A Infanticida Maria Farrar

Maria Farrar, nascida em Abril,

menor, sem sinais particulares, raquítica, orfã,

sem qualquer condenação anterior, ao que se julga,

é acusada de ter assassinado uma criança, da seguinte forma:

Conta ela que já no segundo mês

em casa de uma mulher, num sótão,

tentou expulsá-lo com duas injecções

dolorosas, como se calcula, mas não saiu.

*

Não se indignem por favor,

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

*

Assegura contudo, ter pago de imediato

o estipulado, ter continuado a apertar a cintura,

ter também tomado aguardente com pimenta moída,

o que apenas serviu de forte purgante.

O corpo estava inchado e sentia também

dores frequentes quando lavava os pratos.

Estava ainda em idade de crescer, segundo ela própria dizia.

Rezou à Virgem Maria com muita fé.

*

A vós também, peço que não se indignem,

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

*

As orações, ao que parece, não serviram de nada.

Pedia-se demasiado. Quando já estava mais cheia

sentia vertigens durante a missa. Suava muito.

E também suava de medo, com frequência, diante do altar.

Mas fez segredo sobre o seu estado

até ser surpreendida pelo nascimento.

Isto resultou, pois ninguém pensava

que ela, tão pouco atraente, pudesse ser presa de tentação.

*

E também a vós, peço que não se indignem,

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

*

Nesse dia, diz, bem cedinho,

estando a limpar as escadas, sentiu como que umas unhas

a arranhar-lhe o ventre. A dor

sacudia-a, mas conseguiu manter-se calada.

Todo o dia, enquanto estendia a roupa que lavou,

pensou e tornou a pensar, até se dar conta,

de coração apertado, que tinha mesmo que parir.

Só tarde subiu para o quarto.

*

A vós também, peço que não se indignem,

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

*

Quando estava deitada, vieram chamá-la;

tinha nevado e teve que varrer.

O trabalho durou até às onze. Foi um dia bem longo

Só pela madrugada pôde parir em paz.

Conta ela que pariu um filho.

O filho era igual aos outros filhos.

Mas ela não era como as outras, embora…

Não há motivo para brincadeiras.

*

A vós também, peço que não se indignem,

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

*

Assim, pois, deixemo-la contar

o que sucedeu com este filho

(diz ela que não quer esconder nada)

para que se veja como somos.

Diz que ficou pouco tempo na cama

angustiada e sózinha;

sem saber o que aconteceria a seguir

obrigou-se a conter com esforço os gritos.

*

A vós também, peço que não se indignem

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

*

Como o quarto também estava gelado,

segundo diz, arrastou-se com as últimas forças

até à latrina e ali

(quando, já não se recorda) pariu

sem ruído até ao amanhecer.

Estava, diz ela, muito perturbada nesse momento,

já meio entumescida, mal podia segurar o menino

prestes a cair na latrina dos criados.

*

A vós também, peço que não se indignem,

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

*

Então, quando ía da retrete para o quarto

– antes, diz ela, não aconteceu nada – a criança

começou a gritar. Isso afligiu-a tanto

que se pôs a bater-lhe com os dois punhos,

cega sem parar até a criança ficar quieta.

Então, levou o morto

consigo para a cama durante o resto da noite

e pela manhã escondeu-o na lavandaria.

*

A vós também, peço que não se indignem,

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

*

Maria Farrar, nascida em Abril,

falecida na prisão de Meissen,

mãe solteira, condenada,

quer mostrar-vos os crimes de todo o ser humano.

Vós que paris sem complicações em lençóis lavados

e chamais “bendito” ao vosso ventre prenhe,

não condeneis estas infames fraquezas

porque, se o pecado foi grave, o sofrimento também foi grande.

*

Por isso peço que não se indignem

pois toda a criatura precisa da ajuda de todos.

                                                   (Bertolt Brecht)

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