“Tapanacara”

Nota da Pedra Lascada: Abaixo, mais um texto publicado (em 13 de março de 2010) no quase falecido Utili Dulci. 

Por Marcelo Siqueira

Num momento revival, estava remexendo numas pastas suspensas de um velho arquivo aqui de casa. Primeiro, fiquei pensando como e porque eu juntei tanto papel assim, que nem sei se teve, tem ou terá utilidade algum dia: são recortes de jornais, notícias do mundo, de economia, cultura, artigos, papéis velhos e tantas tralhas que juntas não dão um Real lá no ferro-velho; rascunhos de cartas, contos e outros gêneros literários que tive pelo menos paciência para (porcamente) começar, pouca sapiência para continuar e coragem nenhuma para dar um fim digno a elas: a queima total e absoluta, ou o afogamento dos papéis, após picotá-los todinhos, na esperança de bater uma disposição para fazer aquele processo todo da recilagem artesanal do papel – a bem da verdade, nunca tive entusiasmo suficiente para passar dessa primeira fase e, por isso, a emenda saía sempre muitíssimo pior do que o soneto – quero dizer, no final das contas me sobrava aquela massa de celulose mal-cheirosa e que eu tinha de dar um fim antes que o povo aqui de casa desse um fim em meu amado couro lombar.
 
Que não me leiam tais confissões os arautos da preservação ambiental – já os posso ver apontando seus dedos indicadores para mim e dizendo, nervosos e com certa razão: “Até tu, Brutus”?. De qualquer forma, em minha defesa tenho a dizer que tudo isso foi muito educativo, pois aprendi que não se deve tentar reciclar folhas de jornais juntamente com folhas de sulfite brancas, ainda que usadas, pois o efeito sempre será uma massa cinzenta de má qualidade cuja utilidade, quando muito, seria apenas para fazer aquelas bolas de papel molhado (verdadeiros rebocos de celulose) das quais os adolescentes, por misteriosos motivos alheios à nossa compreensão, costumam enfeitar os tetos dos banheiros (e não raramente das salas de aula!) das escolas. Sábios são os feirantes que inventaram um bom uso para os jornais usados (lidos e não lidos)!
 
Voltando às pastas suspensas… Encontrei em uma delas uns raros exemplares de um jornal – o “Tapanacara” – que fazíamos à época da faculdade, acho que a partir de 2001. Bem dizendo, não era realmente um jornal, era mais um boletim, frente e verso de folha A4, com textos de opiniões próprias a respeito de assuntos internos da Fundação Santo André e do movimento estudantil (em resumo: provocações). Este boletim tinha como lema “O jornal daquele que quer deixar de ser gabiru” – uma referência tanto ao personagem e ao livro do cartunista Edgar Vasques (“O Gênio Gabiru”), como também a nosso talvez malicioso entendimento do termo “gabiru”.
 
Não tínhamos nem ilusão nem pretensão de que o “Tapanacara” sobrevivesse por muito tempo; se meus cálculos não estão equivocados (o que costumeiramente acontece), em dois ou três anos lançamos seis edições, entre as quais algumas, por assim dizer, bastardas porque não reconhecidas plenamente – enigma este que nem nós entendemos, porque nunca foram anônimas. As edições não passavam de cem exemplares e, por incrível que pareça, se esgotavam rapidamente (de início até pensávamos que havia alguma relação com o conteúdo, mas hoje em dia desconfio que esse rápido esgotamento pudesse ter alguma associação com a crônica falta de papéis higiênicos nos banheiros da faculdade).
 
Brincadeiras à parte, o fato é que mesmo irrisória na quantidade, a primeira edição nos trouxe, na prática, alguns aprendizados que já possuíamos à luz da teoria; esses aprendizados foram explicitados no editorial da quinta edição, que dizia: “Quando lançamos a primeira edição do Tapanacara, quase apanhamos. é isso mesmo, e não se trata de metáfora. O Jornal desagradou a gregos e troianos, a deuses, semideuses e sentinelas. Isso nos trouxe algumas lições: a primeira é que pensar dói (inclusive fisicamente); a segunda é que pensar incomoda, pois, concordando com Paulo Freire, é uma ação que tem sua reação; a terceira é de que estávamos no caminho correto, uma vez que conseguimos desequilibrar ao menos subjetivamente alguns de nossos amados leitores, que, assim, não permaneceram indiferentes à leitura” (…).
 
Para não dizerem que sou viciado em um parêntesis, vou dizer: abrindo um travessão… e fazendo um paralelo com determinadas situações ocorridas atualmente na política brasileira, e por Marx ter sustentado que a história nunca se repete, e quando isso acontece é como farsa ou como tragédia, eu fico aqui na dúvida se prefiro que essa história que parece se repetir em outro contexto e em outra época seja farsa ou seja tragédia… De fato, espero que se cumpra apenas a primeira sentença dessa tese de Marx e que seja tão-somente um escrasso equívoco conceitual meu fazer esse tipo de paralelo entre situações tão díspares e estar a insinuar que é uma história que se repete.
 
Nada a ver, mas é que encontro semelhanças em tantas coisas aparentemente desiguais!… Por exemplo, na primeira edição do Tapanacara lançamos o esboço do que deveria vir a ser as “Teses do Povo Gabiru”, as quais jamais foram concluídas (para manter a tradição). Na quinta edição, dois anos depois, reafirmamos a atualidade dessas “Teses”. Agora, vejam bem, passaram-se 09 anos e continuo pensando que, em alguns círculos, algumas labaredas das “Teses do Povo Gabiru” continuam ardendo intensamente. Veja você, e depois me diga se tem algum sentido essas elocubrações todas ou se é a minha miopia que atingiu o meu córtex cerebral:
 
Teses do Povo Gabiru
 
Atributos de ser Gabiru:
 
1) Ao tornar-se Gabiru a sua única responsabilidade perante a sociedade é manter-se vivo.
2) Não se envolver com nada verdadeiramente sério [no âmbito da ação política].
3) Não assumir qualquer espécie de responsabilidade [política].
4) Negar-se veemente a qualquer reflexão ou questionamento.
5) Negar-se acima de tudo a qualquer tipo de ação e, quando agir, agir somente sob efeito de uma manipulação.
 
Vantagens de ser Gabiru:
 
1) Você não terá responsabilidade alguma [sobre as consequências das decisões tomadas].
2) Você não precisará pensar porque já tem alguém pensando por você.
3) Você não precisará agir (a menos que seja em caso de manipulação) porque já tem alguém agindo por você.
4) Você poderá confiar nos mais sórdidos canalhas e ter todas as ilusões sobre as suas boas intenções.
 
Desvantagens de ser Gabiru:
 
1) Você não terá pensamentos próprios.
2) Você será condicionado à vontade dos outros.
3) Você não irá compreender porquê a sua realidade é esta.
4) Você apenas irá reclamar como todos os outros Gabirus e não mudará nada.
 
 
***
Em tempo: li estes dias no jornal que o governador do Distrito Federal, preso acusado de corrupção e um dos protagonistas do mensalão do DEM, recebeu orações de uma senhora e ganhou livro de auto-ajuda de um senhor, ambas as ações como manifestação de apoio de quem diz acreditar que ele esteja realmente sendo vítima de um complô…
 
Ainda em tempo: essas Teses precisam ser revisadas…. Agora vou dormir que to com sono!

2 comentários em ““Tapanacara””

  1. Destas teses eu não me lembrava, essa coisa de estudar alemão com Alzheimer talvez tenha me feito olvidar alguns tapas que andamos desferindo por aí. Sim, aquelas teses provocativas ainda mantém a sua atualidade e seu vigor, o que me faz acreditar cada vez menos no processo evolutivo e educativo já que o que o povão quer mesmo é ser gabirú.

    1. Como dizem, meu amigo, a ignorância é a mãe da felicidade. Eu queria ser burro ao extremo, mas felizmente também não sou nenhum gênio, muitíssimo longe disso – e é ter a noção da minha “gonorânça” que me faz ter uns lapsos de alegria… Mas o pior de tudo neste mundo são os canalhas, esses sempre se dão bem, em todos os sentidos!

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