Rapsódia em Agosto

Ficha Técnica:
 
Diretor: Akira Kurosawa
Elenco: Richard Gere, Fumiko Honma, Hisashi Igawa, Mitsunori Isaki, Narumi Kayashima
Produção: Ishirô Honda
Roteiro: Ishirô Honda, Akira Kurosawa
Fotografia: Takao Saitô
Trilha Sonora: Shinichirô Ikebe
Duração: 98 min.
Ano: 1991
País: Japão
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Não definida
 
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Sinopse: Uma história que nos traça o panorama sobre laços familiares e os traumas provocados pela explosão da bomba atômica no Japão durante a II Grande Guerra. Enquanto seus pais viajam para o Havaí, quatro jovens adolescentes vão morar temporariamente na cidade de Nagasaki na casa de sua avó Kane (Sachiko Murase). Ao visitar o monumento erguido em memória das vítimas da tragédia que se abateu sobre a cidade, os jovens ouvem a versão de sua avó sobre o ataque acontecido em agosto de 1945. Mais tarde, Clark (Richard Gere), um sobrinho americano de Kane, chega à cidade para conhecer seus parentes japoneses. Agora, os jovens têm a oportunidade de ouvir e conhecer o outro lado da história sobre a bomba atômica. Uma história marcada pela morte, dor e arrependimento.
 
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Puxa… Um filme com um tema complexo e feito com uma simplicidade de arrasar o coração. A cena mais emocionante, para mim, foi justamente esta que segue acima. Recomendadíssimo!!! [M.S]

Mais sobre… assédio moral.

Nota da Pedra Lascada: As colegas professoras da EMEB “Rolando Ramaciotti” encaminharam, através da Coordenadora Pedagógica, o link do sítio da Udemo que trata sobre assédio moral. Agradeço a contribuição para o debate e coloco este blog à disposição para novos textos, indicações de leitura, críticas e sugestões. Segue o texto extraído do referido sítio (http://www.udemo.org.br/2011/Destaque11_0015_Assediomoral.Html):

O que é Assédio Moral

– É toda e qualquer conduta abusiva (gestos, palavras, escritos, comportamentos, atitudes, etc.) que, intencional e frequentemente, fira a dignidade e a integridade física ou psíquica de uma pessoa, ameaçando seu emprego ou degradando o clima de trabalho.
Pode dar-se de um superior para um inferior; de um inferior para um superior, ou entre iguais.

As condutas mais comuns são:

    – instruções confusas e imprecisas ao(à) trabalhador(a);
    – dificultar o trabalho;
    – atribuir erros imaginários ao(à) trabalhador(a);
    – exigir, sem necessidade, trabalhos urgentes;
    – sobrecarga de tarefas;
    -ignorar a presença do(a) trabalhador(a), ou não o (a) cumprimentar ou, ainda, não lhe dirigir a palavra na frente dos outros, deliberadamente;
    – fazer críticas ou brincadeiras de mau gosto ao(à) trabalhador(a) em público;
    – impor horários injustificados;
    – retirar-lhe, injustificadamente, os instrumentos de trabalho;
    – agressão física ou verbal, quando estão sós o(a) assediador(a) e a vítima;
    – revista vexatória;
    – restrição ao uso de sanitários;
    – ameaças;
    –  insultos;
    –  isolamento.

Legislação

Lei Nº 12.250, de 9 de fevereiro de 2006 (SP). Veda o Assédio Moral no âmbito da administração pública estadual direta, indireta e fundações públicas.

Lei Nº 13.036, de 29 de maio de 2008 (SP). Institui o “Dia Estadual de Luta Contra o Assédio Moral nas Relações de Trabalho”, a ser comemorado, anualmente, no dia 2 de maio.

O que não é Assédio Moral

– Exigir que cada um cumpra suas atribuições e faça o seu trabalho, com zelo, dedicação e eficiência.
– Exigir que cada um comporte-se, no ambiente de trabalho, de acordo com as normas legais e regimentais.
– Exigir, de cada um, o respeito a todos os demais.
– Exigir, de todos, o respeito à legislação.

A trincheira de Jean Whyllys

Por Leandro Fortes, do Blog http://brasiliaeuvi.wordpress.com/

Jean Wyllys de Matos Santos é um sujeito tranquilo, bem humorado, que defende idéias sem alterar a voz, as mais complexas, as mais simples, baiano, enfim. Ri, como todos os baianos, da pecha da preguiça, como assim nomeiam os sulistas um sentimento que lhes é desconhecido: a ausência de angústia. Homossexual assumido, Jean cerra fileiras no pequeno e combativo PSOL, a única trincheira radical efetivamente ativa na política brasileira. E é justamente no Congresso Nacional que o deputado Jean Wyllys, eleito pelos cidadãos fluminenses, tem se movimentado numa briga dura de direitos civis, a luta contra a homofobia.

Cerca de 200 homossexuais são assassinados no Brasil, anualmente, exclusivamente por serem gays. Entre eles, muitos adolescentes.

Mas o Brasil tem pavor de discutir esse assunto, inclusive no Congresso, onde o discurso machista une sindicalistas a ruralistas, em maior ou menor grau, mas, sobretudo, tem como aliado as bancadas religiosas, unidas em uma cruzada evangélica. Os neopentecostais, como se sabe, acreditam na cura da homossexualidade, uma espécie de praga do demônio capaz de ser extirpada como a um tumor maligno. O mais incrível, no entanto, não é o medievalismo dessa posição, mas o fato de ela conseguir interditar no Parlamento não só a discussão sobre a criminalização da homofobia, mas também o direito ao aborto e a legalização das drogas. Em nome de uma religiosidade tacanha, condenam à morte milhares de brasileiros pobres e, de quebra, mobilizam em torno de si e de suas lideranças o que há de mais lamentável no esgoto da política nacional.

Jean Wyllys se nega a ser refém dessa gente e, por isso mesmo, é odiado por ela. Contra ele, costumam lembrar-lhe a participação no Big Brother Brasil, o inefável programa de massa da TV Globo, onde a debilidade humana, sobretudo a de caráter intelectual, é vendida como entretenimento. Jean venceu uma das edições do BBB, onde foi aceito por ser um homossexual discreto, credenciado, portanto, para plantar a polêmica, mas não de forma a torná-la um escândalo. Dono de um discurso político bem articulado, militante da causa gay e intelectualmente superior a seus pares, não só venceu o programa como ganhou visibilidade nacional. De repórter da Tribuna da Bahia, em Salvador, virou redator do programa Mais Você, de Ana Maria Braga, mas logo percebeu que isso não era, exatamente, uma elevação de status profissional.

Na Câmara dos Deputados, Jean Wyllys, 36 anos, baiano de Alagoinhas, tornou-se a cara da luta contra a homofobia no Brasil, justamente num momento em que se discute até a criminalização do bullying. Como se, nas escolas brasileiras, não fossem os jovens homossexuais o alvo principal das piores e mais violentas “brincadeiras” perpetradas por aprendizes de brucutus alegremente estimulados pelo senso comum. Esses mesmos brucutus que, hoje, ligam para o gabinete do deputado do PSOL para ameaçá-lo de morte.

Abaixo, a íntegra de uma carta escrita por Jean ao Jornal do Brasil, por quem foi acusado, por um colunista do JB Wiki (seja lá o que isso signifique), de “censurar cristãos”. O texto é uma pequena aula de civilidade e História. Vale à pena lê-lo:

Em primeiro lugar, quero lembrar que nós vivemos em um Estado Democrático de Direito e laico. Para quem não sabe o que isso quer dizer, “Estado laico”, esclareço: O Estado, além de separado da Igreja (de qualquer igreja), não tem paixão religiosa, não se pauta nem deve se pautar por dogmas religiosos nem por interpretações fundamentalistas de textos religiosos (quaisquer textos religiosos). Num Estado Laico e Democrático de Direito, a lei maior é a Constituição Federal (e não a Bíblia, ou o Corão, ou a Torá).

Logo, eu, como representante eleito deste Estado Laico e Democrático de Direito, não me pauto pelo que diz A Carta de Paulo aos Romanos, mas sim pela Carta Magna, ou seja, pelo que está na Constituição Federal. E esta deixa claro, já no Artigo 1º, que um dos fundamentos da República Federativa do Brasil é a dignidade da pessoa humana e em seu artigo 3º coloca como objetivos fundamentais a construção de uma sociedade livre, justa e solidária e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. A república Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos princípios da prevalência dos Direitos Humanos e repúdio ao terrorismo e ao racismo.

Sendo a defesa da Dignidade Humana um princípio soberano da Constituição Federal e norte de todo ordenamento jurídico Brasileiro, ela deve ser tutelada pelo Estado e servir de limite à liberdade de expressão. Ou seja, o limite da liberdade de expressão de quem quer que seja é a dignidade da pessoa humana do outro. O que fanáticos e fundamentalistas religiosos mais têm feito nos últimos anos é violar a dignidade humana de homossexuais.

Seus discursos de ódio têm servido de pano de fundo para brutais assassinatos de homossexuais, numa proporção assustadora de 200 por ano, segundo dados levantados pelo Grupo Gay da Bahia e da Anistia Internacional. Incitar o ódio contra os homossexuais faz, do incitador, um cúmplice dos brutais assassinatos de gays e lésbicas, como o que ocorreu recentemente em Goiânia, em que a adolescente Adriele Camacho de Almeida, 16 anos, que, segundo a mídia, foi brutalmente assassinada por parentes de sua namorada pelo fato de ser lésbica. Ou como o que ocorreu no Rio de Janeiro, em que o adolescente Alexandre Ivo, que foi enforcado, torturado e morto aos 14 anos por ser afeminado.

O PLC 122 , apesar de toda campanha para deturpá-lo junto à opinião pública, é um projeto que busca assegurar para os homossexuais os direitos à dignidade humana e à vida. O PLC 122 não atenta contra a liberdade de expressão de quem quer que seja, apenas assegura a dignidade da pessoa humana de homossexuais, o que necessariamente põe limite aos abusos de liberdade de expressão que fanáticos e fundamentalistas vêm praticando em sua cruzada contra LGBTs.

Assim como o trecho da Carta de Paulo aos Romanos que diz que o “homossexualismo é uma aberração” [sic] são os trechos da Bíblia em apologia à escravidão e à venda de pessoas (Levítico 25:44-46 – “E, quanto a teu escravo ou a tua escrava que tiveres, serão das gentes que estão ao redor de vós; deles comprareis escravos e escravas…”), e apedrejamento de mulheres adúlteras (Levítico 20:27 – “O homem ou mulher que consultar os mortos ou for feiticeiro, certamente será morto. Serão apedrejados, e o seu sangue será sobre eles…”) e violência em geral (Deuteronômio 20:13:14 – “E o SENHOR, teu Deus, a dará na tua mão; e todo varão que houver nela passarás ao fio da espada, salvo as mulheres, e as crianças, e os animais; e tudo o que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás para ti; e comerás o despojo dos teus inimigos, que te deu o SENHOR, teu Deus…”).

A leitura da Bíblia deve ensejar uma religiosidade sadia e tolerante, livre de fundamentalismos. Ou seja, se não pratica a escravidão e o assassinato de adúlteras como recomenda a Bíblia, então não tem por que perseguir e ofender os homossexuais só por que há nela um trecho que os fundamentalistas interpretam como aval para sua homofobia odiosa.

Não declarei guerra aos cristãos. Declarei meu amor à vida dos injustiçados e oprimidos e ao outro. Se essa postura é interpretada como declaração de guerra aos cristãos, eu já não sei mais o que é o cristianismo. O cristianismo no qual fui formado – e do qual minha mãe, irmãos e muitos amigos fazem parte – valoriza a vida humana, prega o respeito aos diferentes e se dedica à proteção dos fracos e oprimidos. “Eu vim para que TODOS tenham vida; que TODOS tenham vida plenamente”, disse Jesus de Nazaré.

Não, eu não persigo cristãos. Essa é a injúria mais odiosa que se pode fazer em relação à minha atuação parlamentar. Mas os fundamentalistas e fanáticos cristãos vêm perseguindo sistematicamente os adeptos da Umbanda e do Candomblé, inclusive com invasões de terreiros e violências físicas contra lalorixás e babalorixás como denunciaram várias matérias de jornais: é o caso do ataque, por quatro integrantes de uma igreja evangélica, a um centro de Umbanda no Catete, no Rio de Janeiro; ou o de Bernadete Souza Ferreira dos Santos, Ialorixá e líder comunitária, que foi alvo de tortura, em Ilhéus, ao ser arrastada pelo cabelo e colocada em cima de um formigueiro por policiais evangélicos que pretendiam “exorcizá-la” do “demônio”.

O que se tem a dizer? Ou será que a liberdade de crença é um direito só dos cristãos?

Talvez não se saiba, mas quem garantiu, na Constituição Federal, o direito à liberdade de crença foi um ateu Obá de Xangô do Ilê Axé Opô Aforjá, Jorge Amado. Entretanto, fundamentalistas cristãos querem fazer uso dessa liberdade para perseguir religiões minoritárias e ateus.

Repito: eu não declarei guerra aos cristãos. Coloco-me contra o fanatismo e o fundamentalismo religioso – fanatismo que está presente inclusive na carta deixada pelo assassino das 13 crianças em Realengo, no Rio de Janeiro.

Reitero que não vou deixar que inimigos do Estado Democrático de Direito tente destruir minha imagem com injúrias como as que fazem parte da matéria enviada para o Jornal do Brasil. Trata-se de uma ação orquestrada para me impedir de contribuir para uma sociedade justa e solidária. Reitero que injúria e difamação são crimes previstos no Código Penal. Eu declaro amor à vida, ao bem de todos sem preconceito de cor, raça, sexo, idade e quaisquer outras formas de preconceito. Essa é a minha missão.

Jean Wyllys (Deputado Federal pelo PSOL Rio de Janeiro)

Assédio moral – contribuições para o debate

Ao acessar o painel de controle deste blog, frequentemente encontro, na barra que mostra as pesquisas recentes, palavras ou frases referentes a assédio moral. Não faço ideia de quantas pessoas procuram no Pedra Lascada informações a respeito deste tema, mas, a julgar pelo teor das frases digitadas, desconfio que tratam-se de pessoas diferentes – já encontrei coisas mais ou menos assim: “o que fazer se o diretor escolar assediar moralmente o coordenador pedagógico”; “o que o coordenador pedagógico deve fazer quando o professor não obedece suas ordens”; e curiosamente, no dia seguinte, encontrei a seguinte frase: “o que fazer quando o coordenador pedagógico pratica assédio moral contra o professor”.

O que o coordenador pedagógico deve fazer quando o professor não obedece suas ordens? Esta é uma pergunta que parece não se referir ao assédio moral, mas igualmente tem que ver com a questão da relação social, profissional, de hierarquia, de poder, de autoridade… Assim, penso que merece algumas considerações.

Num exercício de me colocar no lugar de outro, para refletir sobre a questão, fiz-me esta pergunta: o que eu, enquanto diretor escolar, faria se um funcionário não obedecesse minhas ordens? Cheguei a algumas hipóteses, mas nenhuma resposta definitiva, pois a ação dependeria da situação.

Por isso, para responder a uma questão como esta é preciso conhecer o caso. Mais: acredito que faz parte da resposta refletir sobre as atribuições de cada um, sobre a função social e a natureza de cada função; é preciso considerar também a natureza e o tipo de ordem dada, até porque em alguns casos as transgressões quanto ao cumprimento de determinadas ordens são expressões de cidadania. Não é a toa que o próprio Estatuto dos Funcionários Públicos de SBC (Lei 1729/68), em seu Artigo 229, estabelece como um dos tantos deveres dos funcionários o cumprimento das determinações superiores e a representação imediata e por escrito “quando estas forem manifestamente ilegais“.

Devido à natureza da função, penso que o papel do coordenador pedagógico é essencialmente formativo, e não normativo. No entanto, é óbvio que o CP deve ser respeitado e considerado enquanto autoridade que é e, assim, as determinações que realiza, sendo concernentes às suas atribuições, ou tendo sido delegadas a ele, não podem ser simplesmente ignoradas e, se ignoradas, é papel da equipe gestora tomar providências para que não mais sejam.

No entanto, é preciso ressaltar mais uma vez que autoridade, embora no sentido formal possa se relacionar com hierarquia,  está longe de ser sinônimo de “posição hierárquica”, nem é consequência natural desta e, por isso, independe da função que cada um exerce.

Voltando à questão do assédio moral…

As frases digitadas na barra de pesquisa do blog demonstram preocupações que dizem respeito diretamente às relações sociais estabelecidas no ambiente de trabalho e às relações de hierarquia.  Como escreveu Daniel Suárez,  o qual nunca me canso de citar, as relações sociais são sempre relações de poder – definição esta que, acredito, não se restringe às relações pautadas no ato de mandar e de obedecer, e contempla o conceito de poder enquanto terreno de possibilidades. Penso que esta interpretação – poder enquanto possibilidade – é coerente porque evita um certo maniqueísmo, uma polarização e uma simplificação das relações humanas.

Enquanto trabalhador, também já passei por situações no mínimo inusitadas: certa feita, logo após expor minhas críticas a respeito de uma situação numa escola em que trabalhava, a diretora simplesmente respondeu que eu tinha sorte de trabalhar em escola pública, porque se aquela fosse uma escola particular ela me demitiria.  Fora outros “recados” recebidos, direta ou indiretamente, em público ou em particular, ao longo dos meus anos enquanto profissinal da educação municipal. De qualquer forma, creio que nenhum deles se caracterizaram propriamente como assédio moral, muito embora pudessem ter a intenção de intimidar novas manifestações.

O problema – como disse acertadamente um colega – é que determinadas respostas ríspidas não nos intimidam pessoalmente, porque pelo nosso perfil continuaremos a dizer o que pensamos, entretanto, elas podem ter o nocivo efeito de inibir manifestações de outras pessoas. Afinal, não é todo mundo que está disposto a “levar chumbo grosso”, porque, como se diz, quando expomos também nos expomos.

Nas discussões sobre o estatuto da educação com os funcionários do apoio, deparamo-nos com algumas queixas sobre “assédio moral” supostamente ocorridas nos locais de trabalho. Tais manifestações expressam o quão importante tem sido a existência desses fóruns de discussão, em que os trabalhadores têm a oportunidade de refletirem não somente sobre suas carreiras, funções e condições de trabalho, como também sobre as relações sociais em seus locais de atuação e então, coletivamente, pensarem em propostas concretas para a melhoria dessas relações. 

A frequência e o conteúdo de tais queixas, por um lado, denotam o quanto precisamos rever a forma como lidamos com as questões de poder e de hierarquia nos espaços escolares, até porque a gestão democrática passa também pelo necessário respeito recíproco na convivência humana e, portanto, não se resume à constituição formal e funcionamento regular dos órgãos colegiados (Conselho de Escola e Associação de Pais e Mestres). Por outro lado, tais queixas também indicam que precisamos aprofundar a discussão sobre assédio moral,  porque se é verdade que precisamos tomar cuidado com o jeito de nos comunicar com as pessoas, é igualmente verdade que uma fala ou uma resposta ríspida, ou ainda uma “ordem” realizada de forma mais diretiva, não caracterizam necessariamente assédio moral. 

Encontramos no sítio www.assediomoral.org a seguinte definição de assédio moral:

“É a exposição dos trabalhadores e trabalhadoras a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções, sendo mais comuns em relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, em que predominam condutas negativas, relações desumanas e aéticas de longa duração, de um ou mais chefes dirigida a um ou mais subordinado(s), desestabilizando a relação da vítima com o ambiente de trabalho e a organização, forçando-o a desistir do emprego.

Caracteriza-se pela degradação deliberada das condições de trabalho em que prevalecem atitudes e condutas negativas dos chefes em relação a seus subordinados, constituindo uma experiência subjetiva que acarreta prejuízos práticos e emocionais para o trabalhador e a organização. A vítima escolhida é isolada do grupo sem explicações, passando a ser hostilizada, ridicularizada, inferiorizada, culpabilizada e desacreditada diante dos pares. Estes, por medo do desemprego e a vergonha de serem também humilhados associado ao estímulo constante à competitividade, rompem os laços afetivos com a vítima e, freqüentemente, reproduzem e reatualizam ações e atos do agressor no ambiente de trabalho, instaurando o ’pacto da tolerância e do silêncio’ no coletivo, enquanto a vitima vai gradativamente se desestabilizando e fragilizando, ’perdendo’ sua auto-estima.

Em resumo: um ato isolado de humilhação não é assédio moral. Este, pressupõe:

  1. repetição sistemática
  2. intencionalidade (forçar o outro a abrir mão do emprego)
  3. direcionalidade (uma pessoa do grupo é escolhida como bode expiatório)
  4. temporalidade (durante a jornada, por dias e meses)
  5. degradação deliberada das condições de trabalho

Entretanto, quer seja um ato ou a repetição deste ato, devemos combater firmemente por constituir uma violência psicológica, causando danos à saúde física e mental, não somente daquele que é excluído, mas de todo o coletivo que testemunha esses atos”.

 O que o coordenador pedagógico deve fazer se for assediado moralmente pelo diretor? A princípio, penso que deveria fazer o mesmo que qualquer pessoa deveria fazer, e aqui estou me referindo inclusive ao funcionário diretor, que eventualmente venha a sofrer assédio moral por parte de seus superiores: representar contra o superior que supostamente praticar o assédio.

O problema é que ainda temos poucos avanços, em termos de legislação, a respeito da prática de assédio moral. Existem alguns projetos de lei sendo discutidos em âmbito federal e, em âmbito estadual, o Estado de São Paulo promulgou a Lei nº 12.250/2006, que “veda a prática de assédio moral no âmbito da administração pública estadual direta, indireta e fundações públicas“.

No caso do município de São Bernardo do Campo, consta no sítio do Sindserv/SBC (http://www.sindservsbc.org.br/especiais/campanhas/50-veja-a-proposta-aprovada-na-assembleia.html) que entre as propostas aprovadas na assembleia do dia 17 de março estão:

  • Criação de mecanismos de defesa dos servidores, capazes de coibir a prática de assédio moral, perseguição, bulling e outras faltas assemelhadas, mediante elaboração de projeto de lei, no prazo de 120 dias;
  • Promover eventos educativos sobre o tema assédio moral e outros relativos às relações no ambiente de trabalho, direcionado a servidores e gestores“.

Esperar que esta lei saia do papel simplesmente dependendo da boa vontade de ambas as partes é jogar no escuro com a sorte e, principalmente, com o azar, até mesmo porque a atual diretoria do Sindserv/SBC, em sua atuação à frente do Sindicato, tem demonstrado jogar mais no time da administração do que no time dos funcionários públicos. Por isso, discuta a questão com os colegas de trabalho, encaminhe propostas, pressione, organize-se coletivamente. Como costumamos dizer, o resultado dependerá de nossa capacidade de organização e de nosso poder de mobilização. [M.S] 

Carta à ministra Maria do Rosário

Pinheiro Salles

Com a necessária veemência, mas com uma inquestionável serenidade, eu me dirijo a Vossa Excelência para abordar um assunto que os governos, desde Sarney, tentam empurrar para debaixo do tapete: a questão da ditadura militar no Brasil (1964-1985). Por conseguinte, poderia começar com um pedido de desculpas. Se não o faço, é que tenho pelo menos duas justificativas: 1ª) o seu cargo no governo (ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República) lhe confere a incumbência de receber as denúncias pertinentes e até entender as idiossincrasias de quem carrega na pele a marca dos porões; e 2ª) nos órgãos repressivos, diante do que sofri e testemunhei, assumi o compromisso de jamais me omitir no restante da minha vida de sobrevivente, sempre cobrando posicionamentos claros em defesa da justiça.

Com muita dor e sacrifícios incontáveis, algumas conquistas foram arrancadas nesses anos recentes. Mas elas não vieram com a altivez desejada. Eram concedidas de forma envergonhada, acanhada, para não despertar a ira de quem parece permanecer com a espada na mão. Até o governo Lula, de quem se esperava uma postura autônoma e independente, que materializasse uma definitiva ruptura com o tempo do terror, fez questão de não se indispor com os discípulos de Hitler.

O povo, não percebendo as dilacerantes conseqüências da sua passividade, não esboçou nenhum tipo de mobilização. Dentro de um implacável massacre ideológico, foi levado a acreditar que a consolidação da democracia estava consubstanciada no direito de votar e ser votado, pouco importando se a opção ficasse entre o ruim e o menos pior. Pela trajetória do presidente Lula, ele não encontrou dificuldade em cumprir seu papel de ficar bem com Deus e o Diabo (deixou o Palácio do Planalto com uma aprovação inédita no país), embora sacrificando o avanço dos movimentos sociais e não facilitando o aprofundamento das conquistas democráticas.

Precisamos lembrar que, após o fim da ditadura, os militares mantiveram privilegiado espaço nos governos seguintes. Por isso é que todos os presidentes da República, quando questionados, argumentam ser esse um assunto “extremamente delicado” e se negam a enfrentar o problema. Os representantes da caserna, ao lado de partidos políticos, dos grupos econômicos e lideranças de direita, tudo vêm fazendo, de maneira articulada, para frustrar nosso dever de verificar os crimes da ditadura e atribuir a penalidade dos culpados.

Bem que o então ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, deu uma relevante contribuição para trazer à tona as mazelas praticadas durante os 21 anos de trevas. Sob sua coordenação, foi planejada uma Comissão Nacional da Verdade, prevista no Programa Nacional de Direitos Humanos-3, para apurar as agressões dos ditadores. Essa iniciativa, porém, logo o transformou num alvo do mais intenso bombardeio. O comando da ação coube ao ministro da Defesa, Nélson Jobim, que a cada dia mais se afirma como porta-voz dos rebotalhos que insistem em acobertar a atuação dos verdugos e impedir sua responsabilização criminal.

Contando com a tolerância de Lula, essas viúvas do arbítrio conseguiram forças para fazer o governo recuar. Assim, foi assinado um novo decreto, com a supressão do trecho onde se afirmava que a Comissão da Verdade iria promover a apuração das “violações de direitos humanos praticadas no contexto da repressão política”. Setores da grande imprensa caluniaram, difamaram, enxovalharam Paulo Vannuchi, como se ele não desempenhasse uma tarefa patriótica nas lutas democráticas do povo brasileiro. Mas, lamentavelmente, o governo não teve firmeza para derrotar a prepotência de Nélson Jobim e dos comandantes das Forças Armadas.

Fatos de considerável densidade continuam se sucedendo a todo instante e deixando à vista as feridas jamais cicatrizadas. Quando a OAB procurou acabar com a falácia de que a Lei da Anistia (6.683/79) havia beneficiado os torturadores, o Supremo Tribunal Federal, julgando a ação, confirmou a vontade dos militares: a anistia foi ampla, geral e irrestrita, não excluindo os agentes que praticaram tortura, homicídio, desaparecimento forçado, abuso de autoridade, lesões corporais, estupro e atentado violento ao pudor. Naturalmente, a decisão se constituiu uma afronta à consciência democrática mundial, com uma repercussão excessivamente negativa para o nosso país.

Nesse tempo de vacas magras, entretanto, surgiu uma notícia alvissareira. Em dezembro último, a Corte Interamericana de Direitos Humanos responsabilizou o Estado brasileiro pelo desaparecimento dos participantes da Guerrilha do Araguaia (já se sabe: as atrocidades cometidas, segundo os próprios autores, encontram pouca equivalência inclusive nos campos de concentração da Alemanha nazista. Falando a uma revista, certo militar admitiu: “Tinha de trazer a cabeça mesmo, para provar que havia matado”).

Sabe Vossa Excelência, ministra Maria do Rosário, que a posse de Dilma Rousseff na presidência da República não acendeu luzes no horizonte dos direitos humanos. Prova isso a continuidade do ministro Nélson Jobim no antigo posto. Conforme  comentários veiculados na imprensa, isso ocorreu em atendimento a uma exigência do ex-presidente Lula, cedendo às pressões dos militares. O certo é que seu prestígio ainda não passou por nenhum desgaste, como comprovam os fatos desde a sua confirmação no cargo. Aliás, ele pode até ser fortalecido, já que agora conta com a experiência e astúcia de um notório renegado, ex-militante de esquerda, ex-preso político torturado, ex-presidente do PT, ex-deputado federal, já condecorado pelo Exército, que aceitou o encargo de servir como um dos seus principais auxiliares.

As provocações e o desrespeito chegaram a um nível de desfaçatez alarmante, atingindo sobretudo a memória dos brasileiros(as) que morreram para que outros pudessem viver com alguma dignidade. A Comissão da Verdade era ironicamente chamada Comissão da Inverdade, da Mentira… O general José Elito Carvalho, chefe do gabinete de Segurança Institucional, disse não haver “motivo para vergonha” na existência de desaparecidos políticos no país. Outros até foram mais longe. Insurgindo-se contra a Comissão da Verdade, as Forças Armadas se referem ao período autoritário com a expressão “governo chamado de militar”, negando o seu real caráter. E ainda hoje, quase meio século após o início da ditadura que instaurou o terrorismo no Brasil, os arautos dos quartéis dão prosseguimento às suas chantagens e ameaças. Para eles, qualquer investigação sobre torturas e circunstâncias da morte de opositores políticos seria “abrir feridas”, provocando “tensões e sérias desavenças”.

Recentemente, para comemorar os 47 anos do golpe imposto pelos Estados Unidos em aliança com os fascistas tupiniquins, os presidentes dos clubes Militar, Naval e da Aeronáutica divulgaram um manifesto conjunto homenageando “os integrantes das Forças Armadas da época”. E promoveram o simpósio “A revolução de 31 de março de 1964 – com os olhos no futuro”. A nota foi assinada pelo general Renato César Tibau da Costa, pelo vice-almirante Ricardo Antônio da Veiga Cabral e pelo tenente brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista, afirmando, ainda, que “o assunto continua em pauta, especialmente neste momento em que o Congresso Nacional discute a criação da Comissão da Verdade”.

Ministra Maria do Rosário, a situação é mais grave do que se imagina. Ninguém tem dúvida: a democracia, hoje, encontra-se num estágio incomparavelmente mais desenvolvido em outros países da América do Sul, como Argentina, Chile e Uruguai, que também conheceram sanguinários regimes discricionários. É que nesses países não se vacilou face aos crimes perpetrados pelos agentes da morte. Aqui, os algozes tanto aprimoraram as suas técnicas que, não por acaso, foram ajudar os vizinhos, na qualidade de mestres insuperáveis na prática da tortura. Lá, no entanto, a apuração das responsabilidades, os julgamentos e as condenações não pouparam mandantes nem executores. Somente o Brasil ficou isolado, como uma ilha de opróbrio, evoluindo para país da impunidade, mesmo tendo sido matriz da violência contra a democracia na América Latina.

Se há quem fale em ditabranda, considerando irrisório o número de mortos e desaparecidos, tenho segurança de que assim não pode ser chamado um regime onde seus agentes recorreram aos mais hediondos métodos de repressão e extermínio. Eles seqüestraram, torturaram, mataram, decapitaram. Furaram olhos, afundaram crânios. Quebraram costelas, braços e pernas. Afogaram crianças em banheira. Urinaram em cara de presos amarrados e pendurados em paus-de-arara. Castraram, estupraram, extirparam seios. Introduziram cassetetes em vagina de presas. Com jipe, moeram o corpo de pessoas enterradas na areia de praias. Arrancaram dentes e unhas com alicate. Aviltaram nossa condição humana.

Grande importância tem para nós, e para o mundo, a decisão dos juízes ingleses da Câmara dos Lordes, quando reconheceram que o ex-ditador Augusto Pinochet, do Chile, não estava imune perante o processo criminal na Inglaterra. Segundo o professor Paulo Sérgio Pinheiro, da USP, a decisão recolocou “a questão de que os governos que sucedem ditaduras têm autoridade legal para repudiar anistias”. Acrescenta: “Mesmo que os contextos políticos ou os equilíbrios instáveis do poder impeçam a anulação, o caso do general aponta que essas anistias não são válidas; não podem ser invocadas quando conflitam com os tratados internacionais que obrigam os Estados a processar e punir”.

O professor informa que várias convenções internacionais legalmente pedem que os Estados estabeleçam jurisdição sobre esses crimes. E conclui: “Enfim, a convenção contra a tortura determina que todo caso seja processado, apesar de anistias políticas”. Então, ministra Maria do Rosário, o governo Dilma não encontraria argumento para respaldar eventual omissão nesse processo histórico. Bem sabe Vossa Excelência que a corrupção generalizada, a banalização da violência, o comportamento da polícia, a ousadia dos grupos de extermínio e outras aberrações da sociedade capitalista, na conjuntura atual, estão em estreita sintonia com a questão da impunidade.

Alegra-me a sua presença na busca da identificação dos restos mortais de presos sepultados como indigentes. Também muito me anima sua declaração de que “o Estado brasileiro tem que resgatar sua dignidade em relação às vítimas da ditadura”. Deste modo, espero que assim seja, para que dentro de pouco tempo os heróis da liberdade, mortos e desaparecidos, não voltem a ser considerados subversivos, terroristas ou bandidos, mais humilhando seus descendentes. E os torturadores, autores de crimes ignominiosos, não sejam vistos e lembrados como aqueles que honraram tradições pacíficas do nosso povo. As sequelas que carrego no corpo e na alma, provenientes dos nove anos de cárcere, me alertam para a necessidade de continuar lutando, até o derradeiro instante, por um Brasil verdadeiramente democrático, que tenha assegurado o triunfo da justiça, do socialismo e da paz.

Isso, evidentemente, exige de mim esta carta e este apelo para não tolerar conivência com a ofensiva dos que têm medo da verdade. Receba meus cumprimentos e minha solidariedade no momento em que um nazista da Câmara dos Deputados agride Vossa Excelência com tanto furor. Reflita sobre este lembrete de Saramago: “A regeneração da democracia e o respeito aos direitos humanos constituem os dois objetivos estratégicos deste século para a humanidade”. Um abraço.

*Pinheiro Salles é jornalista profissional e bacharel em Direito. Abordando o tema da ditadura militar, tem quatro livros publicados. Texto extraído do blog Vi o Mundo.

Avisos encontrados em uma paróquia…

São avisos fixados nas portas de igrejas, escritos com muito boa vontade e má redação… Divirtam-se!!!

AVISO AOS PAROQUIANOS
Para todos os que tenham filhos e não sabem, temos na paróquia uma área especial para crianças.

AVISO AOS PAROQUIANOS
Quinta-feira que vem, às cinco da tarde, haverá uma reunião do grupo de mães. Todas as senhoras que desejem formar parte das mães, devem dirigir-se ao escritório do pároco.

AVISO AOS PAROQUIANOS
Interessados em participar do grupo de planejamento familiar, entrem pela porta de trás.

AVISO AOS PAROQUIANOS
Na sexta-feira às sete, os meninos do Oratório farão uma representação da obra Hamlet, de Shakespeare, no salão da igreja. Toda a comunidade está convidada para tomar parte nesta tragédia.

AVISO AOS PAROQUIANOS
Prezadas senhoras, não esqueçam a próxima venda para beneficência. É uma boa ocasião para se livrar das coisas inúteis que há na sua casa. Tragam os seus maridos!

AVISO AOS PAROQUIANOS
Assunto da catequese de hoje: Jesus caminha sobre as águas. Assunto da catequese de amanhã: Em busca de Jesus.

AVISO AOS PAROQUIANOS
O coro dos maiores de sessenta anos vai ser suspenso durante o verão, com o agradecimento de toda a paróquia.

AVISO AOS PAROQUIANOS
O mês de novembro finalizará com uma missa cantada por todos os defuntos da paróquia..

AVISO AOS PAROQUIANOS
O torneio de basquete das paróquias vai continuar com o jogo da próxima quarta-feira. Venham nos aplaudir, vamos tentar derrotar o Cristo Rei!

AVISO AOS PAROQUIANOS
O preço do curso sobre Oração e Jejum não inclui a comida.

AVISO AOS PAROQUIANOS
Por favor, coloquem suas esmolas no envelope, junto com os defuntos que desejem que sejam lembrados.

Alfabetização e letramento: um problema mal colocado

Por Moacir Gadotti*

A alfabetização tem sido entendida tradicionalmente como um processo de  ensinar e aprender a ler e escrever, portanto, alfabetizado é aquele que lê e escreve.

O conceito de alfabetização para Paulo Freire tem um significado mais abrangente, na medida em que vai além do domínio do código escrito, pois, enquanto prática discursiva, “possibilita uma leitura crítica da realidade, constitui-se como um importante instrumento de resgate da cidadania e reforça o engajamento do cidadão nos movimentos sociais que lutam pela melhoria da qualidade de vida e pela transformação social” (Paulo Freire,Educação na cidade, 1991, p. 68). Ele defendia a idéia de que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, fundamentando-se na antropologia: o ser humano, muito antes de inventar códigos lingüísticos, já lia o seu mundo.

O termo letramento tem sido utilizado atualmente por alguns estudiosos para designar o processo de desenvolvimento das habilidades de leitura e de escrita nas práticas sociais e profissionais. Por que esse termo surgiu? Segundo alguns autores, a explicação está nas novas demandas da sociedade, cada vez mais centrada na escrita, que exigem adaptabilidade às transformações que ocorrem em ritmo acelerado, atualização constante, flexibilidade e mobilidade para ocupar novos postos de trabalho.

Os defensores do termo “letramento” insistem que ele é mais amplo do que a alfabetização ou que eles são equivalentes. Emília Ferreiro nega-se a aceitar esse “retrocesso conceitual”. Em vez de se curvar a esse novo anglicismo, ela traduz literacy por “cultura escrita”, e não por letramento. Mas não se trata só de um retrocesso conceitual. Trata-se, lamentavelmente, de uma tentativa de esvaziar o caráter político da educação e da alfabetização, uma armadilha na qual muitos educadores e educadoras hoje estão caindo, atraídos e atraídas por uma argumentação que, à primeira vista, parece consistente.

Não se trata só de palavras, de brigar por terminologias. Trata-se de uma posição ideológica que busca negar toda a tradição freiriana. A palavra alfabetização tem um peso, uma tradição, no contexto do paradigma da educação popular que é a maior contribuição da América Latina à história universal das idéias pedagógicas.

O uso do termo “letramento” como alfabetização é uma forma de contrapor-se ideologicamente à essa tradição, reduzindo à alfabetização à “lecto-escritura”, como se diz em espanhol. 

A alfabetização não pode ser reduzida a uma tecnologia ou técnica de leitura e de escrita. Ser uma pessoa letrada não significa ser alfabetizada, no sentido que Paulo Freire dava ao termo. O termo “alfabetização” não perdeu sua força significativa diante da emergência dos novos usos da língua escrita, como argumentam alguns. Nem o termo inglês literacy (letramento) traduz melhor as práticas sociais que envolvem a leitura e a escrita.

Já estão adotando o termo “letramento digital”. Daqui a pouco, deveremos nos referir às alfabetizadoras como letramentadoras? Além do equívoco conceitual, sonoramente seria uma lástima! Emília Ferreiro tem razão. É um retrocesso.

(*) Moacir Gadotti, 63, é professor titular da Universidade de São Paulo e  Diretor do Instituto Paulo Freire

Profissão: articulador escolar

Por Carmen Guerreiro (Revista Educação, 167)

O coordenador pedagógico se consolida cada vez mais como formador, orientador de um trabalho coletivo e elo entre as pessoas, o projeto escolar e os conteúdos programáticos.

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Escola Projeto Vida, em São Paulo: acompanhamento do plano de aulas do professor

Reger a escola do século 21 não é uma tarefa para qualquer maestro. Numa época em que se rediscutem espaço, tempo, modo, sujeito e conteúdo da aprendizagem, a figura do coordenador pedagógico se destaca como articuladora e representante dessa nova forma de pensar a educação. O coordenador é hoje – ou poderia ser –  o elo a unir projeto pedagógico da escola, conteúdo programático e as pessoas envolvidas no projeto – professores, gestores, pais e alunos. E, para ele, é impossível harmonizar esses três polos sem responder a grandes questões da educação atual: de quem é a responsabilidade pelo aprendizado dos alunos? Como trabalhar o conteúdo de um currículo fixo de maneira diferente em cada turma? Como quebrar a barreira das disciplinas? Como apoiar o professor e contribuir com a sua formação?

Em meio a essas demandas, o cenário educacional contemporâneo introduz ingredientes que criam paradoxos para o exercício da função. Ao mesmo tempo que a cobrança social pela aprendizagem dos alunos, cada vez mais, recai de forma individualizada sobre o professor, ele é instado a trabalhar de forma interdisciplinar, em projetos conjuntos com as outras disciplinas e áreas de saber. No que tange ao currículo, há uma crescente defesa da constituição de um “mínimo múltiplo comum”, sobretudo para algumas disciplinas do ensino médio, nas quais o aluno, caso mude de escola, está arriscado a estudar a mesma coisa nos três anos dessa etapa. Em paralelo, há uma grita pela manutenção das singularidades regionais – nem sempre justificada, pois muito do conhecimento com que a escola trabalha é universal.

Em meio a pressões de todos os lados – dos docentes, gestores, alunos e familiares – quais seriam, então, as características que fariam do coordenador um profissional capacitado a desempenhar o papel de articulador?

Um bom comunicador

Para dar conta de tamanho desafio, o coordenador precisa ter a seu favor algumas características. “Não podemos definir um perfil exato para o coordenador, pois é possível praticar a coordenação pedagógica com estilos variados. No entanto, o cuidado com as relações interpessoais tem de ser um norte a ser perseguido. As características que definem um bom coordenador talvez sejam as mesmas que caracterizam um bom professor”, aponta Renata Cunha, docente do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep).

Independentemente de suas semelhanças com os professores, o coordenador deve ser alguém, segundo Nilda Alves, da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), que saiba liderar sem perder de vista que está coordenando uma equipe em uma escola, e não em uma empresa, que tem dinâmica e foco diferentes. “E isso não significa ficar levando textos que conclamam o professor a trabalhar melhor, já que o professor está ali para cumprir o seu trabalho.”

Fernanda Liberali, pesquisadora da PUC-SP com mestrado e doutorado dedicados ao papel do coordenador pedagógico, complementa que, como líder, ele deve conquistar o respeito do colegiado. “Para isso, precisa estar informado, estudar sempre. Não precisa saber todo o conteúdo de todas as áreas, mas tem de ter conhecimento teórico sobre a prática pedagógica.” Outra característica importante do perfil é saber o momento de ouvir e de falar. “É preciso ouvir o professor para ganhá-lo, fazê-lo revelar o quê e como pensa, como acha que determinada questão tem de ser tratada.”

Estabelecido esse canal de comunicação, fica mais fácil sugerir caminhos e propor reflexões acerca de convergências e divergências entre o que o professor tem em mente e o projeto pedagógico da escola. Essa relação de confiança é fundamental porque faz com que os professores se sintam à vontade para levar suas dificuldades e problemas para o coordenador, resume Fernanda.

Como a interação com os professores está na base do trabalho do coordenador pedagógico, pesquisadores do tema usam a teoria das relações interpessoais, do pedagogo norte-americano Donald Schön, para tentar compreender as habilidades de comunicação que esse profissional precisa desenvolver. De acordo com Schön, autor de Educando o profissional reflexivo (Artmed, 2000, edição esgotada), a relação entre instrutor e aprendiz (interpretados por especialistas como coordenador e professor) pode ser um sucesso ou um fracasso dependendo de como a hierarquia, o poder e o controle transparecerem na comunicação. Ele descreve duas situações. Na primeira, o coordenador deixa claro o seu poder como superior na hierarquia em relação ao professor. O resultado é descrito por Tânia Romero em seu doutorado A interação coordenador e professor: um processo colaborativo?: “As pessoas não querem experimentar, correr riscos, revelar suas conjecturas ou hipóteses, preocupadas que estão em munir-se de certezas para rebater pontos de vista adversos. O resultado é que as condições para aprendizagem não são estabelecidas.”

O segundo modelo, focado no aprendizado mútuo, volta-se ao “entendimento, colaboração e questionamento das visões e interesses dos participantes envolvidos: um jogo de cartas na mesa, sem mistérios ou intenções ocultas”. “Encoraja-se que sejam criadas condições para livre troca de informações, mesmo aquelas mais sensíveis e difíceis, que haja conscientização dos valores em jogo, bem como conscientização das limitações da própria capacidade, que haja comprometimento interno dos participantes quanto às decisões tomadas, comprometimento este baseado em satisfação intrínseca em vez de recompensa ou punição externa. O clima de confiança mútua que se estabelece (…) propicia um relacionamento colaborativo favorável a oportunidades de reflexão”, escreve Tânia.

Espaço coletivo

O segundo modelo representa o canal aberto de comunicação para um trabalho coletivo, não hierarquizado. Para que essa proposta possa ser colocada em prática, Schön diz que o professor deve defender suas posições sem deixar de questionar e ouvir a crença dos colegas, justificar como chegou a seu ponto de vista, debatê-lo e, caso se sinta em meio a um problema ou dilema, expressar isso publicamente.

Todo o trabalho do coordenador, portanto, só é possível a partir de um espaço coletivo de debate com os professores. Só a partir dessa interação a figura do coordenador pode exercer a sua principal função, a de formador que promove a reflexão contínua junto aos professores sobre a prática pedagógica. Por isso é importante para os coordenadores compreender que a construção de conhecimento junto aos professores não acontece porque o coordenador ensina o professor como ensinar, e sim porque existe o intercâmbio entre eles. Essa ideia, advinda das teorias do psicólogo russo Lev Vigotski, tomada como base para entender as relações de aprendizagem dentro da escola, é hoje utilizada no estudo do papel do coordenador.

O dia a dia do coordenador

E na prática, o que faz essa figura dentro da escola? Renata Cunha, da Unimep, defende em seu artigo O coordenador pedagógico e suas crenças que um dos desafios é o de articular teoria e prática: “O saber e o fazer reflexivo precisam estar contextualizados, uma vez que a transformação da realidade educacional decorre do confronto entre teoria e prática. Nesse sentido, questiona-se quem seria o profissional responsável por mediar o coletivo docente e articular os momentos de formação. O coordenador pedagógico passa a ser considerado o interlocutor da formação docente na medida em que proporciona a reflexão sobre a prática e a superação das contradições entre o pensar e o agir”, avalia.

Renata descreve o coordenador como mediador na escola, aquele que deve promover o diálogo entre gestão, professores, pais e alunos. E enumera algumas de suas atribuições: promover oportunidade de trabalho coletivo para construção permanente da prática docente e revisão do projeto político-pedagógico; acompanhar e avaliar o ensino e o processo de aprendizagem, bem como os resultados do desempenho dos alunos junto aos professores; assumir o trabalho de formação continuada e garantir situações de estudo e de reflexão sobre a prática pedagógica e aprofundamento das teorias da educação; auxiliar o professor na organização de sua rotina de trabalho; colaborar com o professor na organização de seleção de materiais adequados às diferentes situações de ensino e de aprendizagem; apoiar os estudantes e orientar as famílias, entre outras.

Na escola Projeto Vida, na zona norte paulistana, uma das coordenadoras do ensino fundamental 1, Sônia Favaretto, explica como essas funções se traduzem no cotidiano. Ela auxilia, por exemplo, os professores na elaboração de um plano de aulas, incluindo a busca de referências bibliográficas e instrumentos de avaliação. “Além disso, é preciso acompanhar esse plano – pautas de observação em sala devem ser combinadas previamente com os professores, assim como é possível a análise de vídeos com intenção formativa”, explica. Uma das práticas de formação da escola é estudar coletivamente um registro de aula feito pelo professor. O coordenador (e em alguns momentos os próprios colegas) lê, formula perguntas, assinala aspectos relevantes e aponta o que falta para que a prática converse com a teoria, buscando fundamentar as atividades propostas. Outra técnica utilizada é a de oferecer um modelo de referência para o professor, pedindo que observe outros colegas dando aula.

Fernanda Liberali, que realiza trabalho de formação de coordenadores em escolas das redes pública e particular de São Paulo, sugere também que a equipe promova simulações de aula – para, por exemplo, aprender a trabalhar com um material novo – , ou que realize fóruns de discussão on-line para debater questões do cotidiano. “Dou muitos cursos sobre como sentar com o professor e discutir uma aula que não tem nada que ver com a proposta da escola, como conversar sobre isso, como ensinar o docente a ver se o realizado bate com o planejado, como o resultado do aluno reflete o planejamento, e como formar com foco em teorias de aprendizagem e linguagem. Às vezes o coordenador sabe disso na prática, mas não sabe explicar e trabalhar isso junto ao professor”, afirma.

Sem receita

Existem experiências positivas e negativas, mas não há uma receita para o trabalho da coordenação pedagógica que garanta o sucesso do trabalho. Não é recomendável padronizar métodos e técnicas didáticas para serem usados entre coordenadores e professores, assim como é difícil crer que alunos aprendem e atribuem significado aos conteúdos da mesma forma.

Os repertórios cultural, teórico e de vivências dos docentes devem sempre ser levados em consideração. “Cada professor tem uma trajetória de formação, determinadas preferências, limitações, estilo de comunicação, postura em relação às diversas situações do cotidiano da escola. O coordenador precisa ser sensível às características de cada professor e ajudá-lo a refletir”, explica Renata.

A função do coordenador pedagógico tem se consolidado, mas os próprios coordenadores muitas vezes não sabem qual é sua função. É o que diz a pesquisa O papel do coordenador pedagógico (2010), da Fundação Victor Civita, que revela que apenas 9% dos coordenadores entrevistados acreditam que faz parte do seu trabalho realizar um planejamento pedagógico e buscar melhorias para o ensino, aprendizagem e dificuldades dos alunos. Além disso, apenas 60% promovem reuniões com docentes.

Para Neurilene Ribeiro, coordenadora pedagógica regional do Instituto Chapada de Educação e Pesquisa, ONG que atua em 30 municípios baianos, a diferença entre um coordenador que sabe quais devem ser suas atividades e outro que não sabe com clareza é o comprometimento da escola com o projeto político-pedagógico. Uma escola que tem como objetivo sustentar uma prática pedagógica inovadora deve voltar a coordenação para sua real função, que é a da formação continuada.

“O coordenador deve passar menos tempo produzindo papéis e mais se dedicando ao triângulo professor, aluno e aprendizagem. Se o projeto político pedagógico é mais frágil, o cotidiano do coordenador é menos planejado e se dissolve em resolver problemas do dia a dia”, alerta. Dessa forma, a atuação do coordenador tende a ser pontual e descontínua, com pouca sustentação educacional.

Ou seja, ao que parece, existem duas vertentes possíveis para que o trabalho do coordenador se estabeleça: uma é a do “faz-tudo” ou “apaga fogo”, caracterizada pelo improviso e pela carência de reflexão educacional; a outra é voltada à formação docente e à construção de um projeto político-pedagógico com planejamento estratégico.

A formação do professor na escola

A formação continuada de professores deve acontecer em vários níveis, não apenas na escola, como defende Renata. Como acontece com profissionais de outras áreas, também os docentes se beneficiam com o alargamento de seu repertório cultural. É importante, também, que o professor se mantenha atualizado e informado inclusive para que os encontros de formação dentro da escola sejam mais produtivos, com mais possibilidade de troca de experiências e conhecimento. “A formação continuada que acontece na escola deve centrar-se naquela realidade e nas necessidades do grupo de professores. É uma formação compartilhada, centrada nas experiências e dilemas enfrentados pelos professores empenhados na superação das dificuldades identificadas”, observa Renata, diferenciando a formação continuada na escola daquela feita individualmente.

Sônia Penin, do Departamento de Metodologia de Ensino e Educação Comparada da Faculdade de Educação da USP, observa que a formação dentro da escola é essencial, porque é o único espaço de contextualização do trabalho dos professores. Fora da escola, os problemas são mais genéricos e não fazem parte daquele universo específico. “O coordenador vai focar a formação em uma situação única: naquela escola, naqueles alunos, naqueles índices, naquele cotidiano vivido pela equipe e que deve ser problematizado”, pontua. A existência de processos de formação continuada individual é fundamental para que a formação seja potencializada, complementando o processo.  

Como Estrelas na Terra – Toda Criança é Especial

Conforme prometido, disse que este próximo post traria minha crítica do filme. Vamos começar dizendo que o nome completo do filme é “Taare Zameen Par – Every Child is Special”, o que significa, exatamente, “Estrelas na Terra – Toda Criança é Especial”. Embora o filme fale diretamente sobre o caso de uma criança, ele é uma mensagem para o mundo sobre o verdadeiro papel de um educador e formação de um novo ser humano – veja que não digo professor, mas educador. Ao afirmar no título que toda e qualquer criança é especial, que são como estrelas na Terra, a proposta é trazer a idéia de que não podemos negligenciar a diversidade e preciosidade dos projetos de gente de nosso mundo, pois são eles que fazem o futuro.

Mas assisti ao filme sem saber o significado do título. Estava ainda na Índia quando o vi e, pior, vi sem legendas. Mas me segurei pra não deixar as lágrimas escorrerem quando o filme terminou, com vergonha de que as pessoas que estavam por perto me vissem daquele jeito. Bobagem. Nas outras vezes que assisti não deu pra segurar.

Eu vi Taare Zameen Par num momento em que minha viagem pela Índia já impunha em meu ser a necessidade de adaptar-se ao jeito indiano de ser. Eu já havia visto muito (mesmo que muito mais ainda falte por ver) e já compreendia em grande medida o que é ser indiano e fazer parte daquela sociedade tão não-fácil de se viver. Já havia visto alguns filmes indianos, antes de ir à Índia e enquanto lá estive, mas, de repente, assisti ao Taare Zameen Par. Me assustei com aquilo. O filme vai muito além de tocar na sensibilidade de ser criança e educador; ele manda uma mensagem de nosso papel como ser humano – o que na Índia não é tarefa fácil. Aliás, é bom que eu diga, poucos são os próprios indianos que realmente reconhecem o valor desse filme, muito poucos.

Em muitos momentos, Aamir Khan optou por utilizar recursos caricatos para os personagens do filme, sobretudo em relação aos professores de ambas as escolas por que Ishaan passa. Ainda que personagens caricatos possam trazer um grau de irrealidade para a trama, em Taare Zameen Par a caricatura contribui para aumentar a sensação de sofrimento, opressão e incompreensão vivido pelo garoto disléxico. No conjunto, caricaturas e clipes de música ilustram uma ficção que de irreal nada tem; qualquer semelhança entre a ficção e a vida real é mera coincidência, diz, antes do filme começar. Mas o próprio professor Ram Shankar Nikumbh (interpretado por Aamir Khan) lembra às crianças que Einstein, Agatha Christie, Da Vinci e Tomas Edison eram disléxicos e sofreram na infância – TZP é história da vida real. Antes fosse apenas ficção.

Já que citei os clipes de música, vamos falar sobre eles. Comumente, nos filmes de Bollywood, as cenas de música não costumam exatamente complementar o desenrolar da história, mas aparecem mais como um momento de entretenimento e, recentemente, de expor homens e mulheres em seu ápice de beleza corporal. As músicas nesses filmes são, no entanto, as coisas mais importantes da produção cinematográfica. Para se ter uma idéia, as trilhas sonoras são lançadas cerca de um mês antes da estréia dos próprios filmes – e esta é a principal estratégia de marketing das produtoras. Imediatamente as músicas entram na lista dos mais tocados da semana e todos cantam as trilhas dos filmes que ainda nem viram. Na Índia quase não há espaço para grupos de música, pois o que se ouve vem dos filmes, tal é o peso da produção cinematográfica indiana.

Em Taare Zameen Par, portanto, não poderia ser diferente. No entanto, há uma grande diferença na função destas músicas para o decorrer do filme e como elas são mostradas. A diferença mais importante está no fato de que não há as típicas cenas de dança dos filmes de Bollywood; as músicas aparecem como clipes, mostrando cenas que complementam a história que está sendo contada naquele momento, porém sem diálogos. A primeira a aparecer, por exemplo, mostra a rotina da casa de Ishaan. Num outro momento, Ishaan sai pra rua e anda pela cidade (Mumbai), reparando em detalhes não usuais para uma simples criança de sua idade. Neste momento toca a música Mera Jahan, que, literalmente, significa Meu Mundo. É o que Ishaan vê e reconhece como fazendo parte integrante. Ao voltar pra casa ele elabora o que viu fazendo um desenho – a criatividade artísticas em disléxicos tende a ser mais aflorada, pela sua maneira distinta com que o mundo é compreendido. A música que ficou mais famosa, porém, foi Maa, que significa Mãe, como já disse anteriormente. Quando passa essa música, Ishaan acaba de chegar no internato e sofre demais – sua mãe também. Postarei este clipe pra vocês.

Numa outra música, com o título que dá nome ao filme, vemos o professor Ram Nikumbh em seu emprego na escola pra crianças especiais e depois partindo para a casa de Ishaan, onde irá conversar com seus pais. A música é longa e tão longo é todo esse momento, mas nem percebe-se a música tocar, dada a imensidão de informações passando. Porém, o detalhe mais importante desta passagem está no que faz Ram no caminho até a casa de Ishaan, que não vi indiano nenhum fazendo e nem sequer parando para refletir sobre. No ônibus, o professor ajuda uma mãe com seu bebê; depois, na beira da estrada, paga um chá com biscoitos à criança-empregada do estabelecimento. Em outro momento, andando ao lado da feira, pega a couve-flor que cai no chão. Coisas simples, mas indianos não costumam fazer coisas simples. Simples ajudas, mas indianos não costumam ajudar.

Taare Zameen Par vem também cumprir um importante papel na sociedade indiana. Não se trata de civilizar ou ocidentalizar, mas de trazer um pouco mais de humanidade para o coração hindustani, um pouco mais do senso de individuação, que de nada tem a ver com individualização. Talvez ainda além de mandar uma mensagem sobre o papel do educador, este filme ensina antes o que é ser pai, o que significa e o que implica em ter um filho. Ram Nikumbh, contestando o que o pai de Ishaan disse a ele em certo momento, deixa bem claro o que significa a palavra “cuidar”. E neste momento sublime, alerta para que não aconteça com Ishaan o que acontece com as árvores das Ilhas Salomão, que morrem após as pessoas ficarem gritando à sua volta. Aamir Khan fez uma obra-prima – e talvez a última também. Será difícil que ele faça um filme tão bom como esse de novo.

TZP arranca lágrimas até de quem nem conhecia o verbo chorar. Não deixe de assistir.