No fim, tudo dá certo…

… Se não deu certo, é porque ainda não chegou ao fim!

De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro!

Com estas palavras de Fernando Sabino, desejo a você um ano novo com muita paz, saúde e solidariedade!

A bruxa

Nota da Pedra Lascada: O continho a seguir foi escrito em 2007. Encontrei-o perdido entre alguns papéis que estavam a ponto de serem jogados fora. Fiz algumas pequenas alterações, para deixá-lo menos pior. Segue o que foi possível de ser feito – ao som de “Cabeça Dinossauro”, do Titãs. (M.S.)

–  –  –

Na noite do dia em que plantara baratas supondo que renasceriam, saí para o meio da rua e olhei em direção ao grande prédio verde-água no alto do morro – era a escola em que eu estudaria. As janelas crepitavam em brasa ardente e uma longa e estridente risada ecoou de seu interior.

Meus olhos não entendiam o que estavam vendo e a mente parecia aprisionada em um estupor. Desejei me mover de um salto só para calçada, da calçada para o quintal, do quintal para dentro de casa, de dentro de casa para debaixo do cobertor, que era o lugar mais seguro desde que eu cobrisse bem meus pés para que nenhuma assombração apertasse os meus dedos; mas, antes que eu pudesse levar a cabo o natural instinto de fuga, ela veio do céu como uma rajada de relâmpago, montada em sua vassoura de crina de cavalo e madeira de lei retorcida; deu um rodopio e seus cabelos de lava vulcânica quase tocaram o solo; o ar ao redor ficou mais seco do que a minha garganta e os meus lábios imobilizados.

Parou à minha frente, suspensa; como que montada no próprio diabo, apontou para a escola com o indicador esquerdo curvo e a destra domando as rédeas do louco animal inanimado que cheirava a amoníaco e qualquer outra substância desconhecida. Fitou meus olhos com suas pupilas totalmente esbranquiçadas, como a ler meus pensamentos, a roubar minha alma ou, ainda pior,  subtrair-me a paixão pela vida que me sairia mais cara e cujo débito jamais pagaria.

Senti o chão se abrir sob os meus pés e comecei a cair num profundo abismo de gélidas e espessas trevas. À medida que caía, a velocidade se tornava vertiginosa e o ar me golpeava duramente, como se as gotículas de chuva repentinamente principiada fossem minúsculas e afiadíssimas lâminas que retalhavam invisivelmente o meu corpo.

Girando em queda livre, percebi que ela vinha me perseguindo – não a via, mas distinguia claramente em um ponto ainda distante o brilho lânguido de suas mechas vulcânicas que transformavam em vapor as gotas de água e, assim, iam desenhando um luminoso efêmero caminho em espiral.

Em poucos instantes, senti cada vez mais perto o seu hálito selvagem, e não sei como também tinha a certeza de que mais próximo ainda estava o fim da queda.

Foi então que vi um chão de um concreto selado com piche crescendo em minha direção. Meu coração batia como se fosse romper o peito, mas os ossos o oprimiam e essa sensação fazia com que eu sentisse falta de ar.

“A hora!… A hora!” – uma voz longínqua num estranho idioma anunciava o momento derradeiro. O chão estava a segundos de minha face e unhas afiadas eram cravadas em meu ombro, que ardia a cada toque.

Tentei dar um grito, mas não consegui; no súbito instante abri os olhos e senti que Mimi Rousseau, concupiscente, acariciava meus cabelos atrás da nuca, enquanto dizia: “Oh, my little boy, you had a nightmare. It’s time to wake… It’s time to wake”…

Resíduo

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
– vazio – de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil…
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver… de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

                                 [Carlos Drummond de Andrade]

O inglório começo da Colônia Gorki (1/6)

Por Anton Semiónovitch Makarenko

A seis quilômetros de Poltava, pelas encostas de colinas arenosas, estende-se uma floresta de pinhos de uns duzentos hectares, e bordejando a floresta corre a estrada para Khárkov, pavimentada de pedras limpinhas, de brilho monótono.

Na floresta há uma clareira de uns quarenta hectares. Num dos seus cantos foram colocadas cinco estruturas em forma de caixote de tijolos, geometricamente certos, compondo todos juntos um quadrado perfeito. Isto é que é a nova colônia para infratores da lei.

O pátio arenoso desce para se fundir com uma ampla clareira na floresta, até os juncos de uma lagoa, em cuja margem oposta se vêem as cercas e as casinhas de uma quinta de kulács. Ao longe, no horizonte, delineiam-se no céu os contornos de um renque de velhas bétulas, mais uns dois ou três telhados de palha. E só.

Antes da Revolução existia aqui uma colônia de menores delinqüentes. Em 1917 ela se dispersou, deixando atrás de si bem poucos vestígios pedagógicos. A julgar por esses vestígios, preservados em surrados livros-diários, os diretores pedagógicos da colônia eram velhos militares, ao que parece oficiais de baixa patente reformados, cujas obrigações consistiam em vigiar todos os passos de cada um dos seus educandos, tanto no trabalho como nas horas de recreio, e à noite dormir no aposento contíguo. Pelos relatos dos camponeses vizinhos podia-se deduzir que a pedagogia desses “tios” se limitava a um instrumento da simplicidade de um porrete.

Os vestígios materiais da antiga colônia eram ainda mais insignificantes. Os vizinhos mais próximos da colônia retiraram e levaram embora, para os seus próprios galpões, barracões e locais de armazenagem, tudo o que podia ter qualquer valor material: oficinas, despensas, mobília. Entre outros valores, levaram até um pomar inteiro. Entretanto, em toda essa história, não havia nada que lembrasse vandalismo. O pomar não foi derrubado, mas erradicado e replantado mais adiante, as vidraças das casas não foram quebradas mas cuidadosamente retiradas, as portas não foram arrancadas a furiosos golpes de machado, mas ordeiramente retiradas dos gonzos, as estufas foram desmontadas tijolo por tijolo. Somente o grande armário, o bufê da antiga residência do diretor, permaneceu no lugar.

― Por que deixaram o bufê? ― perguntei a um vizinho, Luká Semiónovich, que viera da quinta para olhar os novos donos.

― É que, sabe, pode-se dizer que esse tal de bufê não tem serventia para a nossa gente. Nem dá pra desmontar, o senhor mesmo pode ver. E nas nossas casas, ele nem ia passar pela porta, por causa da altura dele e da largura também…

Pelos cantos dos barracões havia toda sorte de tralha amontoada, mas objetos úteis de fato não havia. Seguindo certos sinais mais recentes, foi-me possível recuperar algumas coisas d evalor, surrupiadas nos últimos dias. Eram elas: uma vetusta semeadeira, oito bancadas de marceneiro cambaias, um cavalo capado, ex-garanhão quirguiz, de trinta anos de idade e um sino de bronze.

O constrangedor “Cândido”, de Voltaire

Já afirmei, em algum momento, que “Viver para Contar”, de Gabriel García Márquez, foi o primeiro livro que eu tive peso na consciência ao ler, por motivos de foro íntimo que obviamente não publicarei nem sob ameaça da fogueira da Santa (diabólica) Inquisição, ou da nefasta polícia política de José Serra, o Zé Alagão. Já o “Cândido”, de Voltaire, foi responsável por alguns dos episódios mais constrangedores que experimentei ao ler um livro.

À época, andava muito de ônibus e sempre carregava comigo nem que fosse bula de remédio para passar o tempo entre a longa espera dos coletivos e o prolongado tempo da viagem porque, como sabemos, via de regra o trânsito vive congestionado e, além de enlatados e espremidos como sardinhas, vamos menos que à velocidade das galinhas.
 
Ocorreu-me que, numa dessas viagens, coletivo lotado e “Cândido” à mão, e já advertido por um amigo de que seria uma leitura muito interessante, passei às vias de fato. Logo nas primeiras páginas, tive um incontrolável acesso de riso. Esforçava-me por manter senão a etiqueta, ao menos a compostura, mas era inútil tapar a boca, posto que os olhos lacrimejavam de tanto que eu ria, a ponto de as pessoas voltarem-se para mim e cochicharem algo entre elas.
 
Fato semelhante a este, mas menos intenso, se deu certa feita em que eu lia um conto de Carlos Drummond de Andrade, também num ônibus, e carregava material escolar de um guri (quem lê Drummond, conhece a veia irônica e humorística deste autor, e  o conto era justamente acerca de uma situação supostamente vivenciada por ele, em um bonde, ao se oferecer para carregar o material de um escolar).
 
Não sei se hoje eu leria com os mesmos olhos e com a mesma predisposição para a “risotonia aguda gargalhal”* (até porque a ocasião é diferente), ou se outras pessoas teriam reação parecida, mas recomendo sempre este livro, claro! Na apresentação do livro, Nelson Jahr Garcia nós dá bons motivos para ler “Cândido”. Veja:
 

     “Cândido” é uma das obras mais conhecidas de Voltaire.
     O texto contrapõe ingenuidade e esperteza, desprendimento e ganância, caridade e egoísmo, delicadeza e violência, amor e ódio. Tudo isso mesclado com discussões filosóficas sobre causas e efeitos, razão suficiente, ética.
     Como sempre Voltaire expõe suas concepções com fina ironia, sem abandonar o sarcasmo de quando em vez. O romance, em todos e cada um dos seus parágrafos, caracteriza-se como uma sátira às idéias de Leibnitz.
     Leibnitz afirmara, pelo menos assim entendeu Voltaire, que o mundo é o melhor possível, que Deus não poderia ter construído outro e que tudo corria às mil maravilhas.
     Voltaire não podia partilhar dessa mesma visão otimista, suas idéias tinham resultado em prisões e perseguições a tal ponto que, por volta de 1753, já não podia fixar-se, sem risco, em lugar algum da Europa.
     Cândido foi expulso de onde morava, foi preso e torturado, perdeu sua amada, seus melhores amigos; em todos os casos com requintes de crueldade. Mas a cada um desses fatos, meditava sobre como explicar o melhor dos mundos possíveis, sempre com deboche mais ou menos sutil.
     Como é peculiar a todos os seus trabalhos,o filósofo também criticou acidamente os costumes, a cultura, as artes.
     Sobre as relações entre sexos, uma passagem merece ser mencionada:

     “Um dia, em que passeava nas proximidades do castelo, pelo pequeno bosque a que chamavam parque, Cunegundes viu entre as moitas o doutor Pangloss que estava dando uma lição de física experimental à camareira de sua mãe, moreninha muito bonita e dócil. Como a senhorita Cunegundes tivesse grande inclinação para as ciências, observou, sem respirar, as repetidas experiências de que foi testemunha; viu com toda a clareza a razão suficiente do doutor, os efeitos e as causas, e regressou toda agitada e pensativa, cheia do desejo de se tornar sábia, e pensando que bem poderia ela ser a razão suficiente do jovem Cândido, o qual também podia ser a sua.”

     Nem mesmo as falcatruas das manufaturas européias ficaram esquecidas:

     “…levou-o para casa, limpou-o, deu-lhe pão e cerveja, presenteou-o com dois florins, e até quis ensinar-lhe a trabalhar na sua manufatura de tecidos da Pérsia fabricados na Holanda.”

     Sugestiva é a menção sobre a recompensa divina para o mal menor:

     “Tínhamos um imame muito devoto e compassivo, que lhes pregou um belo sermão, persuadindo-os a que não nos matassem.
     — Cortai – disse ele – apenas uma nádega a cada uma dessas damas, e com isso vos regalareis. Se for necessário mais, tereis outro tanto daqui a alguns dias. Deus recompensará tão caridosa ação, e sereis socorridos.”

     Não faltou a referência à relação entre exploradores e explorados, e à hipocrisia dos poderosos.

     “Já estiveste então no Paraguai? – indagou Cândido.
     — É verdade. Servi de fâmulo no colégio de Assunção, e conheço o governo dos Padres como conheço as ruas de Cádiz. É uma coisa admirável esse governo. O reino já tem mais de trezentas léguas de diâmetro; é dividido em trinta províncias. Os padres ali têm tudo, e o povo nada; é a obra prima da razão e da justiça. Quanto a mim, não conheço nada mais divino do que os Padres, que aqui fazem guerra ao rei de Espanha e ao rei de Portugal, e que na Europa confessam esses reis; que aqui matam espanhóis e em Madrid os mandam para o céu: isto me encanta.”

     E com que graça se refere à simplicidade da riqueza e do luxo:

     “Entraram numa casa muito simples, pois a porta era apenas de prata e as salas modestamente revestidas de ouro, mas tudo trabalhado com tanto gosto que nada ficavam a dever aos mais ricos lambris. A antecâmara, na verdade, era incrustada somente de esmeraldas e rubis; mas a harmonia do conjunto compensava de sobra essa extrema simplicidade.”

     O respeitabilíssimo Homero não escapou das farpas:

     “Cândido, ao ver um Homero magnificamente encadernado, elogiou o ilustríssimo quanto ao seu bom gosto.
     — Eis – disse ele – um livro que fazia as delícias do grande Pangloss, o maior filósofo da Alemanha.
     — Pois não faz as minhas – disse friamente Pococurante. – Fizeram-me acreditar outrora que eu sentia prazer em lê-lo; mas essa repetição contínua de combates que todos se assemelham, esses deuses que agem sempre para nada fazer de decisivo, essa Helena que é o motivo da guerra e que mal entra na peça; essa Tróia que cercam e não tomam, tudo isso me causava um mortal aborrecimento. Perguntei a eruditos se eles se aborreciam tanto quanto eu nessa leitura. Os que eram sinceros confessaram-me que o livro lhes tombava das mãos, mas que sempre era preciso tê-lo na biblioteca, como um monumento da Antigüidade, é como essas moedas enferrujadas que não podem circular.”

     Foi nesse romance que Voltaire escreveu uma de suas mais célebres frases. Após ouvir uma breve dissertação sobre o perigo das grandezas, que todos os acontecimentos estavam devidamente encadeados no melhor dos mundos possíveis, que todo o sofrimento de Cândido acabara por reverter em benefícios, Cândido, candidamente, respondeu:

     “— Tudo isso está bem dito… mas devemos cultivar nosso jardim.”

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* Peguei esta expressão (“risotonia aguda gargalhal”) emprestada de um conto chamado “O Servidor Público”, de Pita Neiva, que coincidentemente encontrei agora pouco na internet. É curtinho, mas bem elaborado. Leia você mesmo: http://66.228.120.252/contossurreais/1488832  
 
P.s: entra no sítio Dominio Público e faz o download do “Cândido”.
 
P.s. de novo: sobre o otimismo, leia também o interessante artigo “Esse Nosso Cérebro Otimista”, de autoria do Professor Roberto Lent, em http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/bilhoes-de-neuronios/este-nosso-cerebro-otimista

Memórias de uma assembleia às avessas

Nota da Pedra Lascada: O texto a seguir foi originalmente publicado no blog Utile Dulci, que já não existe e, por acidente, migrou para o WordPress com o nome de Salamargo, que em breve será desativado também. Em razão destas mudanças, postarei alguns textos do antigo blog aqui no Pedra Lascada.

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15 de abril de 2010. Assembléia dos servidores municipais de São Bernardo do Campo no Paço Municipal. O circo estava armado. Depois de um período de chuviscos e friagens, o tempo resolveu firmar. A noite estava amena, mas o clima era tenso.

O resultado do encontro já estava dado, sabíamos de antemão, devido à manobra da prefeitura – realizada com o consentimento da diretoria do Sindserv – que se traduziu no desrespeito à Convenção 98 sobre o direito de sindicalização e de negociação coletiva, de 1949, “que estipula proteção contra todo ato de discriminação que reduza a liberdade sindical, proteção das organizações de trabalhadores e de empregadores contra atos de ingerência de umas nas outras, e medidas de promoção da negociação coletiva”[i].

Na assembléia do dia 1º de abril (aquela em que a diretoria do Sindserv colocou em votação se permitia ou não que os trabalhadores presentes tivessem direito à voz – os associados do sindicato, que da noite para o dia tiveram aumentos em suas mensalidades em até mais de 500%!) – os trabalhadores haviam rejeitado a contraproposta da prefeitura que, para esta, realizou uma estratégia típica da administração anterior: convocou, em horário de serviço, os trabalhadores celetistas da limpeza para apresentar suas propostas de reajustes salariais, que supostamente visariam à diminuição da diferença entre os salários dos celetistas e dos estatutários e a progressiva equiparação salarial entre ambos[ii]. “Reunião para esclarecimentos” – informaram.

Entretanto, segundo disseram alguns destes funcionários, foi mais do que isso: teriam afirmado, na reunião, que a prefeitura não tinha condições de dar aumento para todos, que por isso pretendiam fazer justiça aos mais necessitados, que os demais trabalhadores já recebiam bem, e que os auxiliares de limpeza precisavam ir para a assembléia para aprovar a proposta da prefeitura, porque se não houvesse a aprovação do reajuste tal como a prefeitura se propunha, não haveria reajuste algum neste ano.

Não é necessário conhecer as teses de Marx sobre o lúmpen-proletariado para deduzir que esta afirmação, por si só, teria um efeito avassalador nas mentes dos colegas auxiliares de limpeza celetistas – trabalhadores que recebem o salário mais baixo da categoria, que em geral possuem uma sobrecarga de serviço, desempenhando funções que vão além de suas atribuições específicas e sem os equipamentos de segurança completos: faltam luvas, botas, sapatos, uniformes.

No dia 14, tivemos uma assembléia dos profissionais da educação na sede do sindicato. Além das questões pertinentes àquela reunião, o coletivo presente manifestou sua preocupação com os movimentos da prefeitura para a assembléia do dia seguinte; questionou a diretoria do Sindserv sobre as ações para impedir a continuidade daquela manipulação – e a diretoria reconheceu que havia sido informada pessoalmente pelo representante da prefeitura sobre estas reuniões, mas nada fez para impedir, nem mesmo se manifestou contrário em relação a ter sido dito, pelos representantes da prefeitura na reunião, que se falava também em nome do sindicato.

Havíamos ponderado, então, a necessidade de a diretoria apresentar uma proposta que atendesse as reivindicações dos colegas auxiliares de limpeza e que mantivesse a possibilidade das demais categorias em lutar pelo reajuste salarial, afinal, o papel do sindicato é defender o coletivo dos trabalhadores, e não uma parcela deste em detrimento das demais. Até porque mais 10 anos de sucessivas perdas salariais é muito tempo.

Sabíamos que estávamos dando murros em pontas de facas, porque além de não realizar seu papel de dialogar com a categoria e além de não mobilizar os trabalhadores para a campanha salarial, melhor dizendo, além de praticamente não realizar campanha salarial, a própria diretoria do Sindserv, desde o princípio, defendia a proposta da prefeitura – o que ficou mais do que evidente no jornal lançado pela diretoria apresentando não as suas propostas, mas sim as propostas da prefeitura[iii] (!), sem qualquer comparativo para que os trabalhadores pudessem compreender o que significaria, em seus bolsos, a equiparação salarial, o reajuste para todos etc; sem denunciar que aumento por progressão funcional é direito dos trabalhadores e não é reajuste de perdas salariais, muito pelo contrário, nos moldes impostos pela prefeitura acarreta inclusive o achatamento progressivo do poder aquisitivo dos trabalhadores; e a diretoria do Sindserv se omitiu também em denunciar que, entre os cargos apresentados como beneficiários do aumento através da progressão salarial, há cargos em vacância, isto é, os profissionais nem existem!

Enquanto o grosso dos trabalhadores não compareceu à assembléia (alguns por não ter conhecimento desta, e a maioria – acredito – por conta de suas/nossas justificadas descrenças e desconfianças com relação à diretoria do Sindserv), os trabalhadores auxiliares de limpeza atenderam ao chamado da prefeitura, foram para a assembléia para aprovar na íntegra o que não poderia sequer ser colocado novamente em votação, posto que rejeitada na assembléia anterior. A diretoria do sindicato sabia disso, e mesmo assim conduziu o picadeiro com a maestria de um clown e a farsa de um ilusionista.

Os ânimos estavam acirrados. Após uma breve explanação do histórico de uma campanha salarial anódina, a diretoria do Sindserv, ao invés de explicar que não poderia colocar em votação uma proposta anteriormente rejeitada, e ao invés de apresentar novas propostas de encaminhamentos para a campanha salarial, simplesmente propôs que subissem no caminhão de som uma pessoa a favor e outra contra a votação da proposta da prefeitura.

A colega auxiliar de limpeza, que se posicionou a favor de novamente votar a proposta da prefeitura, foi bem aplaudida: falou, e com razão, do salário de fome que recebem, das dificuldades financeiras que passam, dos aluguéis caros, e acrescentou que os demais funcionários públicos tiveram sua vez, e agora era a vez dos auxiliares de limpeza receberem a sua parte.

O colega que falou em seguida tentou explicar que ninguém era contra o aumento para os auxiliares de limpeza, que a equiparação salarial traria maiores ganhos para a categoria, que também os demais servidores necessitam de reajuste. Tentou apenas, porque o que se viu foi uma massa de trabalhadores vaiando, xingando, virando as costas, gritando para que parasse de falar e saísse.

Cenas tristes propiciadas pela manobra da prefeitura com o consentimento da diretoria do Sindserv: trabalhador contra trabalhador, como se o inimigo não fossem as más condições de trabalho, os salários defasados e de fome, incompatíveis com as responsabilidades dos cargos, os assédios morais, os maus administradores que, governo após governo e gestão sindical após gestão sindical, perpetuam isso tudo, fomentando a divisão e a rixa entre os trabalhadores.

Em sua fala, outro auxiliar de limpeza alegou que era o troco que estavam dando por conta do tratamento que recebiam de diretores, PADs, coordenadores e de professores, nas escolas em que atuam. Pensei na escola em que trabalho, no quanto procuramos estabelecer uma relação democrática, de respeito e de confiança entre todos, independentemente de cargo e função exercida.

Tenho consciência que múltiplas são as concepções e, portanto, igualmente múltiplas são as relações estabelecidas, mas ao longo dos onze anos de magistério público municipal, conheci tantos bons profissionais, seres humanos com tamanha sensibilidade e comprometimento, que só pude interpretar esta fala como a generalização de situações pontuais.

Após um colega professor ser literalmente empurrado escada abaixo por um membro da diretoria do Sindserv, que o impediu que exercesse o direito à voz, outro colega – oficial administrativo – conseguiu usar o microfone. Também sob vaias e xingamentos de pessoas que nem o conhecem, retomou a proposta alternativa, buscando o consenso e a unidade dos trabalhadores e que, em meu entendimento, deveria justamente ter sido apresentada e defendida pela diretoria do Sindserv: que a assembléia fosse favorável à imediata reivindicação dos auxiliares de limpeza e que se mantivesse a luta dos demais servidores pelos seus reajustes salariais, uma proposta não excluindo a outra. Caberia à diretoria do Sindserv explicar que isso era possível, mas não o fez.

Neste momento, percebi que um auxiliar de limpeza que conheço puxava o coro das vaias e incentivava que virassem as costas, então me dirigi até ele, argumentando que não precisava fazer este tipo de coisa, que bastasse votar no que entendesse por certo, que o colega que falava naquele momento merecia tanto respeito quanto o respeito que eles reivindicam. Enquanto conversávamos, outro colega auxiliar de limpeza, sem me conhecer – e por não me conhecer – viu-me como o inimigo de classe, o que estaria contra o aumento salarial dele, e partiu para cima de mim, exaltado e com os punhos cerrados; o colega auxiliar de limpeza que me conhece colocou-se na minha frente, impedindo a passagem do outro e acalmando-o.

Impossível dialogar naquele momento. Era o resultado daquilo (que decepção!…) que uma pessoa resumiu como sendo “informação e contra-informação” – o que, entendo, dá no mesmo que a famosa expressão política de que “os fins justificam os meios”, afinal, se a reunião teria sido com o intuito de esclarecer, por que os demais funcionários públicos não foram convocados para os esclarecimentos?

Pouco depois, o colega auxiliar que puxava o coro veio se justificar: eles não poderiam deixar ninguém falar, porque temiam ser convencidos de que não era preciso votar a proposta na íntegra para defender o aumento para eles, porque na reunião teriam dito: ou aprova agora, ou não tem aumento nenhum.

A diretoria do Sindserv, além de não apresentar e não defender a proposta de unidade, simplesmente a ignorou e conduziu a assembléia como se esta não tivesse sido apresentada, colocando em votação novamente: quem é a favor e quem é contra a proposta da prefeitura? Obviamente, os auxiliares de limpeza, em grande maioria, votaram a favor – e ninguém há de negar que suas reivindicações eram também necessárias, a despeito da forma com que foram impelidos a participarem da assembléia. Alguns servidores votaram contra e o restante nem votou, porque percebeu a manobra realizada.

As fissuras foram expostas e acentuadas. O desencanto dos que estavam na assembléia somou-se ao desencanto dos que não compareceram, dos que já não acreditam na possibilidade de mudança, não acreditam no sindicato como organismo representativo de seus interesses e de seus direitos. Ainda naquela noite, ouvíamos a corrente fala, reproduzida ao longo da semana por colegas que não compareceram: “amanhã mesmo eu me desfilio”, “o sindicato está vendido”, “não adianta lutar, porque no final das contas eles lá do sindicato fazem o que querem”…

Como conseqüência das desilusões, nos retraímos no nosso cotidiano, evitamos participar coletiva e ativamente, evitamos nos posicionar publicamente, sem perceber que a recusa em nos posicionar já é uma forma de posicionamento, que a não-participação é a forma mais poderosa de manipulação a qual nos sujeitamos, porque  é justamente a recusa em participar que possibilita a “venda” do sindicato, o “vacilo” da diretoria, a continuidade do desprezo para com as necessidades dos trabalhadores, para com as nossas necessidades e os nossos direitos. Por outro lado, muitos acabam buscando outras formas de participação, através de associações que segregam ainda mais o funcionalismo, ou da ação individual, que pode até ser louvável, mas geralmente mostra-se infrutífera.

Se “eles lá do sindicato fazem o que querem”, é porque nós continuamos aqui e não estamos lá para impedir, para dizer como tem de ser feito, para garantir que seja feito… É porque – temos de reconhecer – com a nossa recusa em participar não nos fazemos representar e nem nos dispomos a representar também.

Pessoalmente, me incluo no grupo dos que se afastaram da participação no Sindserv por conta do desencanto com as sucessivas e truculentas diretorias, mas, não acreditando que a resposta estava na criação e na participação em associações segregacionistas, mantive minha participação em nível individual, sem me desfiliar do Sindserv, ao qual sou associado há 11 anos, porque continuo entendendo que o sindicato, além do reconhecimento legal propiciado pelas Convenções da OIT, ainda é a entidade que tem potencial para unir o coletivo dos trabalhadores.

Por experiência, estou convencido que somente a unidade e a participação coletiva podem garantir maiores e efetivas conquistas. Se nos afastamos, ou se participamos isoladamente, ou ainda sem nos posicionar claramente, tanto uma coisa como outra interessa a quem continua lá defendendo os seus interesses particulares, ou os interesses de seus grupos contra os interesses coletivos dos trabalhadores.

Para quem ainda acredita que a solução está na ação individual ou na participação em associações representantes de apenas uma categoria, é preciso saber que são os sindicatos os organismos legalmente reconhecidos para compor mesas de negociações junto aos empregadores, são os sindicatos que, por força da Lei podem realizar paralisações, greves e assinar os acordos coletivos de trabalho.

Começa a tomar corpo a discussão sobre o Estatuto do Magistério. A administração já deixou claro como pretende encaminhar esta discussão, cujos procedimentos infelizmente não se diferenciam muito da administração anterior: envio de propostas por e-mails, participação individual em assembléias aos sábados, fora do horário de serviço – como se o Estatuto do Magistério dissesse respeito apenas aos interesses profissionais individuais e nada tivesse que ver com as políticas públicas de educação, que interessam tanto ao coletivo dos trabalhadores em educação como também aos munícipes em geral.

A Comissão de Educação, ampliada em Assembleia do Sindserv no dia 14 de abril, e a qual passei a integrar, defende uma proposta muito mais ampla, que possibilite o diálogo entre os vários segmentos atuantes nas escolas e nos demais espaços educativos e a construção do ESTATUTO DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO, que contemple as especificidades do quadro do magistério, e reconheça e valorize de fato os trabalhadores da educação como educadores, garantindo-se direito à formação continuada e às progressões funcionais. Esta é uma proposta que requer ampla participação coletiva e discussão democrática.

Individualmente, só temos a perder. Neste sentido, não há espaços vazios. Se não ocupamos os espaços de participação, se não fazemos uso dos instrumentos que podemos ter à disposição para o bem coletivo, outras pessoas ocupam estes espaços e fazem uso destes instrumentos, e às vezes em benefício próprio.

A desfiliação do Sindserv, a não participação e a participação isolada reforçam o poder dos que fingem nos representar. É preciso dar um basta nisso! Somente a união dos servidores públicos é capaz de mudar os rumos dessa história. Por isso, após a assembléia do dia 15 de abril, passei a integrar juntamente com vários colegas servidores pertencentes aos mais amplos setores do serviço público, a OPOSIÇÃO SINDICAL ALTERNATIVA DEMOCRÁTICA, cuja coerência entre discurso e ação marca a sua atuação ao longo destes anos. Convido a todas (os) a participarem também desse processo de mudança. Se todos são iguais, como costumamos dizer, façamos nós a diferença!

 

Marcelo Siqueira


[i] Confira pessoalmente no sítio da Organização Internacional do Trabalho (OIT): http://www.oitbrasil.org.br/libsind_negcol.php

 

[ii] Será mesmo que a proposta da prefeitura visava à progressiva equiparação salarial entre auxiliares de limpeza celetistas e estatutários? O Boletim da Oposição Sindical Alternativa Democrática revela aquilo que a diretoria do Sindserv se recusou a esclarecer; veja:

 

Entenda o que mudou Estatutário Celestista
Salário atual R$883,00 R$609,00
Salário com a proposta da administração R$989,00 R$703,00

 

A diferença, que era de R$274,00, passou a ser de R$286,00. Portanto, aumentou!!! É esta a progressiva equiparação salarial que se pretende??? Isso sem contar as diferenças de benefícios (biênios, licenças-prêmios, PTS, licença para acompanhar filho ao médico etc).

 

[iii] Você sabia que no Jornal que o  Sindserv lançou apresentando as propostas da Prefeitura haviam informações erradas a respeito da revisão salarial de mais de 40 cargos? E sabia que, diferente do publicado, Orientador Pedagógico não estava contemplado na proposta de aumento por progressão funcional?! É isso mesmo que você está pensando: além de fazer de tudo para ser aprovada a proposta da administração, a diretoria do Sindserv induziu os trabalhadores ao erro. Confira pessoalmente no sítio do Sindserv: http://www.sindservsbc.org.br/. (por que o Sindserv não disponibiliza em seu sítio o ESTATUTO DA ENTIDADE???)

O Brasil que lincha primeiro e pergunta depois

Por Leonardo Sakamoto*

“Se a gente fez, ele deve. Alguma coisa ele deve.”

Causa vem antes de efeito. Então, porque a frase acima, que inverte essa lógica, parece ter sido construída como abominável naturalidade?

Cirso Fernandes Guilherme foi espancado até a morte e teve a casa incendiada e o bar destruído por um grupo de, pelo menos 20 pessoas, após ser acusado de ter sido o responsável pela morte de uma adolescente de 14 anos em Marília, interior de São Paulo, nesta semana. Contudo, os exames preliminares mostram que a jovem não sofreu violência, poderia ter morrido por outro motivo. Ou seja, o único assassinato comprovado até agora foi da turba contra um homem, pelo visto, inocente.

Cirso não teve direito à defesa ou à recurso. Foi julgado e executado pela irracionalidade coletiva. Para muita gente, esse tipo de decisão sumária é linda, seja feita pelas mãos da população, seja pelas do próprio Estado, ao caçar traficantes em morros cariocas ou na periferia da capital paulista. Se com o devido processo legal, inocentes amargam anos de cadeia devido a erros, imagine sem ele. Ainda bem que o país não tem pena de morte. Imagine os casos de pessoas que receberiam injeções letais para depois, ops, descobrir que foram executadas por engano. Até onde eu saiba, não dá para ressuscitar o sujeito e pedir desculpas, como agora.

A frase acima, dita por uma mulher que participou do linchamento, é perturbadora. O morto é culpado porque nós o punimos. Caso contrário, porque o puniríamos? A turba acredita que não precisa saber a razão de matar, pois ele, certamente, soube o motivo de estar morrendo.

Se não foi este pecado, talvez outro? Não era bom marido? Mau pagador de impostos? Trapaceava nas cartas? Vendia bebidas vencidas ou não lavava os copos com decência? As porções servidas no bar não eram dignas? Era avarento, invejoso, preguiçoso? Lançava-se à luxúria? Torcia para o time errado? Dava “bom dia” de dentes cerrados? – ah, os dentes cerrados… Entregava-se à bebida? Não ia à missa todos os domingos? Era econômico nos elogios?

De vez em quando não sei de quem tenho mais medo: dos bandidos, dos “mocinhos” ou de nós mesmos.

–  –  –

*http://blogdosakamoto.uol.com.br/

Suzana Herculano-Houzel: “Sou ateia e sinto-me discriminada.”

Nota da Pedra Lascada: Recentemente, um pseudo-apresentador de pseudo-jornalismo do mundo cão, cujo nome não vou nem citar para não dar mais audiência para o nefasto, utilizou uns cinquenta minutos de horário televisivo para destilar seu preconceito religioso e instigar o ódio contra as pessoas que não crêem na existência de deus; na ocasião, associou toda a sorte de mazela do mundo e de criminalidade ao ateísmo, numa manifestação de discriminação e de intolerância. Por conta disso, uma série de ações estão sendo realizadas, inclusive por parte do Ministério Público Federal, para punir o  ato ilícito desse senhor raivoso e obrigar a emissora, além de veicular peças educativas sobre a liberdade de crença e de pensamento, ceder tempo televisivo para os devidos direitos de respostas (acompanhe o desenvolvimento desse caso em: http://bulevoador.haaan.com/). No bojo dessa discussão, encontrei um interessante artigo da neurocientista Suzana Herculano-Houzel (http://www.suzanaherculanohouzel.com), que segue compartilhado logo abaixo (M.S.):

“Pouco importa o que Dilma e Serra de fato pensam sobre aborto. Em campanha, eles dirão o que o povo brasileiro deseja ouvir – e não os culpo nem um pouco por isso. Se o que o povo deseja ouvir é que o (a) futuro (a) chefe de nosso Estado teoricamente laico é temente a Deus e aos valores das religiões católica e evangélica, assim será. Por quê? Porque, no nosso país, ser ateu é feio. Ateus não são confiáveis. Ateus não podem ser chefes de Estado nem devem confessar em cadeia nacional sua não-crença, como minha mãe bem me advertiu lá no começo da minha carreira de declarações públicas (“Olha o Fernando Henrique, até ele passou a falar em Deus!”).

Segui o conselho de minha mãe por dez anos, resignada e crendo que, de fato, pouco deveria importar para os outros se eu pessoalmente acreditava ou não em Deus ou seguia alguma religião em particular. Mas agora, irritada ao ver os jornais e as campanhas políticas dominadas pelo discurso religioso, resolvi que não me calo mais: sou ateia, sinto-me discriminada por causa de minha crença na não-existência de um Deus (nem de vários), e agora vou fazer ativamente campanha em prol do respeito à não-crença.

Crenças são produto do cérebro: modelos internos que criamos para explicar acontecimentos sistemáticos, não importa se baseados em evidências ou não, dentro dos quais nossos valores e experiências de vida se encaixam, e que nos ajudam não só a explicar eventos quanto a predizê-los, o que por sua vez ajuda a orientar nossas ações. Pessoas diferentes creem na bondade dos homens (ou na sua maldade intrínseca), na pureza das crianças, em guardar dinheiro na poupança, creem no governo, em educar-se muito e sempre ou em fazer o bem ao próximo.

A crença em Deus, em particular, resolve muitas questões de uma vez só: para começar, todas aquelas em que não conseguimos identificar um agente responsável pelos acontecimentos. A colheita foi boa? Deus quis. Foi péssima? Obra Dele, também, por algum de seus desígnios. Surgiu um câncer? Desapareceu sozinho? Nossos olhos e ouvidos internos são estruturas complexas e aparentemente improváveis? Obra de Deus.

Uma alternativa é aceitar que cânceres, dilúvios, seres altamente complexos e tantas outras coisas simplesmente acontecem, sem um Agente identificável. São obra do Acaso, ou da Natureza, ou de algum outro agente ainda não identificado. Para mim e meus colegas ateus (ou agnósticos: não vejo diferença prática entre uns e outros, assim como não vejo diferença entre crer na inexistência de Deus ou não crer na Sua existência), essa é nossa crença. A crença em um Ser superior, portanto, é tão boa quanto qualquer outra crença, posto que são crenças, justamente: nem melhor, nem pior.

E no entanto, não temos liberdade para dizer que não cremos em Deus, ou que acreditamos em debates (sobre o aborto ou o casamento gay, por exemplo) que NÃO envolvam a religião. É devido à imposição de Deus, crença aparentemente compulsória nesse país, que tem-se o nojo que anda o jornal O Globo e, nojo dos nojos que deixou minha ínsula absolutamente revoltada, a revista Veja da semana passada (digo isso somente agora, tarde demais para que meu repúdio gere curiosidade e os ajude a vender exemplares).

Pois cansei de ser discriminada. Quero ter direito à liberdade de exercer minha não-religiosidade e a não ser considerada pior do que os religiosos por não crer em Deus. Defendo os direitos dos religiosos de curtirem suas crenças em paz, e acho o máximo conhecer a cultura, os valores e as particularidades de judeus, muçulmanos e tantos outros – mas está na hora de os não-religiosos também terem a sua não-crença respeitada.

E respeito começa pela não-imposição de valores. Assim como não desejo que todos os brasileiros abandonem suas crenças particulares, repudio ardentemente a imposição de valores católicos ou evangélicos ou de qualquer outra religião à política e aos meus direitos civis. Quero um Estado laico de fato: que respeite a diversidade de crenças, incluindo aquela na inexistência de Deus, e não tome decisões pautadas por religião alguma. Não acredito em Deus, mas acredito no ser humano, acredito em fazer o bem, e acredito que nossa liberdade tem que ter limite onde nossas crenças e ações começam a interferir na liberdade dos outros.

E a partir de agora, podem ter certeza que vou responder com todas as letras toda vez que me perguntarem, em cadeia pública ou em particular: sou ateia. Não acho necessário invocar um Deus criador, onipresente e onisciente para explicar o mundo, nós mesmos ou nossas ações, não acredito que ele exista, e creio que ele de fato não existe. Faço o bem porque acredito em fazer o bem e acredito nas pessoas, e não por temor a um Deus. E não acho que eu seja uma pessoa pior porque minha vida é pautada em valores que não incluem um Deus. Pronto. Assim vou fazer minha parte pela liberdade de expressão religiosa *e* não-religiosa. Inclusive porque, como Fernando Pessoa bem escreveu, não ter Deus é um Deus também”…

Conversa com o Zavgubnarobraz – chefe do Departamento de Educação da Província

Por Anton Semiónovich Makarenko*

Em setembro de 1920, o Zavgubnarobraz me convocou à sua presença e disse:

― Olhe aqui, meu caro, ouvi dizer que você anda reclamando à beça… porque eles… do Conselho Econômico da Província… lhe cederam aquele lugar ali… para a sua escola profissional…

― E como é que eu não havia de reclamar? O caso não é só de reclamar, é caso de sentar e chorar aos uivos: que espécie de escola profissional é aquilo? Imunda, empestada de fumo! Então aquilo ali parece uma escola?

― Pois sim, já sei do que é que você gostaria: que construíssem um prédio novo, colocassem carteiras novinhas, aí então você se poria a trabalhar. Não são os prédios que importam, meu caro, o que importa é educar o homem novo, mas vocês, pedagogos, sabotam tudo: é o prédio que não lhes agrada, são as mesas que não lhes servem. O que lhes falta é aquele fogo… o fogo, sabe ― aquele… o revolucionário. Janotas, é o que vocês são.

― Eu até que não sou janota.

― Vá lá, você não é… Intelectuais sarnentos!… Eu procuro e procuro, temos uma tarefa tão grande pela frente: proliferam esses vagabundos, moleques abandonados ― não se pode mais andar pela rua, até residências eles invadem. E só o que eu ouço é, isto é assunto seu, responsabilidade do Departamento de Educação Pública… E então?

― E então, o quê?

― É isso aí: eles não querem nem saber, com quem quer que eu fale, só recebo recusa redonda ― eles vão nos esfaquear, falam. O que vocês querem é um bom escritorinho, seus livrinhos… Olhe só para você, até óculos já botou…

Desatei a rir:

― Ora vejam, agora até meus óculos atrapalham!

― O que eu quero dizer é que vocês só querem saber de leitura, mas se lhes puserem pela frente um ser humano vivo, lá vão vocês: o tal ser humano vivo vai me matar! Intelectuais!

O Zavgubnarobraz me espetava com seus olhinhos negros enfezados, e de sob o bigode nietzchiano, emitia impropérios contra toda a nossa confraria pedagógica. Só que ele não tinha razão, esse Zavgunarobraz.

― Mas ouça-me, por favor…

― “Ouça-me, ouça-me…” Ouvir o quê, para quê? O que é que você pode me dizer? Vai me dizer, ah, se fosse daquele jeito… como na América! Há pouco eu li um livreco a esse respeito, alguém me empurrou. Reformador… ou, como é mesmo, espere… isso mesmo, reformatórios. Pois bem, isso nós ainda não temos.

― Não é isso, o senhor me escute.

― Muito bem, estou escutando.

― Mesmo antes da Revolução já se sabia lidar com esses vagabundos. Já existiam as colônias para delinqüentes juvenis.

― Isso não nos serve, sabe… O que foi antes da Revolução não presta para nós.

― Certo. Isso significa que temos de criar o homem novo de maneira nova.

― De maneira nova, isso mesmo, nisso você está certo.

― Mas ninguém sabe de que jeito fazer isso.

― Nem você sabe?

― Nem eu sei.

― Pois aqui comigo, sabe… eu tenho uns caras aqui mesmo no Departamento de Educação da Província que sabem…

― Mas não querem pôr mãos à obra.

― Não querem, os safados, quanto a isso você acertou.

― Mas se eu começar alguma coisa, eles vão infernizar-me a vida, vão acabar comigo. Faça o que fizer vão dizer que não é nada disso.

― Vão mesmo, os desgraçados, nisso você está certo.

― E o senhor vai acreditar neles e não em mim.

― Não vou acreditar neles, vou dizer-lhes: e por que não começaram vocês mesmos?

― Mas, e se eu de fato meter os pés pelas mãos?

O Zavgubnarobraz deu um murro na mesa:

― Mas que conversa é essa de meter os pés pelas mãos? Meter os pés pelas mãos? Então você vai meter os pés pelas mãos, e daí, ora bolas! O que é que você quer de mim? Acha que eu não compreendo nada, ou  quê? Então faça as suas trapalhadas, meta os pés pelas mãos, mas o trabalho tem de ser feito. Faça, e depois veremos. O principal é que, sabe… não se trata de alguma colônia de delinqüentes juvenis qualquer, mas, você entende, é a Educação Social… Precisamos de um homem novo assim… um que seja nosso! E você trate de construí-lo. De qualquer jeito, todos têm de aprender. Então você vai aprender, também. Até que foi bom você me dizer na cara que não sabe. Pois então está resolvido, e tudo bem.

― Mas existe um lugar? Uns prédios sempre são necessários, apesar de tudo.

― Existe, meu caro. Um lugar e tanto. Exatamente no local onde ficava a antiga colônia de delinqüentes juvenis. Não é longe ― umas seis verstás. É gostoso ali: bosques, campos ― dá para criar umas vacas…

― E gente?

― Vou já, já tirar gente do bolso, para você. Quem sabe vai querer também um automóvel?

― E dinheiro?

― Dinheiro temos. Aqui, receba.

― Ele tirou um pacote de notas da gaveta da escrivaninha.

― Cento e cinqüenta milhões. Isto dá para qualquer tipo de despesa de organização e para alguma mobília de que precise…

― E para as vacas?

― As vacas vão ter de esperar; lá não há nem vidraças. E para o ano você me prepara uma estimativa.

― Mas fica meio esquisito, assim ― não seria bom eu dar uma olhada ali, antes?

― Eu já olhei… e daí, acha que você vai enxergar mais do que eu? Vá para lá duma vez e pronto!

― Pois muito bem ― disse eu, aliviado, porque naquele momento nada me parecia mais assustador do que o recinto do Conselho Econômico da Província.

― Assim é que se fala ― disse Zavgubnarobraz. ― Vá em frente! A causa é sagrada.

–  –  –

*Makarenko (http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/educar-coletivo-423223.shtml), nascido na Ucrânia em 1 de março de 1888, é um dos grandes educadores do século XX. Como afirma Tatiana  Belinky, na apresentação  do livro Poema Pedagógico, do qual ela é também tradutora: a “grande epopéia educacional” de Makarenko “começou de 1920 em diante, quando, durante 16 anos, dirigiu as instituições educacionais “correcionais” para crianças e adolescentes abandonados, que o tornaram famoso: a Colônia Maxím Gorki (em Poltava, 1920 a 1928), e a Comuna F. M. Dzerjinsk (em Khárkov, 1927 a 1935)“. Poema Pedagógico é um livro que vale a pena ser lido e relido (e um dos livros que eu vivo relendo), tanto pelo seu valor literário como pelo seu valor histórico: com muita sensibilidade e riqueza estética, Makarenko relata, através de verdadeiros contos extraídos da experiência concreta, a construção da educação socialista, no contexto da então recente Revolução de Outubro. “Conversa com Zavgubnarobraz…” é o primeiro “capítulo”, ou “conto”, do primeiro volume desse belo livro.

Bibliografia: MAKARENKO, A.S. Poema Pedagógico. – Trad. do russo e apresentação: Tatiana Belinky. – 2 ed. – SP: Brasiliense, 1987.