A Administração Escolar Como Prática Pedagógica (2)

Considera-se, aqui, a educação como prática social coletiva, “especificamente humana” (FREIRE, 2000, p. 110), que abrange os processos formais e informais pelos quais “as novas gerações assimilam as experiências, os conhecimentos e os valores legados pelas gerações precedentes, [sendo] fenômeno inerente ao próprio homem e que o acompanha durante toda a sua história”. (PARO, 2003, p. 105). Segundo Freire, a educação, de natureza indissociavelmente política[1], é “uma forma de intervenção no mundo. Intervenção que além do conhecimento dos conteúdos bem ou mal ensinados e/ou aprendidos implica tanto o esforço de reprodução da ideologia dominante quanto o seu desmascaramento”. (FREIRE, 2000, p. 110)

De tudo o que foi dito até o momento, podemos aferir, com Gadotti (1993, p. 21), que a prática da educação, além de propagar determinadas visões de mundo e de ser humano, é “muito anterior ao pensamento pedagógico” e à escola.  No entanto, com a divisão social do trabalho, a escola – independentemente de suas características próprias em cada época e em cada formação social – passou a ser o locus privilegiado da educação (Cf. DOURADO, 2003, p. 79). É na escola que se concentram as práticas sistemáticas e organizadas de ensino e aprendizagem, ou seja, de apropriação planejada dos saberes e conhecimentos historicamente produzidos e acumulados pela humanidade.

A escola, inserida no contexto do modo de produção capitalista, “como qualquer instituição que integra determinado sistema hegemônico, (…) procura atender, em primeiro lugar, aos interesses da classe que detém a direção de tal sistema. A escola capitalista serve, pois, antes de mais nada, ao capitalismo” (PARO, 2003, p. 106). Essa “servidão” não se faz naturalmente, ela é produzida e mantida por processos concretos de organização e reprodução das relações sociais do modo de produção predominante. Tais processos se dão (principalmente, mas não somente) no âmbito da administração. Passemos, portanto, aos conceitos que aqui são adotados acerca da Administração e da Administração Escolar.

Administração, em seu sentido mais amplo e abstrato, diz respeito ao esforço humano coletivo no uso planejado e racional dos recursos disponíveis para a realização de determinados fins. Neste sentido, concordando com Paro (2003, p. 18), ela é atividade exclusivamente humana. Mais do que isso, “a atividade administrativa, enquanto utilização racional de recursos para a realização de fins, é condição necessária da vida humana, estando presente em todos os tipos de organização social”. (PARO, 2003, p. 123) É ainda com base no mesmo autor que contextualizamos o sentido de racionalidade aqui empregado:

“A palavra racional vem do latim ratio, que quer dizer razão. Assim, se se tem um fim em mente, utilizar racionalmente os recursos (utilizá-los de acordo com a razão) significa, por um lado, que tais recursos sejam adequados ao fim visado, por outro, que seu emprego se dê de forma econômica. (…) Adequação aos fins significa, primeiramente, que, dentre os meios disponíveis, há que se relacionar aqueles que mais se prestam à atividade ou atividades a serem desenvolvidas com vistas à realização de tais fins. [A dimensão econômica] se faz presente à medida que o alcance dos objetivos se concretize no menor tempo possível e com o dispêndio mínimo de recursos”. (PARO, 2003, pp. 19 e 20)

 Se a administração, em seu sentido geral, tem feito parte da história humana desde os seus primórdios, não podemos dizer o mesmo dos estudos e teorias nesta área do conhecimento humano. O norte-americano Frederick Winslow Taylor (1856-1915) é quem dá início, de forma sistemática e planejada, ao estudo formal da administração, lançando as bases do que passamos a conhecer por taylorismo, ou Escola da Administração Científica (MEIRELES & PAIXÃO, 2003, p. 77). Infelizmente, dada as peculiaridades do presente trabalho, não podemos nos estender pormenorizadamente nas contribuições deste autor para o desenvolvimento das teorias de administração e, em especial, ao desenvolvimento dos processos produtivos capitalistas. Importa-nos, no momento, ter em conta que seus estudos foram, em grande parte e inestimavelmente, responsáveis pela dicotomização entre concepção e execução, pela complexificação da divisão social do trabalho, com a parcelarização dos processos de produção e consequente desqualificação do trabalhador existentes no seio do modo de produção atual e reproduzidas, de certa forma, dentro do ambiente escolar.

De acordo com Paro, a “administração (…) adquire, na sociedade capitalista, como não podia deixar de ser, características próprias, advindas dessa situação de domínio”. (PARO, 2003, p. 45):

 “A coordenação do esforço humano coletivo, do modo como é realizada no processo de produção capitalista, com a divisão pormenorizada do trabalho e a imputação de atividades parceladas aos trabalhadores que atuam sob o comando do capital, tem como resultado o aproveitamento máximo da força de trabalho paga pelo proprietário dos meios de produção e a elevação da produtividade necessária à expansão constante do capital”. (PARO, 2003, p. 55)

Na sociedade capitalista, o controle de trabalho é realizado pela gerência – forma que assume o esforço humano coletivo (em suma, a administração) neste modo de produção. A gerência se faz necessária, sob o capitalismo, justamente porque aos trabalhadores não interessa a realização plena do processo de trabalho, uma vez que apenas uma ínfima parte de tudo que produzem lhes é retornada, afinal, no capitalismo,“ os que trabalham não lucram e os que lucram não trabalham” (MARX; ENGELS, 2000, p. 34). Além disso, enquanto controle do trabalho, a gerência se faz necessária devido ao fato de “ser o processo de produção capitalista, ao mesmo tempo, inevitavelmente, processo de valorização do capital e processo de exploração da força de trabalho”. (PARO, 2003, p. 61) Neste sentido, a separação entre trabalho manual e trabalho intelectual, entre concepção e execução cumpre, no modo de produção atualmente hegemônico, papel crucial para o controle dos processo de trabalho por parte da gerência. É dessa divisão que

 “a gerência capitalista extrai as forças necessárias ao controle da atividade produtiva do trabalhador. Ao arrebatar das mãos deste a função de concepção, ela pode determinar o método e o ritmo de trabalho mais adequados à eficiência capitalista, o que não seria possível se estes aspectos fossem concebidos pelo trabalhador para atender aos seus interesses”. (BRAVERMAN, 1980, p.104 Apud PARO, 2003, p. 64)


[1] Para que a educação não fosse uma forma política de intervenção no mundo era indispensável que o mundo em que ela se desse não fosse humano. Há uma incompatibildade total entre o mundo humano da fala, da percepção, da observação, da inteligibilidade, da comunicabilidade, da açãi, da busca, da escolha, da decisão, da ruptura, da ética e da possibilidade de sua transgressão e a neutralidade não importa de quê. (FREIRE, 2000, p. 125)

Referências Bibliográficas

DOURADO, Luiz Fernandes. A Escolha de Dirigentes Escolares: políticas e gestão da educação no Brasil. In_FERREIRA, Naura S. Carapeto (org.). Gestão Democrática da Educação: atuais tendências, novos desafios. – 4 ed. – São Paulo: Cortez, 2003. pp 77-96

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática pedagógica. – 15 ed. – São Paulo: Paz e Terra, 2000. – (Coleção Leitura)

GADOTTI, Moacir. História das Idéias Pedagógicas. – São Paulo: Ática, 1993. (Série educação)

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. In_MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Obras Escolhidas. – São Paulo: Alfa-Ômega, 2000a. pp 13-47

MEIRELES, Manuel; PAIXÃO, Marisa Regina. Teorias da Administração: clássicas e modernas. – São Paulo: Futura, 2003.

PARO, Vitor Henrique. Administração Escolar: introdução crítica. – 12 ed. – São Paulo: Cortez, 2003.

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