A Balada do Café Triste

Por Vinicius Canhoto, do blog “Inferno Riscado a Giz”.

Sentava-se à mesa um homem só, de aspecto triste, nesses cafés de estilo inglês que existem na cidade. De cabeça baixa, silenciosamente, no rosto fechado, o olhar melancólico penetrava na caneca de café, como se essa caneca lhe mostrasse algo além da escuridão líquida do café.

O líquido, por sua vez, não lhe mostrou nada mais além de seu próprio reflexo. Vejo em teus olhos que estás novamente triste, disse-lhe o café. Ele preferiu não responder e tomou outro gole que desceu queimando, mas sem gosto. Devagar, advertiu o café, que eu não sou coca-cola. O homem respirou fundo e voltou a olhar o interior da caneca e o líquido negro lhe disse, Vejo na tua face que esquecera de ter cuidado contigo mesmo. Ele, como alguém que teve a atenção chamada, passou a mão na bochecha percebendo que há vários dias não fazia a barba, que seu cabelo precisava ser cortado, que a camisa estava amarrotada e o sorriso ausente. Calma, homem, disse-lhe o café, Não vá levantar e reclamar de mim ao dono do estabelecimento e este vir a tomar conhecimento que está a perder um freguês por conta de um café metido a sincero, estou apenas a dizer aquilo que vejo. Ele, desconfortável, cobriu o rosto com as mãos. Não esconda o rosto, e, também, não se incomode com aquilo que um pouco de café venha a lhe dizer. O homem tirou as mãos do rosto e fitou incógnito o conteúdo da caneca que lhe pediu. Só não vá embora antes de tomar-me de todo e abandonar-me como um café frio. Neste momento, em que o líquido negro lhe disse Abandonar-me como um café frio, ele sentiu um ar gelado por todo o corpo e um calafrio. No entanto, o café o compreendeu, Vejo na tua expressão que hoje acordaste mais triste que o de costume, nesta manhã em preto e branco com gosto de pão amanhecido.

Ele aquiesceu. O café, compartido, prosseguiu, Nunca precisara, como numa música que toca aqui, de tanto carinho, força e cuidado. Quando a angústia senta-se ao seu lado, quando esta é a única companheira e tendes de ser forte, como noutra canção, a dor de cada amanhecer, a esperar por alguém que nunca vem. Alguém.  Há mesmo alguém, perguntou o café. O homem confirmou com a cabeça. O líquido negro gabou-se da própria sabedoria, Sabia. Quando vi a tristeza em teus olhos e o açúcar que faltaste a adoçar-me, percebi que era abandono.

A palavra abandono o levou às recordações de quando havia alguém, uma mulher a olhá-lo profundamente nos olhos. Estava descontrolada, mas relutava para manter o controle, aparentando-se forte, impaciente, insensível e cruel, media-o como fosse uma peça de vestuário numa vitrine. Ele, não sabendo como reagir nessa ocasião, jamais se preparara, viu-se imóvel à espera do fim. Olhando o relógio, aparentemente nervoso, vendo que todo o encanto se ausentava ao encontro, ao observar os olhos dela que surgiam num misto de medo, piedade, compaixão e renúncia. Ela tentou usar algumas palavras como consolo. Inútil. No íntimo, estava convicta de que era estúpido tentar. Assim, ela entoava a voz cuidadosamente para que suas palavras não o ferissem mais que o necessário. Enquanto as palavras dela entravam nos ouvidos dele, ferindo-o em seu ser, ele teve vontade de chorar, mas estava seco por dentro. Mais tarde, entrou em casa sozinho com o amargo gosto de derrota. Não fechou a porta. Ao entrar, percebeu que não havia a quem falar ou saudar a chegada, estava só, entre móveis velhos, peças de decoração e paredes. Esquecera as chaves em algum lugar, mas antes que se apercebesse disso o vento bateu a porta. A janela estava aberta, esquecida. Sem fome, foi à cozinha e abriu a geladeira. Era um gesto mecânico, sem reflexão, tal qual a TV ligada no caminho percorrido entre a sala e a cozinha. Talvez o barulho da TV fosse para substituir uma voz, uma companhia, e a geladeira, quem sabe, um outro prato na mesa. O silêncio lhe era insuportável. Desistiu. Não tinha fome. Voltou à sala e desligou a TV. Foi ao quarto e deitou-se. No escuro os pensamentos, angústias e lembranças ficavam-lhe mais claros. A luz apagada permitia-lhe ver melhor e mais nítidos rostos e situações, propiciava-lhe ver-se melhor. Dormiu um pouco, acordou assustado, havia sonhado com ela. Quis telefonar, não teve coragem. Esperou o telefone tocar. Caminhou quilômetros pela sala, permaneceu jogado no sofá por horas mirando o aparelho. Por fim, ouviu o estridente som, correu para atender, mas era engano. Meia hora depois ligou para ela, mas quem atendeu foi a secretária eletrônica. Sufocado pelo próprio respirar, ele não quis ou não teve coragem de deixar recado. Jamais se vira com tanto medo, uma sensação de solidão naquele momento. A casa vazia e desarrumada, a gaiola que prendia um passarinho estava aberta e desocupada, o pequeno aquário vazio, as samambaias já se foram junto com os peixes, tudo estava deserto. Os livros, discos e as lembranças, tudo continuava no seu lugar, com um pouco de poeira e abandono. Olhou a porta da geladeira. A lista de dieta ainda estava lá, como aquela foto do verão. Pouco parece ter mudado, mas dentro de tudo mesmo, sabe-se que nada permanece da mesma forma.

Esta é tua história, perguntou o café um momento antes de sentir que uma gota fria e salgada caía inesperadamente dentro de si levando-o a censurá-lo, Não chore, homem. O líquido negro, não se contendo, perguntou àquele que chorava, Não aprendeste que homem não chora.

Enfim, ele ergueu o olhar para o teto, como se quisesse esconder as lágrimas. Secou-as com as palmas das mãos e voltou a fitar o café, Não me olhe assim, prosseguiu o líquido, como se quisesse pedir desculpas. A mim não fizeste mal algum, tua lágrima não me esfriou e nem alterou o meu sabor. Bem sei, aquilo que viveste não foi fácil, não foi um filme, foi fato, não foi tecnicolor, foi real. Entendo quando respiras um vazio por dentro e em seu interior pairam incertezas, perguntas sem respostas, lembranças desordenadas. Quando os fatos não se encaixam e as explicações não se explicam, tudo te parece tão complicado e contraditório. Não é. Ele concordou com muito pesar e uma dúvida, Ela parecia tão forte, tão decidida. Será que tinha certeza do que estava fazendo, E você, perguntou o café, Sabia o que estava fazendo. Ele fixou os olhos no líquido negro e sem dar importância a pergunta continuou, Ela sempre teve o gênio difícil, sempre fora assim, querendo que a razão sobrepujasse a emoção, ao sentimento. O café disse-lhe então, Você fala de razão e emoção como se falasse de água e óleo. Vamos, homem. Deixe de ser amargo, me adoce, que a razão é o café e a emoção é o açúcar. Ele, sem pensar mais, apanhou maquinalmente a colher e o açúcar, enquanto adoçava o líquido da caneca, disse mais para si mesmo do que para o café, Começo a crer que pra ela tudo foi em vão, Ou não, disse-lhe o líquido em tom de provocação. A dúvida cafecaniana o fez calar, respirar fundo e falar, Saio de casa sem um beijo, sem um conselho, sem uma recomendação para chegar cedo ou me cuidar. Sei que ao voltar, não vou ouvir um Olá, um Como vai ou um Já chegou. Tenho a certeza de que posso perder a hora, as chaves, a aliança, qualquer coisa, que ninguém dará falta. Eu posso até perder a mim mesmo que ninguém daria por falta. E o café lhe disse, Tens demasiada pena de si próprio. O homem corou e calou-se de vergonha. Do líquido negro, de repente, escapou um comentário que não se soube se era uma interrogação ou exclamação, Oxalá, um amor que deveria ter durado anos.

Porém, antes que o homem tomasse satisfação do café, uma fragrância de perfume conhecido invadiu-lhe as narinas. Ele se arrepiou, tremeu, O que foi, perguntou-lhe o líquido negro, Parece que viste um fantasma. Ele não respondeu. Veio-lhe a cabeça uma série de imagens fugazes, de sons rápidos e passados, resgatados das mais profundas reminiscências por aquele cheiro. Ele, ansioso, gelado e aflito, olhando para todos os lados, a procurá-la, buscando-a.

Uma mulher ia em direção à saída, mas não era o rosto configurado nas recordações. Era uma desconhecida, saindo sem saber que em seu olor havia algo que este homem, sentado a tomar café, não queria olvidar e que, entretanto, cortou-lhe o ar e o peito na transversal.

Nunca bebemos o mesmo café, lamentou o homem ao ver que a mulher que ia e não era. Entretanto, o café manteve-se frio e calado até ouvir daquele homem um outro lamento, desta vez em tom de indagação, Meu Deus, se realmente existes, por que me deixas assim. Neste momento, o líquido negro, sem lamento algum, também indagou, Haverá alguém a olhar por nós. O homem, sem saber a resposta, calou e tomou o último gole que restava de café.

– – –

Nota da Pedra Lascada: Conheço este conto há anos, quando canhoto era apenas um adjetivo que designava a predominância do autor, então adolescente, no uso das mãos e dos pés esquerdos. Já o critiquei pela referência explícita a certas canções, mas sinceramente me parece que algumas referências ou foram excluídas ou dissolvidas no corpo do conto que, revisitado “séculos” depois, me parece mais “clean”, mais interessante. Curiosamente, embora tenha recordado algumas falas, e reconhecido outras referências, confesso que não lembrava que era o café (representante direto da consciência – superego? – do protagonista) que falava. Dos contos de Canhoto, tenho outros que prefiro, como o próprio Inferno Riscado a Giz, e outros que exconjuro (e ele sabe muito bem o por quê), e “A Balada do Café Triste” não está entre os meus favoritos, mas tem seus encantos sustentados em um certo ar autobiográfico, meio retrô, meio revival. Aliás, por influência das leituras/ revisões dos contos de Canhoto acabei chegando a uam conclusão, que traduziu-se em aforisma (válida para este conto e para o canhoto escritor Canhoto: “Só quem conhece as leituras, não as agruras, do poeta, é que pode entender-lhe”. [M.S]

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