Da carta aos banqueiros à carta às parteiras

Por Vinicius Canhoto*

“A violência que existe contra todas as meninas e mulheres”

Renato Russo IN: Clarisse

 

Será que eu sou medieval? Baby, eu me acho um cara tão atual
Na moda da nova Idade Média. Na mídia da novidade média

Cazuza IN: Medieval

 

            As últimas querelas e calúnias políticas me obrigaram, por decepção e angústia, a sair do silêncio de leitor e recorrer ao barulhento trabalho de autor. A carta pública assinada ontem pela candidata Dilma Roussef em que se compromete a não interferir pessoalmente, enquanto membro do executivo, nas questões religiosas e aborto, me lembrou a carta “ao povo brasileiro” assinada por Lula às vésperas da eleição de 2002. Em ambos episódios, essas cartas vieram para atenuar o temor criado pela mídia e pelos adversários políticos diretos. Ambas as cartas foram recados conservadores que, apesar de todo floreio e estilo de escrita, poderiam se resumir à simples expressão: “Nada vai ser mudado”. Daí surge a pergunta: o que motiva ambas as cartas e o que as difere?

            A primeira carta foi um compromisso que Lula assumiu de não alterar as regras e a forma de fazer economia na época. Por conta disso, muitos (inclusive eu) a chamam de “carta aos banqueiros”, pois o temor de uma “radicalização” na política econômica vinha sendo alimentado tanto pela imprensa partidária (em todos os sentidos da palavra), quanto pelo bloco PSDB/PFL. Nesta carta, Lula, por conta do contexto criado, vestiu a capa (ou será cartola?) do conservadorismo econômico para evitar a terceira derrota na eleição.

            A segunda carta, por mais irônico que pareça, é ainda mais conservadora e regressiva. Ao modo da primeira, esta carta diz: “Nada vai ser mudado”. Porém o que motiva e difere esta segunda carta da primeira é a religião e o aborto. O tema nivelou a campanha por baixo. Pouco importa quem privatizou mais, quem privatizou menos, quem desenvolveu mais o país, quem desenvolveu menos, quem melhorou educação, saúde, quem criou programas sociais ou qualquer outro tema mais abrangente. Esta campanha está sendo pautada pela calúnia, pela difamação, por aquilo que ficou famoso por Goebbels: “Invente uma mentira, repita-a mil vezes e ela se torna verdade”. Para desmentir uma invenção da Mônica Serra de que a candidata do PT “é a favor de matar criancinhas”, Dilma Roussef se viu levada a escrever aquilo que eu chamo de “carta às parteiras” para não dizer “carta às aborteiras”. Isso para tentar estancar a rede de boataria pela internet, pelos altares, pelos palcos, pelos púlpitos, pelos panfletos, pelo boca-a-boca de que a candidata é a favor de “matar criancinhas”.

Campanha subterrânea e anônima endossada pela imprensa partidária e tudo mais. E o pior que isso é tanto de um lado, quanto de outro. Da ala “dilmista” também surgem (em menor escala) histórias de abortos assumidos e não assumidos publicamente do lado tucano.

            O que move esta questão e a segunda carta, para mim, é pior que a primeira. Se a primeira mandava um recado nas entrelinhas: “OK, a farra financeira continua!”; esta segunda diz: “OK, sigamos com chás, comprimidos, e agulhas de tricô”. Pois demagogia a parte, como todos sabem (e se não sabem deveriam saber) quem tem dinheiro faz aborto em clínicas clandestinas, porém seguras, sem o menor risco para a mulher. E quem recorre aos outros expedientes? Mulheres pobres que não têm (e aqui não vamos entrar nos méritos, para isso recomendo o texto da Maria Rita Kehl, intitulado Repulsa ao Sexo, também publicado nesta seção) condições de assumir uma gravidez e se aventurarem em processos desesperados de interrupção de gravidez que muitas vezes resultam em mortalidade feminina. Particularmente, sou a favor de qualquer liberdade individual e descriminalização de atos referente ao próprio corpo. Isso vale para a mulher que quer abortar, para indivíduo que quer se drogar, para o suicida. Estas questões não deveriam passar pelo crivo do Estado. As religiões podem até debater esta questão, porém cabe a cada um, de acordo com seu critério, seja ele religioso, econômico, cultural, decidir o que é melhor para si. E no contexto de campanha, este tema vir à tona revela apenas o empobrecimento e o vale-tudo que se tornou o debate político atual.

            Para não dizer que não falei em literatura deixo como tema leitura o poema A infanticida Maria Farrar, do Brecht, que passei anos a fio procurando depois que eu o ouvi no teatro; para conhecê-lo, visite a seção Literários, deste Blog.

*Vinicius Canhoto é escritor e publica o Blog Inferno Riscado a Giz, dedicado à literatura.

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