À maneira de dizer

revolução francesa Falávamos da fome, da nossa fome, da nossa vontade de viver e ultrapassar limites, nos transpor e sobrepor tudo o que pensávamos ser, tudo o que odiávamos em nós; sim, porque nos odiávamos mais do que ao mundo. Nos fazíamos mal mais do que aos outros. E apenas nos alimentávamos de uma esperança ilusória (irrisória), uma ânsia de um porvir jamais realizado.

Quando amaldiçoávamos os acontecimentos que escapavam de nossas mãos, amaldiçoávamos, na verdade e sem saber, a nossa própria condição e insuficiência diante de tudo, a nossa incompreensão dos fatos, mas nunca a arrogância com que tentávamos seduzir e conquistar atenções, ou nossa pretensão ao nos considerar imprescindíveis à luta – ou ao que considerávamos luta.

O mundo agora não é o mesmo porque mudamos a cara e o endereço; insistimos em usar os trajes de combate, porém alteramos as estratégias: tomamos fôlego antes de gritar ou correr, nos preocupamos com as sobras que temos a perder.

Em que nos tornamos, afinal?

Os amigos… Cada qual foi para um canto e às vezes ouvimos vozes de um passado recente, ou menos recente.

Em que pensávamos quando projetávamos nosso corpo à frente de batalhas quixotescas?

Guardamos as impressões do que éramos e cultivamos imagens que nunca foram as nossas, mas não guardamos o que pensamos nem verdadeiramente o que sentimos.

Éramos o que poderíamos ser, somente. Chovia ou fazia sol estávamos lá, ou não estávamos. De qualquer maneira, não éramos coisas, nem objetos de uma análise distorcida por uma mente alienada. Não servíamos a ninguém a não ser as nossas ansiedades. Ou fugíamos dela tentando parecer úteis, cada um com seu motivo ou escape – jamais teremos certeza, nem de nós mesmos.

Primeiro, aprendemos a dissimular a dor e a alegria; depois, fragorosamente derrotados, aprendemos a dissimular as palavras, contorcê-las para desfigurar as intenções mais recônditas abrigadas em um labirinto indevassável.

Jamais fomos o que éramos. Estes que não somos, somos nós.

[M.S., 29 de novembro de 2007]

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