Indústria cultural e educação

Por Anderson Alves Esteves

 

“O pior que ele podia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá estava, pendurada no portal da janela, à direita, com os seus cinco olhos do diabo”*

     Machado de Assis denunciou, há cerca de um século, a palmatória usada para agredir as mãos dos estudantes; hoje, ela continua existindo, apenas mudou de alvo: ao invés das mãos, agride os cérebros – trata-se de, com o material didático apostilado ou modulado, avançar com o conteúdo em um ritmo fabril sem que se “perca tempo” pensando, sem que se filosofe em uma aula de Filosofia (!), trata-se de, em uma página, citar três, quatro filósofos[1] sem expor a argumentação de nenhum deles; o que importa é cumprir o programa, preencher o material didático, empreender a “utilização exaustiva”[2]. Lecionar, sob a indústria cultural e o monopólio das escolas e dos materiais didáticos é repetir, com crianças e jovens, o que a razão tecnológica fez aos adultos no trabalho e o que a indústria cultural faz a todos no tempo “livre”: basta ensinar o que, anteriormente, a televisão já lhes ensinou, a saber, submeter-se incondicionalmente à ordem administrada para receber, na maior quantidade possível, o que ela distribui – sob tal enquadramento, lecionar a autonomia e a crítica dos pensamentos de Kant e Hegel é ensinar a não ser autônomo e nem crítico, elaborar uma proposta pedagógica para a edificação da autonomia é pilhéria e não mais utopia. A invasão do “efeito de choque”[3] do cinema e da estética televisiva na escola expressa-se no material didático que, imitando-os, força a aula a jogar uma sucessão de imagens, palavras e exercícios sem que se disponibilize tempo à reflexão – trata-se de uma aula sem aura, de mais um exemplar do material didático para as massas tal como uma emissora de televisão oferta mais um capítulo de um seriado, uma vez que o docente apenas segue a vereda do que foi apostilado ou modulado sem poder trilhar outro caminho e o discente também tem a individualidade deficitária por ter o espírito guiado por outrem[4].  E para o discente a aprendizagem é fácil, uma vez que já vem de sua casa sem autonomia e sem crítica, já vem com um pensamento padronizado e treinado para não se verticalizar – a capitulação da instituição escolar ocorre ao repetir à exaustão tudo o que existe, ao subtrair o hic et nunc das aulas e integrá-las, na forma e no conteúdo, ao status quo. O próprio ritmo da aula e da escola deve seguir o ritmo da indústria cultural que (de)formou o seu público: nada de concentração e reflexão, basta ver algo aqui e ali no material didático que abriu mão do rigor filosófico-científico e adotou a comunicação desleixada e reacionária que curva-se perante o status quo, conforme Adorno analisou: “A expressão vaga permite àquele que a ouve representar-se aproximadamente o que lhe convém e que ele de todo modo já tem em mente”[5]. Os ouvidos moucos e a razão mutilada dos discentes que ouvem uma expressão do tipo “Platão é idealista” imaginam ter aprendido Platão, a despeito do professor saber não ter ensinado. O que importa é dar conta do material didático e todos os interesses devem ser anulados em nome do programa que não foi escolhido pelo docente ou pelos discentes – eis o rebaixamento dos átomos sociais em relação ao todo. Eis, com efeito, uma forma de controle social: o material didático se impõe e distribui informações cuja moeda de troca é reversível em notas àqueles que regulam-se pelo plano das coisas, resignam-se com ele (há uma mobilização, não importa se honesta ou não, das crianças e jovens para aquisição das notas tal como os adultos se mobilizam em trabalhar para o grande capital e consumir, posteriormente, algumas mercadorias); sem elas, a escola não sobrevive no mercado, os docentes não vendem força-de-trabalho, os discentes não ascendem ao próximo degrau do ensino seriado (não importando se aprenderam algo ou não) – a escola insiste em ensinar a lei da concorrência sob a era dos monopólios. Docentes e discentes, tomando as coisas como lhe são dadas, pretéritas, aceitas sem nenhum questionamento, veem que o importante é fazer segundo o postulado pelo plano, pela apostila – a coisa é o que importa, ela guia o docente e o discente na medida em que ambos estão submetidos à norma e à imanência dela, cujo resultado é a alienação e a coisificação. Os grilhões que os amarram são as próprias coisas que usam[6]. Em particular, ao docente cabe apenas o papel de tornar-se um professor-animador-de-torcida para convencer os discentes a executarem as tarefas; uma novidade teórica correspondente à educação monopolizada pelos materiais didáticos é a proposta de Perrenoud de atribuir ao professor o dever de  “criar outros tipos de situação de aprendizagem”[7], de tornar palatável a subserviência e a heteronomia. Para ser uma forma de controle social eficiente, o material didático também conta com docentes e discentes que produziram modos de pensar de acordo com ele, uma vez que escola heterônoma exige um público sem autonomia: não só a coisa, mas a consciência de quem a ocupa expressa e veicula a dominação por agir de acordo com as coisas aceitando-as racionalmente (racionalidade pré-formada, é verdade), autorizando a administração do todo sobre si mesma e abrindo mão da autonomia. De um lado, a racionalidade mutilada e coisificada que foi produzida no consumidor do material didático é reflexo deste; de outro, o consumidor veicula e perpetua o controle social ao reproduzir, perenemente, o formato e o conteúdo esvaziado do material didático mediante a servidão voluntária. A indústria de um modo geral, e a indústria educacional, de um modo particular,  ambas monopolizadas, retiraram da sociedade burguesa a iniciativa individual característica à era liberal: a era monopolista mina a autonomia e forma átomos sociais hetorônomos que veiculam a ordem estabelecida ao agirem como dentes das engrenagens dos grandes conglomerados monopolistas. Se o material didático usado para a construção do conhecimento e da autonomia produz ideologia e heteronomia, se aquilo que poderia ser instrumento de liberdade é o grilhão que acorrenta os átomos sociais, como estes poderão se emancipar?  


* ASSIS, Machado de. “Conto de escola” In: A cartomante e outros contos. São Paulo: Moderna, 2004, p. 30.

[1] Eis dois exemplos: 1) FÁTIMA, Maria Amorin de. Filosofia: ensino médio vol. 3. Belo Horizonte: Editora Educacional, 2010, p. 15. 2) ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia: módulo 1. São Paulo: Moderna, 2009, p. 4.

[2] FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete, Petrópolis: Vozes, 2002, 25° edição, p. 131.

[3] BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução” In: Os pensadores. Tradução de José Lino Grünnewald, São Paulo: Abril Cultural, 1975, p. 31.

[4] Ainda na edificação da sociedade liberal, Rousseau já argumentava, em 1761, que a educação conduzida por outrem prejudica a individualidade: “(…) Recebendo-as (as coisas) tais como nos são dadas é sempre sob uma forma que não é a nossa. Somos mais ricos do que pensamos mas, diz Montaigne, ‘ensinam-nos a pedir emprestado, de esmola’; ensinam-nos a nos servirmos antes do bem alheio do que do nosso, ou antes, acumulando sem cessar, não ousamos tocar em nada: somos como esses avarentos que só pensam em encher seus celeiros e, em meio à abundância, deixam-se morrer de fome”. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Júlia ou a nova Heloísa. Tradução de Fúlvia M. L. Moretto, São Paulo/Campinas: Hucitec/Unicamp, 1994, p. 66.

[5] ADORNO, Theodor. Minima Moralia: reflexões a partir da vida danificada. Tradução de Luiz Eduardo Bicca, São Paulo: Ática, 2° edição, 1993, aforismo 64, p. 88.

[6] MARCUSE, Herbert. “Sobre os fundamentos filosóficos do conceito de trabalho na ciência econômica” In: Cultura e Sociedade vol. I. Tradução de Wolfgang Leo Maar, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 43.

[7] PERRENOUD, Philippe. 10 novas competências para ensinar. Tradução de Patrícia Chittoni Ramos, Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000, p. 25.

***

Fonte: http://anderesteves.wordpress.com/

3 comentários em “Indústria cultural e educação”

  1. Não apenas apreciei muito o texto, mas trago duas contribuições:

    (1) aprender implica artesania, requer tempo, não é tarefa on board de apertar botões e obter resultados imediatos. Sendo assim, requer processo e esforço. Estamos em uma época em que o consumo/descarte formam um mundo no qual o próprio conhecimento passou a ser objeto de mercantilização.Há, portanto, uma incompatibilidade flagrante entre o consumir e o aprender, no sentido mercantilista do termo.

    (2) o mundo ocidental, de certo modo, deixou de perguntar-se à respeito das grandes Questões Sociais que provocavam a melhoria das condições da própria sociedade. Passamos a, infelizmente, tomar verdades acreditadas, que posam de paradigmas irretorquíveis, sem qualquer senso crítico. Com uma extrema competência, a liberdade, a política, a economia e a cultura passaram cada vez mais a ser colocadas em uma esfera na qual a participação do povo é infensa. Se não temos o homem pensante, temos o homem que troca sua identidade na voragem de um tempo pontilhista. Em tal quadro, o pensar nada mais é do que algo incomodo, uma vez que o mundo toma-se a si próprio como dado e construído. A desinteligência trata de acomodar o que de estranho reste, embora ainda restem bolsões de resistência.

    (3) Pensar com qualidade é demandante. Nem todos querem demandas e, sim, gratificações, De preferência instantaneas.

    Parabéns pelo texto. Con vido-o a visitar meu blog do besnos, bastando digitar tal endereço no google.

    Grande abraço,

    hILTON bESNOS

    1. Você então poderá encontrar outros textos de teor semelhante no sítio do meu amigo filósofo Anderson (Emancipação), cujo link se encontra na página principal do meu blog. Visitei seu blog e dei muita risada com o texto sobre o casamento. Grande abraço!

  2. Meus queridos amigos da Pedra Lascada! Ontem à noite publiquei o post acima no seguinte endereço: https://frontierfloating.wordpress.com/
    Esse é o endereço do meu blog besnos aprender +. Também estou franqueando que vocês publiquem, se interessar, o que quiserem, sendo preservados os créditos.

    Desculpem por demorar tanto, mas estava em reorganização do blog. Um grande abraço, grato pela confiança e vou procurar agora o blog emancipação, além de acrescentá-los na minha lista de blogs preferidos.

    Ah, sim, cada vez que postarem algo do besnos aprender +, por favor me avisem, para que eu fique feliz! Meu e-mail é bsn1956@hotmail.com e sou Hilton Besnos.

    Vamos conversar, grande abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s