Notas de Leitura: “A Infância como Construção Social”, de Manuel Pinto (6)

PINTO, Manuel. A Infância como Construção Social. In_ Pinto, Manuel; SARMENTO, Manuel Jacinto. As Crianças: Contextos e Identidades. Braga: Bezerra Editora, 1999.

3. Diluição de fronteiras entre adultos e crianças: o papel dos media.

A despeito das evoluções da noção de infância e da constituição desta enquanto categoria social sujeita de direitos, de sua valorização “ser um dado adquirido, ou talvez por isso mesmo”, acrescenta Manuel Pinto, ao menos nas sociedades ocidentais a infância continua a ser uma questão problemática e polêmica. Novamente recorrendo a Ariès, o autor ressalta que este estudioso já “notava sintomas de um fenômeno de mudança que, segundo ele, se caracterizava pela passagem de uma situação de ‘reinado absoluto da criança’ para outra situação em que ela passou a ser olhada e sentida como uma realidade incômoda e impeditiva de ‘um melhor desenvolvimento dos indivíduos e do casal’”.

Fenômenos sociais como a entrada em grande escala das mulheres no mercado de trabalho e o próprio desenvolvimento tecnológico constituem-se, segundo o autor, em fatores que acarretaram num substancial e paradoxal “aparente desinvestimento” na infância. Paradoxal porque ocorre justamente numa época em que os direitos são consagrados, inclusive pela aprovação da Convenção dos Direitos da Criança, em 1989.

Pinto, ao discutir sobre a contemporaneidade caracterizar-se por uma infantilização da sociedade e – recorrendo às interpretações de Postman – pela crescente diluição de fronteiras entre adultos e crianças, considera a existência do que podemos denominar como uma crise de identidade do mundo adulto. Assim, constata que, no campo dos discursos, encontram-se dois argumentos “tendencialmente opostos”:

  • A ênfase nos valores e nas vantagens da juvenilidade – discurso segundo o qual o adulto “não passa de um mito, porquanto pressupõe a idéia de acabamento e de cristalização, estranha a uma sociedade em mudança que exige uma constante adaptação”;
  • A persistência da maturidade como um objetivo a ser atingido, para o qual a educação deve estar a serviço.

Recorrendo a Neil Postman, o autor revela que a diluição da fronteira entre o mundo dos adultos e das crianças “manifesta-se no vestuário, nos jogos, nos comportamentos sociais, no tipo de linguagem” – campos que mais delineavam os limites entre os dois mundos. Correspondente à descaracterização da adultez, segue a descaracterização da idéia de infância, uma vez que ambas são categorias cujos significados constroem-se não apenas de forma concomitante, mas associada.

Ainda segundo Postman, entre outros, tal desconstrução é patrocinada pelo “ambiente cultural criado pelos meios de comunicação eletrônicos”. A televisão, e a mídia eletrônica em geral, interpõem-se entre a família – ou escola – e a criança, implicando na impossibilidade do “controle e da gestão” da informação. A criança é submetida ao contato direto (e irrestrito) com o mundo adulto: “através da exposição à TV, as crianças vão adquirindo referências para avaliar e comparar os hábitos, comportamentos e crenças da sua família e do mundo dos adultos em geral”, o que faz com que a família deixe de ser uma influência decisiva para a criança, conforme avalia Meyrowitz.

Segundo Marie Winn, há uma semelhança “entre o apagamento da infância que se verificaria nos nossos dias e a situação existente nos finais da Idade Média, em que as crianças eram representadas como adultos em miniatura”. O agravante em nossa época – acrescento – é que não apenas crianças são estimuladas a assemelharem-se, em comportamento, atitudes, vestimentas etc, como também os adultos buscam assemelharem-se, em comportamento, atitudes e vestimentas, às crianças. (CONTINUA…)

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