainda são pautadas para discutirmos trâmites burocráticos como entrada e saída de alunos, empréstimos e/ou uso de materiais didáticos, uso dos espaços escolares, da limpeza, do preenchimento dos registros, etc…etc… e por aí vamos. Para não ser fatalista e/ou tendenciosa, há alguns momentos de formação.

Qual o papel que a Educação brasileira representa dentro do Capital global? O que a nova geração de professores representa na manutenção do “status quo” dos governos? Qual o caminho para a Educação libertária proposta pelo Prof. Paulo Freire, a qual não foi trilhada após mais de 3 décadas da sua apresentação? O que a obra de Lev Vygotsky que ressalta o papel da escola no desenvolvimento mental das crianças e é uma das mais estudadas pela pedagogia contemporânea nos afeta diretamente para uma ação diferenciada no nosso coletivo pedagógico? Caro amigo, não conseguimos concluir sobre Lev porque nunca o estudamos de fato. Desde que a direita socialista se apoderou de Lev (Vygotsky) para seu discurso e que passamos a conhê-lo como um sócio-interacionista sem ao menos saber o que ele representou na Educação do seu país ao escrever propostas científicas na Bielo-Rússia como apoiador da revolução bolchevique de 1917, a coisa virou samba de criolo doido. Pouco sabemos de fato sobre esse jovem, filho de judeus, que em tão pouco tempo de vida (1896 – 1934) deixou ao universo pedagogês análises e propostas profundas para uma educação revolucionária, onde o objetivo máximo é a apropriação do conhecimento pelas classes mais espoliadas do capitalismo imperialista excludente, como base para o fim da exclusão social através da convivência de valores sociais. Nossa, viajei para o tempo de nossos estudos em grupo e aprofundamento de análises e conclusões.

Noto a disseminação da intelectualidade pela ineleculidade; do silêncio à discussão; da inferiorização dos temas aos que possam resultar em questionamento e interferência. Assim, amigo professor Jorge que tanto se esforçou durante todo o seu percurso profissional para que os encontros dos professores não caissem nessa armadilha do não-construir, chegamos a dizer o que não pensamos e a fazer o que não cremos. Deixamo-nos dominar pelo “quanto menos pensar, melhor” e, mesmo assim, nos sentimos cansados, desorganizados, sem boas lideranças quer construtoras de nova ordem educacional, quer ativistas. E em dado momento em que me vi questionando sobre se sou a favor ou contra a retirada de material pedagógico (jogos) de uma sala específica para a nossa sala de aula, respondi de forma a que meus pares entendessem – embora não saiba se entenderam porque se restringiram à pequenos murmúrios entre grupos – meu pensamento sobre a forma de reunião que temos produzido nas escolas:

 Estou me “lichando” para se vamos ou não retirar o material da sala de jogos para nossas classes. Estou me “lichando” para toda essa burocracia que cotidianamente ao longo de anos discutimos e registramos em atas. Estou me “lichando” prá esta educação imobilizadora e perpetuadora de classes. Que tudo voe pelos ares e renasçam as palavras de quem fala, de quem quer construir uma nova ordem, uma nova sabedoria já tão velha em papéis amarelados pelo tempo que não a realiza, a nova e libertadora Pedagogia do Oprimido é meu desejo íntimo.

Obrigada pelo que juntos estudamos, pensamos, propusemos e construímos em espaço reformador e atuante. Onde a inércia não tinha vez, onde o inusitado se transformava em base para o sólito. Sim, parecem palavras enigmáticas, mas creio no enigmático que nos fornece conteúdo imprescindível para ação reformadora.

As luzes se apagam e com ela um ciclo questionável de magistério no munícipio de São Bernardo, prá mim. AINDA sem uma conclusão mais aprofundada sobre esta década, eu posso lhe dizer, caro amigo, que em quase nada se compara às nossas vivências durante o final da década de 80 e de 90. Mas com certeza, minha próxima década longe do cotidiano por dentro da Escola Pública, muitas boas produções e boas atuações surgirão fora desse reduto conservador dos valores legalistas. Valores que não são nossos nem do nosso emérito (que palavra esquisita, deve ser da direita festiva) e estimado Prof. Paulo Freire . Mais uma vez obrigada por seus ouvidos de Mestre!

 

Abraços fraternos!

Profª Geanete L. Franco

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