Olhai os Lírios do Campo

Publicado em 1938, este é um dos livros cuja leitura, desde os quatorze anos, sempre retomo e nunca me canso, porque parece que sempre encontro algo que eu não tinha visto antes, e o que antes havia visto reveste-se de uma novidade possibilitada pelo olhar apurado no tempo (= eufemismo para envelhecimento do leitor), ou pelo distanciamento da história – esta sim nunca envelhece. Trata-se de um romance sem igual, com personagens de uma humanidade extrema, marcantes, e uma história de encher-nos ora de raiva, ora de comoção. Apesar da ideia de redenção, presentíssima na narrativa, vale cada minuto que passamos percorrendo as entranhas deste livro e mergulhando no mundo de Eugênio e Olívia, cujos caminhos se encontram e desencontram, conforme as opções que vão tomando a partir das realidades com que vão se defrontando. Penso que neste romance Érico Veríssimo contrapõe a ideia de culpa pela idéia de responsabilidade, que é a parcela que cada um carrega a todo momento da vida.

Uma “bofetada” em Ana Maria Braga

Difícil imaginar um jogador de futebol famoso que, mais do que driblar, fazer gols e correr atrás da bola (ou correr pra longe da bola!), esteja associado a algo que não seja aquela imagem que temos do cara que ganha a vida fácil fazendo o que sempre sonhou em fazer: ganhar muito dinheiro, viver no luxo e na farra – e tudo isso sem nem precisar ter terminado os estudos! Puxa, eu sei que parece preconceito meu… Digo mais: eu nem penso assim! Tenho certeza de que a grande maioria come o pão que o diabo amassou e que deus cuspiu, trabalhando duro sem receber o necessário para o sustento tranquilo, e ainda assim fazendo a alegria de torcedores e dos próprios colegas que, famosos, ganham milhões às suas custas.

 Abrindo um parêntesis: de futebol eu não entendo bulufas, nem mesmo compreendo como é que pra garantir o seu ganha-pão alguém seja obrigado a ter um empresário que detém o seu “passe”, que nada mais é do que o poder de decidir se o atleta joga neste ou naquele time – pra mim isto é mais do que escravidão, é uma relação de vassalagem e servidão que persiste em nossos tempos e é ainda mais retrógrada do que a relação burguesia-proletariado porque, além do cara não possuir o poder sobre os instrumentos do seu trabalho, não tem nem a liberdade de vender sua força de trabalho pra quem bem entende. Isso sem falar da insana onda de violência que envolve o futebol, esse moderno ópio do povo que movimenta bilhões e que, a cada campeonato, faz mais e mais vítimas – dentro e fora dos campos e estádios.

 Bem, voltando à questão inicial… Preconceito ou não, a verdade é que o inconsciente coletivo atribui à figura do jogador famoso uma “áurea” de vida fácil e frívola, do cara que fez fama e fortuna sem precisar rachar a cabeça com os estudos e com os vestibulares e que, por isso, tem licença poética para cantar “Ovriram do piranga as margi prácida” – o que, diga-se de passagem, comparado a mim que mal sei o Hino Nacional e não canto nem no banheiro, já é uma proeza e tanto! Se bem que a inteligência das pessoas não se mede por saber ou não cantar corretamente o Hino Nacional, mas é inegável e inestimável a coragem de cantá-la em público desses bravos que não temem não a justiça, mas a clava forte da ironia dos ímpios como eu, que aqui estou não a gracejar de seus equívocos, mas sim a considerá-los superiores àqueles que fingindo entoar o Hino, simplesmente balbuciam palavras desconexas ou sílabas incompletas.

 Sem mais delongas! O fato é que no imaginário popular a figura de jogadores famosos de futebol  associa-se a um monte de coisas (boas, não tão boas, ou ruins mesmo, dependendo do ponto-de-vista ou do conceito moral que cada um possui). O que passa longe da nossa mente é a imagem do jogador de futebol famoso culto, letrado, leitor assíduo de jornais e livros etc (como se isso fosse condição imprescindível para alguém ter inteligência ou sensibilidade para intepretar e compreender o mundo e as relações humanas!). A respeito disso, não conheço, por exemplo, o histórico do jogador Petkovic, ídolo do Flamengo – pra ser bem sincero, não conheço histórico de jogador ou time nenhum, porque se tem outra coisa que eu tambérm não entendo é como pode 22 caras ficarem brigando por uma só bola (como dizem, dá uma bola pra cada um que acaba a briga!). Acontece que Petkovic, em entrevista à Ana Maria Braga, em seu programa matutino (deliciosas receitas, o que estraga é a apresentadora!) mostrou que ser jogador famoso de futebol e ser inteligente não são duas coisas dissociadas: logo nos primeiros minutos da entrevista, Ana Maria pergunta à Petkovic, que é de origem sérvia, “como é ter nacido num país com tantas dificuldades”. A resposta, simples, direta e precisa: “QUANDO NASCI NÃO TINHA DIFICULDADE NENHUMA, ERA UM PAÍS MARAVILHA, A GENTE VIVIA NUM REGIME SOCIALISTA, NÉ, TODO MUNDO BEM, TODO MUNDO TRABALHANDO… TEM TRABALHO, SALÁRIO”… O mais irônico é que, acho que de tanta plástica e de tanta maquiagem pra lustrar aquela cara-de-pau, a apresentadora não moveu um músculo da face nem ficou vermelha pela gafe que cometeu – mudou de assunto como se nunca na vida tivesse levado essa bofetada de Petkovic. [M.S – texto originalmente publicado em 28 de fevereiro de 2010]

 Confira diretamente em: http://petkovic10.blogspot.com/2010/02/ana-maria-recebe-o-craque-de-futebol.html