Caso Ecológico

Por Marcelo Siqueira

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São Bernardo do Campo, 13 de agosto de 2007.

 

                Caríssima Dalva,

 

                Em razão de você não ter podido, ontem, vivenciar conosco uma experiência singular, sinto-me compelido a relatar os fatos que se seguem, para que fiquem registrados nos anais da história de nossa Escola. Posso viver mais cem anos que ainda haverá tanto para me surpreender!

                Como você está ao par, há uma semana o banheiro dos meninos regorgita os detritos que, por sábias obviedades da lógica mecânica, deveriam descer louça e esgoto abaixo. Mas não! Com o mesmo ímpeto com que a força da água da descarga leva, uma outra diametralmente contrária devolve pelo ralo afora, lustrando o chão e comprometendo o andar tranquilo e a passagem que deveria ser quase inodora, arremetendo à visão dos pequenos – que, por motivos de natureza fisiológica, ousaram frequentar o coletivo – uma imagem um tanto quanto inusitada que não convém citar.

                Após solicitações por escrito e diárias por telefone advertindo às autoridades competentes da catástrofe que se anunciava e, após realmente a efetivação da catástrofe, obrigando a um exercício de autonomia e a uma tomada de decisão corajosa por parte da brava equipe de limpeza, que interditou o coletivo masculino, tendo como consequência meninos e meninas compartilhando das mesmas células…

                Enfim, após mais de sete dias de lama, telefonemas persistentes e mais caos ainda, os digníssimos homens da limpeza pública vieram nos salvar da lama e do caos instaurado. Abrindo a tampa da caixa do esgoto, qual não foi a surpresa ao constatarem os detritos que levaram o nosso protagonista, o banheiro, a tornar o caldo à superfície. Estupefatos, os homens da S.U. fizeram questão que víssemos com nossos próprios olhos que a terra há de comer, mas jamais haverá de apagar deles a triste figura vista, nada mais nada menos do que dezenas de garrafas de suco, de plástico dos antigos, depositados na caixa, impedindo a passagem da massa fermentada que, provavelmente, já estava atingindo um nível de pressurização que nos conduziria inevitavelmente a um novo Big Bang!

                Testemunhas foram arroladas não para proceder investigações que, a esta altura, resultarão certamente infrutíferas, mas para confirmar aos nossos olhos o que recusávamos, por força da lógica cartesiana, acreditar ver. O mestre que teve a idéia de depositar ali as garrafas transformou-se numa força oculta e intangível, uma lenda urbana, Saci-Pererê do Jardim das Orquídeas, traquineiro e misterioso… Minha mente se recusa a tentar compreender como as garrafas foram parar naquele espaço, portanto, se deseja prova do que relato – e acredito que as palavras já bastam – temos fotos, solicitadas como uma medalha de honra pelos indômitos homens da S.U: nelas figuram, além de tudo o que já foi citado, algumas poucas baratas e nenhum rato, que eles não se dão para tanto. O mais importante é que as vias estão desobstruídas e os pequenos podem voltar às suas atividades fisiológicas normalmente.

                Sem mais, sinceramente, atesto e dou fé.

2 comentários em “Caso Ecológico”

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