Carta à Sra. Secretária de Educação

Nota da pedra Lascada: A carta abaixo foi escrita por uma Professora (com P maiúsculo!) de nossa Rede de Ensino, em SBC. Recebi a missiva por e-mail, e por considerá-la de alta relevância, e pelo espírito sereno com que escreveu e pela coerência das ideias, sinto-me na obrigação de divulgá-la, para que mais profissionais possam debater e sentir-se inspirados nessa onda de debates que toma corpo em nosso município. Dito de outra forma: é possível vencer pela razão, utilizando-se da razão, sem ofensas. Acredito que suas palavras representam a preocupação da grande maioria dos educadores públicos de nosso município, e as questões levantadas carecem de soluções urgentes. Todavia, de toda a beleza desse movimento, só uma coisa me entristece: essa situação não é novidade em nossa rede, pois já acontecia em algumas escolas, porém, não recaía sobre as professoras, mas sobre os  auxiliares em educação. Foi preciso vivenciá-la para nos darmos conta da gravidade da situação. Mas isso não tira o mérito da questão, muito pelo contrário, pode nos servir para tomarmos consciência – e que essa consicência seja a possibilidade de derrubarmos os muros que eventualmente nos separam de nossos parceiros no ofício de educar. [M.S]

***

Sra. Secretária da Educação:

Escrevo esta mais como um desabafo de uma professora que faz parte desta rede de ensino a mais de 26 anos. Durante  o tempo transcorrido, tivemos muitos obstáculos nos caminhos, mas que nos levaram a grandes conquistas. Acredito que uma das maiores foi a inclusão das crianças de 0 a 3 anos no ensino básico.

Faço parte da equipe do módulo I desde 1999. Acompanhei, aliás muito de perto todas as mudanças. Em 1999, época em tínhamos como parceiros de sala de aula os monitores, ficou estabelecido que as turmas de 3 anos, não teriam direito a dois educadores ao mesmo tempo em sala de aula. Nesta época eu tinha uma turma de 3 anos. Entrava na sala de aula às 8hs, para acompanhar meus alunos que haviam chegado entre 7hs e 8hs e recebidos pelas professoras de 2 anos com seus respectivos monitores. Às 14 hs, deixava a turma com outra professora que fazia jornada suplementar de 16hs semanais, e ficava com eles até as 17hs, quando entregava as crianças para os monitores das turmas de 2 anos para aguardar a chegada dos pais.

Desde então tivemos um auxiliar em educação para cada turma, depois além de um para cada turma de 2 anos, havia mais um volante para acompanhar (se é que é possível, já que a rotina se dá ao mesmo tempo para diferentes turmas) nos momentos “críticos”, de cada turma. E finalmente, 2 auxiliares para cada turma. Um grande ganho com certeza para a educação com qualidade tão prestigiada de São Bernardo.

Se disser que fiquei triste com a nova mudança, estaria mentindo para mim mesma, já que também acompanhei todo o processo de transformação dos monitores em professores e a justa reivindicação dos auxiliares em educação, de auxiliar alguém e não de serem responsáveis por alunos sem o devido preparo para tal. Mas claro, como todos, fiquei apreensiva, porém, confiante, pois já havia passado por um momento onde o outro educador abria a porta da sala de aula para entrar e eu saia, sem que tivéssemos tempo de falar sobre nossos alunos. Hoje este tempo seria possível, uma vitória com certeza, se…

Infelizmente na prática do dia a dia não é bem assim que a coisa acontece.

Recebi os alunos sozinha, sendo que eles choram, como esperado para a época. Neste momento, confesso: não sabia o que fazer, pois não consegui elencar entre os fatos abaixo relacionados, as prioridades:
– Receber o aluno que chorava aconchegando-o em meu colo;
-dar atenção aos demais alunos presentes na sala, pois requerem minha presença e muitas vezes o meu colo;
-dar atenção para os pais que ao entregar em seus filhos aos meus cuidados, necessitavam me inteirar sobre os últimos acontecimentos, com relação a sua criança;
-recolher e guardar as mochilas dos alunos;
-receber o transportador que muitas vezes me trazia um recado dos familiares e até mesmo um medicamento, que necessita ser anotado e guardado em local apropriado, longe do alcance do alunos;
-socorrer uma criança que estivesse passando mal;
-levar os alunos que já estão deixando de usar fraldas ao banheiro;
-enfim poderia citar muitas outras situações em que sozinha é impossível atender e deixar de atender a tantas outras.

Quando chegava o auxiliar em educação era muito difícil definir a sensação que tinha, alegria, desespero, urgência em lhe passar fatos e informações, ansiedade, por um dia que se iniciou tão tumultuado e que com certeza demoraria para retomar a rotina tão importante para as crianças. Pois neste momento voltava à estaca zero e com muitas das urgências anteriores: levar crianças ao banheiro, trocar fraldas, acalentar e dar atenção merecida e necessária a todos do grupo…

Parágrafo este escrito no passado, pois hoje, na tentativa de sanar o problema temporariamente, foi permitido aos auxiliares em educação que acompanham este grupo, fazer horas extras. Temporariamente, porque a informação que temos é de que será permitido até o final de março. Com certeza, terei que escrever o parágrafo anterior no presente, pois até lá não há ilusão de que os alunos estarão totalmente adaptados e independentes, necessitando de pouquíssimo auxílio individual, que é o que poderei oferecer. Outra questão que me faço é: até quando eles vão conseguir fazer horas extras, sem prejuízo de seu bem estar físico, psicológico e emocional?

Ah, mas chega o outro professor às 10hs, quando na medida do possível os “incêndios foram apagados” (pois muitas e muitas vezes é assim que me sinto: apagando incêndios). Bom, é… conversamos com ele para contar e inteirá-lo sobre os fatos, os alunos, ou simplesmente o ignoramos e esperamos que ele se engaje na rotina? Infelizmente, geralmente é a segunda opção.
Ao menos o almoço é mais tranquilo, assim como o repouso, mas e depois que eu saio da sala? Fico me perguntando se as angústias são as mesmas, porque com certeza os acontecimentos são os mesmos.

Apenas uma situação corriqueira desta turma:

-Temos dois educadores na sala, acompanhando a turma, um sai para trocar fraldas, o outro fica com as demais crianças em um momento lúdico, ou de atividade pedagógica, vê que uma das crianças fez xixi e evacuou na roupa, já que ela não está mais usando fraldas há  uma semana. O que deve fazer esta educadora, atender a criança que necessita dela? Atender ao restante do grupo? Limpar o local, já que sair da sala para  pedir auxílio é impossível?

Me pergunto diariamente: e a qualidade ficou aonde?

Claro, sei que até o ano anterior quando eu saia da sala também ficavam apenas duas pessoas. Mas educadoras que haviam vivenciado toda a rotina juntas e que deixavam as crianças com fraldas trocadas para irem embora, com os agasalhos em local de fácil acesso e com atividades propostas onde estas pessoas poderiam, com mais tranquilidade do que hoje, encerrar a rotina do dia, em especial porque não ficava durante uma hora sozinha.

Outro fato de extrema importância que precisa ser ressaltado é o fato de que a faixa etária das crianças atendidas estendeu-se, em uma época do desenvolvimento infantil que meses fazem muita diferença. Ter na mesma sala de aula um aluno que fez 1 ano de vida em dezembro de 2010 e outro que fez 2 anos em janeiro de 2011, é de uma diferença assustadora para esta fase da vida, pois são 11 meses de diferença. Na mesma sala temos alunos que não andam, não se alimentam adequadamente com sólidos, não falam e outros que necessitam correr, pois andam com destreza, alimentam-se bem e falam com fluência. Parceiros experientes??? Um pouquinho demais para esta faixa de desenvolvimento e  uma ou duas pessoas interagindo com elas.

Muitas vezes olho para os meus alunos e penso o que diria a professora de seu neto Arthur, com 1 ano, que foi abraçado (e consequentemente derrubado, já que eles ainda não tem noção de sua força, mas querem cuidar do amigo) por um amigo de 2 anos. Será que foi falta de atenção da professora ou um momento de interação saudável entre crianças? Ou ainda porque é impossível atender a um grupo tão diverso e grande? O que diria ao ver o Arthur sentar-se sobre listas telefônicas que estão apoiadas na cadeira para que ele alcance a mesa para almoçar? Já que em um complexo escolar é impossível ter mobiliário diferente para atendimento de crianças com variação de idade entre 2 e 6 anos.
O que diria ao saber que seu neto Arthur, cortou-se com um estilhaço de um prato de vidro, por ele próprio usado ou que alguma criança “mais velha e experiente”, derrubou sem querer e o fez quebra-se?

Eu enquanto professora todos os dias faço uma oração para que os acidentes possíveis de acontecer se tornem impossíveis, pois seria muito difícil convencer os pais que estes tipos de acidentes acontecem, em especial com uma diferença tão grande de desenvolvimento e habilidades.

Enfim são tantos os desabafos, que teria que escrever inúmeros outros emails.

Não, não espero sensibilizá-la, espero apenas que retome os ganhos e os compare com as perdas para equipará-los e assim tornar novamente a educação do módulo I uma educação de qualidade.

Um forte abraço.

Professora Cleonice de Souza Mello
CMIEB Cícero Porfírio dos Santos/Gilberto Lazzuri

3 comentários em “Carta à Sra. Secretária de Educação”

  1. Acredito que a divulgação deste Desabafo…, pode e deve gerar muitos outros e por isso peço que deixem ele escrito, pois o vento leva as palavras embora mas a escrita deixa sempre grandes marcas e de diferentes maneiras.
    Já recebi alguns “desabafos …” e muito me entristece saber que os fatos que relato ocorrem em muitas de nossas unidade escolares. Cleonice

    1. Olá Cleonice!
      Gostaria de dizer-lhe que achei muito bom o seu e-mail enviado à Sra. Secretária Repulho, que o recebí via uma colega de trabalho que me enviou compartilho e concordo com tudo que vc expôs nele.
      Também sou professora da rede e já havia mandado um e-mail à Sra Repulho falando sobre alguns pontos que vc também falou e principalmente pela arbitrariedade que é o nosso horário de HTPC (módulo I).
      Gostaria de saber se vc recebeu resposta pelo seu e-mail pois a referida sra. acima garante que responde à todos, mas o meu até agora não foi respondido.
      Se puder, me envie o seu e-mail, pois gostaria de lhe enviar cópia do e-mail que enviei a ela e poderíamos trocar mais informações.
      No aguardo. sua colega de profissão, Elizete.

  2. Concordo que as palavras ditas o vento leva. Mas creio tb que as palavras ditas a quem as deve ouvir permanecem no âmago dessa pessoa e pode lhes corroer a consciência. Se isto nos serve de consolo, sinceramente a mim não serve,devemos dizer e registrar, mas não devemos deixar de proferi-las para que o Universo as retenha, modifique-as e as redistribua a todos.

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