Testemunho da Morte de Marcelo Siqueira

“Herberto Helder escreveu um livro para me avisar que Marcelo morreu aos vinte e nove anos – desta vez e só desta vez – Não chorei Só lamentei ele ter morrido antes de ter lido e vivido a Idade da Razão” (…)[CENSURADO] (extraído de Vinicius Canhoto – Cadáver Esquisito

Não o interroguem em sua cama de madeira em seu confortável ou não ataúde de um metro e sessenta e cinco por dois palmos de largura que será descido a sete palmos da superfície e sobre o solo serão acrescidas algumas violetas e por que não uma orquídea rara ou comum de qualquer cor escolhida aleatoriamente conforme a disponibilidade do mercado e a disponibilidade do bolso Não indaguem ao corpo a inútil questão que permanecerá agora e para sempre e até na hora de nossa morte amém impassivelmente sem resposta Não supliquem aos céus qualquer alívio para a profunda dor nem roguem lenitivos artificiais laboratoriais medicinais ou mesmo ilegais Não o aguardem em sonho pois o profeta foi soterrado com a crise da idade prematuramente avançada seu vício e sua linguagem o corromperam até os ossos e pouco deixou ao verme que primeiro corroeu as entranhas do velho bruxo

Há qualquer coisa de sereno em seu rosto eu vejo não não há a serenidade está estampada sim mas no olhar de quem a atribui à matéria sem vida que um dia foi esse que a morte o apossou antes mesmo que a súbita passagem e o último suspiro Eu o vi há poucos dias fone nos ouvidos chamei-o mas ele não pode escutar atravessou a avenida e em seu semblante não se notava nenhum vestígio da fatalidade apenas a seriedade ou a dissimulação inexplicável que a vida lhe imprimiu Não espere de mim um sorriso a todo instante escutei de seus lábios recitando uma poeta andreense como se fosse ela mesma silabando em seus ouvidos entonação por entonação quando então ele completou não sei de dele mesmo que a proximidade da morte amplia o sentido da vida Todavia não perguntem a inevitável pergunta que assombra os mortos de sobrecasaca os mortos de drummond e o próprio drummond antes que pudessem se fazer tais porque após as palavras cessaram em sua boca quanto mais as razões

Não peçam ao seu biógrafo particular e não autorizado explicações quando insistente e irritantemente proferir sua sentença maior e prestidigitadora marcelo morreu todos choraram menos eu porque todos os crimes deixam de existir no exato instante póstumo em que são cometidos permanecendo apenas seus efeitos suas causas perdem o motivo de ser tão logo se executem Eu o vi em suas duas em suas quatro horas diárias rascunhando cartas que jamais seriam digitadas lendo os mesmos livros com a impaciência de quem resolve passatempos com a impaciência de quem aguarda o tempo passar com a impaciência de quem pragueja contra o tempo que passa e a vida que se esvai quanto mais se vive e a vida que se esvai quanto menos se deseja viver Mas marcelo morreu o culpado não fui eu mas marcelo morreu e todos choraram menos eu repete aquele que descobriu que escrever sobre si mesmo é matar-se a contagotas assim como fez kafka não com a carta ao seu pai mas com todas as suas outras e quanto mais se lê mais suicídio comete e jamais se saberá quem foi kafka canhoto molière joyce ou todos os veríssimos e quem mais quer que sejamos talvez a consciência desse fato fez com que márquez não relesse suas histórias buendía compulsivo refizesse os pingentes e a louca costurasse anos a fio a mortalha de seu pai que era verdadeiramente a mortalha de si mesma enquanto à essa época e em outros tempos marx desencravava os furúnculos de suas nádegas socialistas ao som da nona sinfonia

Agora irmãos vamos dar as mãos não não dêem porque a morte é um elemento de coesão somente nestes míseros momentos o que se verá e ouvirá pelas costas além das piadas é a maldição ao frio ou ao calor excessivos ou à chuva inconveniente ou ao cheiro de clorofórmio ou ao cheiro das flores em coroa que se impregnarão por dias e dias em nossas narinas menos da de marcelo que morreu aos vinte e nove anos de idade e todos calam todos calam todos calam e só Eu canto Eu lembro quando ele chegou tão jovem para nossa idade avançada e no entanto um pouco que seja nos rejuvenesceu com seus velhos sonhos lembramos da metamorfose que o transformou não num bicho mas num animal vago e sonolento lembro da luta interior que ele narrava como uma saga indescritível de suas derrotas insaciáveis agora ei-lo aí sem eira nem beira porém com o destino mais certo do que os nossos incertos fados que temos a cumprir mais certo do que os incertos fardos que temos a carregar e passar adiante

Não não o finjam com o seu caro terno de linho jamais comprado porque esse aí de paletó e gravata camisa e sapato combinando esse aí não é ele senão outro qualquer que nunca será tal como o fora é uma afronta tanto ao que foi como ao que pensávamos e desejávamos ser o herói de antes e o idiota de sempre não o finjam deixem-no verdadeiro e sem afetações pelo menos em sua última hora conosco porque em verdade em verdade vos dizemos ele está nu ao nosso lado como qualquer cadáver esquisito vestido da cabeça aos pés como uma criança sem malícia apenas nos contempla indiferente a nossa indiferença porque marcelo morreu aos vinte e nove anos e todos dormem todos dormem todos dormem menos eu Aos trinta e dois anos ou antes ou depois eu o matei com o amor com que ele se alimentou eu o afoguei numa piscina de sonhos no prato que ele comeu e depois cuspiu esferográficas tantas e nenhuma para mim marcelo morreu e todos choraram ninguém jamais o conhecerá menos eu

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[M.S., em 14 de novembro de 2007 – 21 de janeiro de 2010]

***

Nota da Pedra Lascada (Agora sim, com o trigésimo quarto ano novo começando): As partes em itálico foram retiradas do poema “Cadáver Esquisito”, de Vinicius Canhoto. A intenção era publicar aqui o poema em referência, uma vez que este (poema?) é, de certa forma, também uma resposta – um tanto quanto zombeteira, admito – ao “Cadáver Esquisito” de Canhoto, em que uma das personagens (indevidamente) levava meu nome; todavia, por motivos de força maior, consideramos imprópria a sua publicação, até mesmo porque, como ressalta Canhoto, não se trata de mim, mas de uma geração que – acrescento – teve seu fim simbólico com o (quem dera também tivesse sido apenas simbólico) falecimento de nosso camarada e sempre amigo Adilson Fornazier (diga-se de passagem, um dos últimos comunistas no PCdoB). Agradeço muito, sem ironias, às sinceras contribuições de Canhoto, cujos benevolentes comentários (“ruim”, “aqui você erra a mão”, “nossa, melhora isso!”, “eita, drummondismo!” e “eita, final melodramático!”) iluminaram a minha cabeça de antanho. Sinto muito por não ter feito as alterações sugeridas – e não as fiz não porque discordasse, mas porque estão longe da minha capacidade no momento, afinal, o escritor é ele e não eu. Quanto ao título, em que pese a fatal sentença proferida por Canhoto de que do jeito que está, com nome e sobrenome, não passa de um “narcisismo barato”, como última palavra de réu julgado e condenado, apoiado em Saramago, segundo o qual “somos, cada vez mais, os defeitos que temos, não as qualidades”, declaro-me absolutamente culpado, porque este (poema?) não trata de uma geração, é autobiográfico mesmo, embora algumas pessoas vão encontrar suas vozes e seus pensamentos nele. Enfim, este é o meu Mateus, eu que o embale.

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